Tropecei, caí. É que não sou desses que consegue andar sempre em linha reta. Ainda mais quando eu me machuco. Sabe como é... as costelas comprimem o pulmão e o coração aperta de um jeito tão forte que parece que tão de pequeno vai acabar sumindo.
E eu já caí tantas vezes que o chão nem parece assim um lugar tão horrível assim. Eu sei que racionalmente eu tenho que reunir forças para levantar e seguir em frente, sempre em frente, porque é a única direção possível.
Mas essa trajetória não está fácil. Nunca esteve. Eu me perco com uns mapas antigos. Me iludo com miragens. Nutro esperança no que já foi. É errado, eu sei. É inapropriado, eu sei. Mas eu não sou de ferro.
Ao contrário. Enquanto eu acompanhar o giro deste mundo eu sou carne e sentimentos que eu nem sabia que existiam. E por mais difícil que seja ficar de pé, cada queda me deixa com menos medo de cair.
É que eu ainda quero respostas. Porque não há caminhada possível com tanto tormento nas ideias. Não é eficaz. Pode ser perigoso. Mas eu não tenho medo de lugares escuros. Por isso eu cavo, flerto com abismos, faço cagadas, como essa.
Talvez eu precisasse de uma lanterna maior, que iluminasse mais, mas é que depois de algum tempo o olho se acostuma com a escuridão. Mas olha, eu nem tô me justificando nem nada. Enfim, deixa quieto. Segue o baile. Vida que segue
Sinto muito se caí. Mas é que simplesmente não tem como não estar vulnerável. Não dá para fingir indiferença. Eu não sou bom em mentir. Também não vou bancar o forte. Nem negar as indiretas. Eu estava tentando o silêncio quando de repente tomo um tiro.
Talvez haja mais cuidados com as armas a partir de agora.
segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018
sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018
Então vem cá
Então vem cá. Me faz chorar beijando minha boca cheia de aftas. Invade minha boca com tua língua com teus lábios com teus dentes. É carnaval, meu amor, vamos suar. E como ficar sem camisa nos desfiles dos bloquinhos com esses buracos nos pelos do meu peito? O jeito é vencer a vergonha. Glitter. Vamos valorizar a história dos nossos corpos. E hoje o que ela conta é que eu fui fazer um exame de esteira. Para ver como anda o coração. O que significa que eu tô tentando me cuidar. Preciso comer mais frutas inclusive. Menos açúcares processados e industrializados. É que é tão gostoso bebê. É que é tão prático, meu anjo. É que dá um alívio na ansiedade. Vem me beija. É carnaval. Ninguém se pega nessa porra de cidade. É carnaval, vamos sair por aí. Vamos beber vodka com groselha. Taca purpurina na vida para disfarçar a tristeza. Oi meninas turupom? No tutorial de hoje eu vou ensinar como fazer uma make que não borra com as lágrimas. É quando os dias tão meio pombo, a vida tá meio pombo, uma montanha de bosta. Nada acontece, feijoada etc aquela coisa toda. Mas o céu. Meu amor. O céu tá promissor. As condições astrológicas estão favoráveis, entendeu? Agora vai, agora vai. Não foi. Não será. Não mais será. Mas o meu horóscopo ontem disse que. Mas como assim propício? Então vai. Vem cá. Vamos para uma festa de peladeza. Vamos nos endividar. Vamos voltar para a academia. Vamos escrever um novo romance, uma nova peça, vamos escrever até poesia e transformar tristeza em artesanato e vender nossas missangas na praia. Sair pixando a cidade, colando lambe lambe por aí. Mijar nessa porra toda. Toma aqui os quinhentos reais. Vamo cagar essa merda. E testar novas linguagens. Furar os pneus dos carros. Apertar a campainha dos vizinhos e sair correndo e correr e correr e correr como se estivesse na esteira e arfar e ficar sem ar e se beijar com falta de ar mesmo e com aftas na boca e com lágrimas nos olhos. Porque baby. Você não é a mesma pessoa de três anos atrás. Eu já quis morrer no carnaval, eu já trabalhei no carnaval eu já fui indiferente ao carnaval e já quis que o carnaval acabasse. Agora tudo o que eu mais quero é uma garrafa de champanhe, um baldin de gelo e vai subindo e carnaval feat pitbull. Eu tive fases. Mas Carnaval de Salvador eu só vou com tudo pago. Gostei de BBB, depois não gostei. Nem tudo consegui acompanhar. Depois gostei de novo. Até de novela eu era contra, depois não mais. E eu ainda assisto a novela de 2015. Daí a vida me atropelou. Já assinei o pay-per-view em edições anteriores. Agora eu assisto, mas não voto. E eu tenho nossos históricos. Comento mas não nado contra a maré do que a enquete do Uol determina. Se fosse só meu o programa seria outro. Como é possível a pessoa ser tão escrota assim? Não é assim que as coisas começam, sabiam? Mas mil coisas para fazer antes de morrer. 2018. Participar de um reality show. Vai ver nem precisava ter raspado os pelos no peito. Devia ter pulado fora antes. Marcado para depois. E o que é o amor? O foda é que a clínica corazon onde fazem o exame sem depilar só tinha data para março. De férias com o Ex. Mil maneiras de morrer antes de morrer. Uma merda. Depois riscar. Parece coisa que faz mais por costume porque alguém inventou em 1900 e boliha. Não levar os issues para a avenida. Né possível que com todo o avanço da medicina ainda não tenham desenvolvido uma cola eficaz para os eletrodos. Aproveitar a terapia. Fazer uma nova tatuagem. E um ensaio fotográfico nu. Entendo agora quem fica chateado porque fica careca quando tá com câncer. Nem ligo para o meu cabelo, mas dos meus pelos eu gosto. Tá todo mundo mal de novo. Vem gente. Vamo se abraçar. Curar as dores do mundo. #Sextou. É carnaval. Vamo se beijar.
sexta-feira, 8 de dezembro de 2017
quarta-feira, 29 de novembro de 2017
Orgia literária
Eu hoje fui à minha quarta festa do livro da Usp consecutiva desde que voltei a ir em festas do livro da Usp, em 2014, e em grande parte do dia tudo o que eu senti hoje foi uma euforia tão grande, que achei que valia registrar essa digressão de sentimentos.
Não sei se posso chamar essa euforia de felicidade, mas acho que foi algo bem próximo disso. Comprei livros como há um tempinho eu não comprava. Foi bem difícil fechar uma lista prévia, se ater e não extrapolar os limites e o orçamento estipulado, mas foi um desafio interessante.
Claro que faltaram vários livros e quadrinhos que eu queria e que com um pouco de sorte estarão lá no ano que vem, mas eu adquiri uns livros tão bons e há tanto tempo esperados que não posso deixar de comemorar.
A crise, porque sempre tem que ter um crise, é viver neste mundo em que eu ando carregando uma culpa que não é minha em relação às desigualdades. Mas é isso, né? Ter olhos e sensibilidade para as injustiças deste mundo faz às vezes com que a gente tome para nós uma culpa que deveria ser sei lá, de quem liga pros outros para pedir dois milhões, if u know what i mean.
Caixas de livros deliciosos, que gerarão ansiedade por não estarem sendo lidos todos ao mesmo tempo agora, que trarão prazeres inenarráveis devido às qualidades das construções narrativas, que deverão me puxar pelo peito, me chacoalhar por inteiro e fazer com que eu mude a minha vida e minha percepção e que provavelmente farão com que eu queira arrancar os cabelos, porque como assim eu nunca tinha lido isso antes ainda?
A segunda coisa que mais me arrepiou no dia foi o trailer de "Vingadores – Guerra Infinita", mas nem isso conseguiu fazer com que sumisse esse desejo de deitar na cama e ficar lendo um pouquinho de cada um dos novos livros, me esfregando em cada um deles, gozando com seus cheiros e conteúdos, tipo aquela cena de "Beleza Americana" da menina coberta com as pétalas de rosas, mas no caso, seria eu pelado, com os livros novos e até os antigos da minha estante.
Não sei se posso chamar essa euforia de felicidade, mas acho que foi algo bem próximo disso. Comprei livros como há um tempinho eu não comprava. Foi bem difícil fechar uma lista prévia, se ater e não extrapolar os limites e o orçamento estipulado, mas foi um desafio interessante.
Claro que faltaram vários livros e quadrinhos que eu queria e que com um pouco de sorte estarão lá no ano que vem, mas eu adquiri uns livros tão bons e há tanto tempo esperados que não posso deixar de comemorar.
A crise, porque sempre tem que ter um crise, é viver neste mundo em que eu ando carregando uma culpa que não é minha em relação às desigualdades. Mas é isso, né? Ter olhos e sensibilidade para as injustiças deste mundo faz às vezes com que a gente tome para nós uma culpa que deveria ser sei lá, de quem liga pros outros para pedir dois milhões, if u know what i mean.
Caixas de livros deliciosos, que gerarão ansiedade por não estarem sendo lidos todos ao mesmo tempo agora, que trarão prazeres inenarráveis devido às qualidades das construções narrativas, que deverão me puxar pelo peito, me chacoalhar por inteiro e fazer com que eu mude a minha vida e minha percepção e que provavelmente farão com que eu queira arrancar os cabelos, porque como assim eu nunca tinha lido isso antes ainda?
A segunda coisa que mais me arrepiou no dia foi o trailer de "Vingadores – Guerra Infinita", mas nem isso conseguiu fazer com que sumisse esse desejo de deitar na cama e ficar lendo um pouquinho de cada um dos novos livros, me esfregando em cada um deles, gozando com seus cheiros e conteúdos, tipo aquela cena de "Beleza Americana" da menina coberta com as pétalas de rosas, mas no caso, seria eu pelado, com os livros novos e até os antigos da minha estante.
quarta-feira, 8 de novembro de 2017
Conjunto vazio ou falando com as paredes
Nada vezes nada vezes nada.
Falar e não dizer coisa nenhuma.
Eu ainda de verdade não sei o que é pior ou me atormenta mais.
É impossível uma terceira via?
Falar e não dizer coisa nenhuma.
Eu ainda de verdade não sei o que é pior ou me atormenta mais.
É impossível uma terceira via?
{Ø}
quinta-feira, 26 de outubro de 2017
Am-bu-lan-tes
Quase na maioria das vezes eles pedem desculpa por incomodar as nossas leituras, as nossas conversas e as nossas viagens.
Sim, precisamos falar sobre os ambulantes do metrô.
É que eu tenho tomado um pouco menos de metrô esses tempos, por motivos que não interessam agora.
Mas há uns bons meses é perceptível que aumentou a presença deles no metrô.
Abstraído no maravilhoso mundo da literatura confesso que eu me incomodei algumas vezes com vendedores nos vagões.
De repente uma voz sobressalta oferecendo algo que você não quer, não pode comprar e não precisa ou talvez possa, queira e precisa, vai saber.
É que do alto do meu conforto desta vida proletária classe C atrapalhava a minha leitura.
Mas daí eu parei para pensar. Uma voz que fala alto tentando me vender algo em um momento que eu estou fazendo outra coisa. Onde foi que eu vi isso antes?
Teria sido na TV, nos jornais ou nas revistas? Nos meios dos textos pela internet afora? Em banners, outdoors, relógios e pontos de ônibus? Talvez tenha sido antes, durante ou depois de um vídeo no Youtube ou vai ver é a cada três nos Stories no Instagram.
Ah, gente. Vamos lá, aula básica sobre como funciona o capitalismo, tá até no manual de como escrever uma boa redação para a Fuvest.
O capitalismo precisa de uma massa de desempregados pra garantir o lucro, porque é assim que a coisa funciona. Cortar gastos demitindo alguém que tem um salário “alto” e contratar outra pessoa pagando menos. É aquela velha história.
Brasil, crise financeira, desempregados, o povo precisando viver, botar comida em casa, boletos e etc. Acho que deu pra sacar qual é a ideia.
Num primeiro momento você se incomoda, né, com esse comércio ilegal do shopping trem. É uma disputa grande por espaço, sem falar que a oferta de produtos é excessiva.
Dia desses eu vi um pessoalzinho no Twitter comentando sobre isso.
Questão aqui é que o alvo tá errado. As pessoas que vendem bala fini, fone de ouvido, pendrive, lente pra selfie, pau de selfie, chocolate e afins são só... bem, pessoas. E estão dando duro e tentando fazer o melhor pra ganhar a vida, igual a qualquer um que não está naquela situação.
Então sei lá, fica aí a sugestão do exercício de empatia, solidariedade e expansão da mente e do ponto de vista. O trabalho dessa galera pode até te incomodar e você ficar morrendo de ódio, mais do que já morre de ódio na vida e no metrô paulistano. Mas ele não é tão diferente assim de toda a publicidade com a qual você já está acostumado, naturalizado e engole pacificamente.
No fundo essas pessoas não são tão diferentes de publicitários bacanas que ganham prêmios em Cannes. Sem falar que é um desperdício para o próprio sistema que muitas delas não estejam em empregos formais. Há muita gente boa de lábia e criativa.
Lidar com uma série de adversidades e correr o risco constante de perder mercadorias em um jogo de gato e rato que não se esgota não é fácil e exige jogo de cintura, canela e esperteza. E tudo isso em nome de nada, daquele 1% sem rosto mais rico da população a quem esse corre corre no fundo protege e beneficia.
Então pessoal fica aí o reforço. A próxima vez que vocês sentirem raiva dos ambulantes no metrô, lembrem-se que na verdade esta raiva é do capitalismo e dos efeitos sociais que isto gera.
Beijos, paz e namastê.
Sim, precisamos falar sobre os ambulantes do metrô.
É que eu tenho tomado um pouco menos de metrô esses tempos, por motivos que não interessam agora.
Mas há uns bons meses é perceptível que aumentou a presença deles no metrô.
Abstraído no maravilhoso mundo da literatura confesso que eu me incomodei algumas vezes com vendedores nos vagões.
De repente uma voz sobressalta oferecendo algo que você não quer, não pode comprar e não precisa ou talvez possa, queira e precisa, vai saber.
É que do alto do meu conforto desta vida proletária classe C atrapalhava a minha leitura.
Mas daí eu parei para pensar. Uma voz que fala alto tentando me vender algo em um momento que eu estou fazendo outra coisa. Onde foi que eu vi isso antes?
Teria sido na TV, nos jornais ou nas revistas? Nos meios dos textos pela internet afora? Em banners, outdoors, relógios e pontos de ônibus? Talvez tenha sido antes, durante ou depois de um vídeo no Youtube ou vai ver é a cada três nos Stories no Instagram.
Ah, gente. Vamos lá, aula básica sobre como funciona o capitalismo, tá até no manual de como escrever uma boa redação para a Fuvest.
O capitalismo precisa de uma massa de desempregados pra garantir o lucro, porque é assim que a coisa funciona. Cortar gastos demitindo alguém que tem um salário “alto” e contratar outra pessoa pagando menos. É aquela velha história.
Brasil, crise financeira, desempregados, o povo precisando viver, botar comida em casa, boletos e etc. Acho que deu pra sacar qual é a ideia.
Num primeiro momento você se incomoda, né, com esse comércio ilegal do shopping trem. É uma disputa grande por espaço, sem falar que a oferta de produtos é excessiva.
Dia desses eu vi um pessoalzinho no Twitter comentando sobre isso.
Questão aqui é que o alvo tá errado. As pessoas que vendem bala fini, fone de ouvido, pendrive, lente pra selfie, pau de selfie, chocolate e afins são só... bem, pessoas. E estão dando duro e tentando fazer o melhor pra ganhar a vida, igual a qualquer um que não está naquela situação.
Então sei lá, fica aí a sugestão do exercício de empatia, solidariedade e expansão da mente e do ponto de vista. O trabalho dessa galera pode até te incomodar e você ficar morrendo de ódio, mais do que já morre de ódio na vida e no metrô paulistano. Mas ele não é tão diferente assim de toda a publicidade com a qual você já está acostumado, naturalizado e engole pacificamente.
No fundo essas pessoas não são tão diferentes de publicitários bacanas que ganham prêmios em Cannes. Sem falar que é um desperdício para o próprio sistema que muitas delas não estejam em empregos formais. Há muita gente boa de lábia e criativa.
Lidar com uma série de adversidades e correr o risco constante de perder mercadorias em um jogo de gato e rato que não se esgota não é fácil e exige jogo de cintura, canela e esperteza. E tudo isso em nome de nada, daquele 1% sem rosto mais rico da população a quem esse corre corre no fundo protege e beneficia.
Então pessoal fica aí o reforço. A próxima vez que vocês sentirem raiva dos ambulantes no metrô, lembrem-se que na verdade esta raiva é do capitalismo e dos efeitos sociais que isto gera.
Beijos, paz e namastê.
segunda-feira, 23 de outubro de 2017
The Clock
Eu sei que tá rolando a Mostra, que daqui a pouco tem MixBrasil e antes disso tem Satyrianas e Balada Literária, mas tentem colocar na agenda algumas horinhas para ver “The Clock” uma das coisas mais legais em cartaz/em exibição em São Paulo e com entrada gratuita no Instituto Moreira Salles.
Pude ficar só uma hora ontem, mas a experiência é muito legal e pretendo voltar em breve para passar mais um tempo lá.
“The Clock” é ao mesmo tempo um filme e um relógio. Para ser mais preciso, a obra é uma instalação de um artista chamado Christian Marclay. Ela é composta de pequenos trechos de outros filmes em que há um relógio em cena ou menção à hora equivalente. Desta forma a hora apresentada na tela está em sincronia com a hora da “realidade”.
A montagem traz material de cem anos de história do cinema, sobretudo americano.
São muitas cenas e é muita coisa para prestar atenção, mas peguei “Amélie Poulain”, “O Exorcista”, Al Pacino em dois filmes - um deles “O Advogado do Diabo” -, Debra Messing, Samuel L. Jackson e Ben Affleck, que eu sempre disse que seria um bom Batman.
Senti como meu repertório cinematográfico é limitado. Deu vontade de ir pra casa, assistir ao smilhões de filmes baixados, deu vontade de ficar ali, deitado/sentado por horas a fio, vendo o tempo passar na tela em milhões de referências para a vida.
Deu uma puta curiosidade de pensar como em tudo foi feito, no trabalho que deve ter dado para editar e no tanto de tempo que demorou para o filme ficar pronto. Deve ter sido muito. Há arte até no fazer e na concepção de uma obra coma essa.
O que eu mais gostei é que “The Clock” tem uma narrativa própria, que pode ser acompanhada de qualquer ponto e que pode ser abandonada em qualquer ponto, inclusive talvez seja interessante dedicar algumas horas para a contemplação. Ver o filme de madrugada ou de manhãzinha pode ser uma boa experiência.
Diversos aspectos do cinema podem ser entendidos ali. Direção de arte, direção de atores, fotografia, dramaturgia, montagem e sonoplastia. Foi muito legal, por exemplo, prestar atenção aos efeitos de sons de um filme de kung-fu em que cada soco e chute é acompanhado de um som totalmente artificial produzido num estúdio.
Para além de toda a fruição estética e intelectual da coisa, ter visto “The Clock” me pegou muito porque vem coroar um ano em que eu fiz uma série de cursos teóricos sobre as etapas de produção cinematográfica no Sesc Pompeia e que foram um bálsamo para a incerteza permanente e agoniante que é “o que é que eu faço agora?”.
Tem um texto bem bom que saiu na Folha sobre a instalação, aqui. Recomendo a leitura, mas depois da visita.
terça-feira, 17 de outubro de 2017
Vista parcial do dia
Pela janela a promessa de um dia gelado, nublado, feio e sem poesia.
Mas foi só sair de casa, vestindo a blusa de frio que o céu abriu.
Na verdade, uma parte do céu já estava azul antes mesmo de eu ir para a vida.
E o sol também já dava sua cara.
Eu é que não conseguia ver nada disso, porque estava limitado pela visão que me é possível.
Em quantas metáforas é possível pensar?
O quanto o nosso ser/estar no mundo não é limitado pelo lugar em que a gente está?
A previsão do tempo não era otimista nem mesmo no aplicativo do celular.
Quer dizer. Às vezes nem as melhores ferramentas dão conta do imprevisível.
E mesmo com todas as previsões contrárias fez sol.
Só não me arrependi de ter levado a blusa porque à noite esfriou.
Mas o boné, recém-adquirido dia desses, fez falta. E como fez.
Mas foi só sair de casa, vestindo a blusa de frio que o céu abriu.
Na verdade, uma parte do céu já estava azul antes mesmo de eu ir para a vida.
E o sol também já dava sua cara.
Eu é que não conseguia ver nada disso, porque estava limitado pela visão que me é possível.
Em quantas metáforas é possível pensar?
O quanto o nosso ser/estar no mundo não é limitado pelo lugar em que a gente está?
A previsão do tempo não era otimista nem mesmo no aplicativo do celular.
Quer dizer. Às vezes nem as melhores ferramentas dão conta do imprevisível.
E mesmo com todas as previsões contrárias fez sol.
Só não me arrependi de ter levado a blusa porque à noite esfriou.
Mas o boné, recém-adquirido dia desses, fez falta. E como fez.
quarta-feira, 20 de setembro de 2017
Liniker
Eu sei que todo mundo já deu sua opinião sobre o stories de Liniker no qual ela reclamava de um fã que havia passado a mão em sua bunda.
Teve esse texto todo cagado do Forastieri, teve esse que ia bem até dar aquela peidada molhada na tanga no final e teve o do Tony Goes que às vezes acerta, mas às vezes é o puro suco da decepção.
São tantos equívocos que eu também contribuir com meus vinte centavos, apesar de nem saber por onde começar.
Mentira. Vou começar pelos shows da Liniker no Sesc Vila Mariana que teve nos dias 21 e 22 de julho de dois mil e dezesexy.
Fomos, Raíra e eu, no primeiro dos dois dias de apresentação.
Conseguimos comprar o ingresso pela internet. Ê. Mas era balcão. Ah.
Liniker fez um show lindo. Lindo. Foi emocionante. De fazer me chorar um pequeno tico.
No final, na hora do bis, ela subiu por uma *passagem secreta* e foi do palco até o balcão pra interagir com os fãs que viram o show dela mais de longe.
Foi algo muito raro de se ver, sabe.
Uma artista cantando no meio do público, rompendo com essa relação fetichista e de divindade que cultivamos em relação aos famosos.
Ali, no meio da música, no meio do público, Liniker interagiu, tirou algumas fotos e não foi agarrada.
Ninguém se comportou descontroladamente.
Teve uma hora, quando tava para descer, que recusou uma foto que não estava rolando porque ela atrasaria o encerramento do show. E o Sesc, como vocês bem sabem, tem horário pra fechar etc.
Ainda assim, neste momento, ela deu a entender que receberia os fãs depois. Nem sei se recebeu. No dia seguinte uma amiga conseguiu tirar foto com ela no pós-show.
Mas essa história é pra contar que dá pra respeitar as pessoas, sem precisar fazer muito esforço. E não dói.
Inclusive, um dos momentos desagradáveis foi quando um cara que eu juro que aposto que é hétero chamou Liniker de gostoso umas duas ou três vezes.
Se era pra elogiar, que pelo menos chamasse de gostosa.
Daí esses dias eu estava lendo uns posts meus em um blog antigo que o Terra tirou do ar há algumas eras.
Eu falava sobre a primeira vez que eu tinha ido numa certa boate gay, que tinha passado a mão na bunda de uns boys e de como o Bruno ficou putíssimo comigo na época e de como eu não entendi o porquê.
Vai ver que pelo fator beleza o Bruno fosse mais assediado (talvez ainda seja) que eu nessa vida. Mas até então eu achava natural ir numa balada gay e eventualmente alguém passar a mão na minha bunda. Entendia isso como uma espécie de vibe do lugar.
Sexo, hormônio, desejo, liberdade.
Mas não é só sobre isso. Porque cada um tem um limite. A princípio antes, talvez, eu gostaria que passassem a mão na minha bunda. Mas agora vejo que isso pode ser muito inconveniente dependendo da situação.
E é curioso o Forastieri ter citado Luan Santana, porque eu fiquei justamente pensando no quanto seria impossível de o Luan fazer 1-) um show no Sesc, ou vá lá, numa Virada Cultural e 2-) ir para o meio do público. E no quanto isso é triste.
Simplesmente porque eu já fui em alguns shows do Luanilson, saudades, inclusive, e apesar de serem bons, não rola essa intimidade, essa troca, nem esse pé de igualdade entre ele e o público.
Mas né, até a Preta Gil, que não tem um público tão mainstream, tem seguranças pra tirar uns fãs mais exaltados do palco, que dirá Luan, que é total showbizz e tem um séquito gigantesco.
No mais, no meio do texto o Forastieri solta umas críticas aos artistas do circuito Sesc.
Eu tenho ido a um monte de shows no Sesc, sei lá, desde sempre. E olha, não fosse o Sesc ter uma programação eclética, diversa e relativamente barata, principalmente para quem é comerciário, eu não teria ido a metade dos shows (e peças de teatro também, mas isso é outra história) que fui neste ano e acho que em todos da minha vida.
Então o papel do Sesc é fundamental, ainda mais quando se ganha pouco.
O Sesc democratiza cultura, lazer, conhecimento e convivência.
Importantíssimo. Ainda mais em tempos de golpe e retrocesso.
A Maria Alcina, quando lançou seu “Espírito de Tudo” em um show no final de Agosto no Sesc Pompeia foi para o meio da pista e ninguém a assediou.
No mais, Liniker, você é maravilhosa, suas músicas tocam, inspiram e emocionam muita gente. Obrigado por existir e se bota mais pra jogo, meu amor.
Vamo que vamo.
Teve esse texto todo cagado do Forastieri, teve esse que ia bem até dar aquela peidada molhada na tanga no final e teve o do Tony Goes que às vezes acerta, mas às vezes é o puro suco da decepção.
São tantos equívocos que eu também contribuir com meus vinte centavos, apesar de nem saber por onde começar.
Mentira. Vou começar pelos shows da Liniker no Sesc Vila Mariana que teve nos dias 21 e 22 de julho de dois mil e dezesexy.
Fomos, Raíra e eu, no primeiro dos dois dias de apresentação.
Conseguimos comprar o ingresso pela internet. Ê. Mas era balcão. Ah.
Liniker fez um show lindo. Lindo. Foi emocionante. De fazer me chorar um pequeno tico.
No final, na hora do bis, ela subiu por uma *passagem secreta* e foi do palco até o balcão pra interagir com os fãs que viram o show dela mais de longe.
Foi algo muito raro de se ver, sabe.
Uma artista cantando no meio do público, rompendo com essa relação fetichista e de divindade que cultivamos em relação aos famosos.
Ali, no meio da música, no meio do público, Liniker interagiu, tirou algumas fotos e não foi agarrada.
Ninguém se comportou descontroladamente.
Teve uma hora, quando tava para descer, que recusou uma foto que não estava rolando porque ela atrasaria o encerramento do show. E o Sesc, como vocês bem sabem, tem horário pra fechar etc.
Ainda assim, neste momento, ela deu a entender que receberia os fãs depois. Nem sei se recebeu. No dia seguinte uma amiga conseguiu tirar foto com ela no pós-show.
Mas essa história é pra contar que dá pra respeitar as pessoas, sem precisar fazer muito esforço. E não dói.
Inclusive, um dos momentos desagradáveis foi quando um cara que eu juro que aposto que é hétero chamou Liniker de gostoso umas duas ou três vezes.
Se era pra elogiar, que pelo menos chamasse de gostosa.
Daí esses dias eu estava lendo uns posts meus em um blog antigo que o Terra tirou do ar há algumas eras.
Eu falava sobre a primeira vez que eu tinha ido numa certa boate gay, que tinha passado a mão na bunda de uns boys e de como o Bruno ficou putíssimo comigo na época e de como eu não entendi o porquê.
Vai ver que pelo fator beleza o Bruno fosse mais assediado (talvez ainda seja) que eu nessa vida. Mas até então eu achava natural ir numa balada gay e eventualmente alguém passar a mão na minha bunda. Entendia isso como uma espécie de vibe do lugar.
Sexo, hormônio, desejo, liberdade.
Mas não é só sobre isso. Porque cada um tem um limite. A princípio antes, talvez, eu gostaria que passassem a mão na minha bunda. Mas agora vejo que isso pode ser muito inconveniente dependendo da situação.
E é curioso o Forastieri ter citado Luan Santana, porque eu fiquei justamente pensando no quanto seria impossível de o Luan fazer 1-) um show no Sesc, ou vá lá, numa Virada Cultural e 2-) ir para o meio do público. E no quanto isso é triste.
Simplesmente porque eu já fui em alguns shows do Luanilson, saudades, inclusive, e apesar de serem bons, não rola essa intimidade, essa troca, nem esse pé de igualdade entre ele e o público.
Mas né, até a Preta Gil, que não tem um público tão mainstream, tem seguranças pra tirar uns fãs mais exaltados do palco, que dirá Luan, que é total showbizz e tem um séquito gigantesco.
No mais, no meio do texto o Forastieri solta umas críticas aos artistas do circuito Sesc.
Eu tenho ido a um monte de shows no Sesc, sei lá, desde sempre. E olha, não fosse o Sesc ter uma programação eclética, diversa e relativamente barata, principalmente para quem é comerciário, eu não teria ido a metade dos shows (e peças de teatro também, mas isso é outra história) que fui neste ano e acho que em todos da minha vida.
Então o papel do Sesc é fundamental, ainda mais quando se ganha pouco.
O Sesc democratiza cultura, lazer, conhecimento e convivência.
Importantíssimo. Ainda mais em tempos de golpe e retrocesso.
A Maria Alcina, quando lançou seu “Espírito de Tudo” em um show no final de Agosto no Sesc Pompeia foi para o meio da pista e ninguém a assediou.
No mais, Liniker, você é maravilhosa, suas músicas tocam, inspiram e emocionam muita gente. Obrigado por existir e se bota mais pra jogo, meu amor.
Vamo que vamo.
segunda-feira, 18 de setembro de 2017
De tudo aquilo que te disse em silêncio e umas coisinhas mais (Parte II)
Sua testa toda suada.
Sei lá porque você está nervoso.
Em silêncio, tento te dizer: ‘calma, garoto, respira, vai ficar tudo bem’.
E volto a pensar na história. Nas histórias.
Na impermanência, na vida sobre a corda bamba. Um passo em falso e paf.
Principalmente para quem não tem muito equilíbrio.
Olhar. Olhar. Olhar.
Sua respiração vai ficando mais calma. Que bom que nós dois estamos calmos agora.
É o que vem depois da tempestade. A calmaria e a certeza de que se a gente sobreviveu uma vez, a gente vai sobreviver de novo. E tomar cuidado por onde pisamos. Para não repetir os mesmos erros e não cair de novo.
A próxima vez que alguém fizer algo parecido com isso eu meto o pé.
Devia ter terminado ali.
Não, antes disso. Talvez antes. Talvez ainda antes.
Olha. Se for parar pra pensar, não devia nem ter começado.
Olha. Se for parar pra pensar, quem é que devolve a minhas noites passadas em claro?
A impossibilidade doce da história que eu quero contar tem uma virada positiva no final.
Às vezes é melhor não ser.
No final você diz que a sensação que bateu foi a de que 'vai ficar tudo bem'.
Ponto dos meninos.
Sua testa secou.
Sei lá porque você está nervoso.
Em silêncio, tento te dizer: ‘calma, garoto, respira, vai ficar tudo bem’.
E volto a pensar na história. Nas histórias.
Na impermanência, na vida sobre a corda bamba. Um passo em falso e paf.
Principalmente para quem não tem muito equilíbrio.
Olhar. Olhar. Olhar.
Sua respiração vai ficando mais calma. Que bom que nós dois estamos calmos agora.
É o que vem depois da tempestade. A calmaria e a certeza de que se a gente sobreviveu uma vez, a gente vai sobreviver de novo. E tomar cuidado por onde pisamos. Para não repetir os mesmos erros e não cair de novo.
A próxima vez que alguém fizer algo parecido com isso eu meto o pé.
Devia ter terminado ali.
Não, antes disso. Talvez antes. Talvez ainda antes.
Olha. Se for parar pra pensar, não devia nem ter começado.
Olha. Se for parar pra pensar, quem é que devolve a minhas noites passadas em claro?
A impossibilidade doce da história que eu quero contar tem uma virada positiva no final.
Às vezes é melhor não ser.
No final você diz que a sensação que bateu foi a de que 'vai ficar tudo bem'.
Ponto dos meninos.
Sua testa secou.
sexta-feira, 15 de setembro de 2017
Apenas um Rapaz Latino-Americano
É que às vezes acontecem algumas legais na vida da gente, e é legal registrar para deixar para a posteridade.
Aliás, a grande riqueza de fazer um blog meio diário é esse poder olhar para trás e ver o que já se passou.
Textos que passado tanto tempo, fazem pensar em quem era aquela pessoa, qual exatamente era o problema pelo qual eu estava desabafando e o que tinha acontecido.
Mas já me alonguei demais em reflexões.
No mês passado a editora Todavia, recém-chegada ao mercado editorial, lançou a biografia do cantor Belchior.
Entre as atividades que eles promoveram para marcar o lançamento estava um happy hour na sede da própria editora.
Lá rolou um encontro de livreiros com o autor, o jornalista Jotabê Medeiros.
O legal foi que Jotabê sempre foi uma referência para mim em jornalismo cultural desde os tempos em que eu era apenas um rapaz latino-americano estudante de jornalismo sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo do interior (Guarulhos, no caso).
E de repente eu estava lá. Entrevistando-o. Não assim, o ping-pong do século, mas num dado momento do evento, puxei-o de canto e fiz algumas perguntinhas. Mais ou menos improvisadas, mais ou menos planejadas. Sem anotações, gravadas no celular, o que uns figurões do jornalismo talvez condenassem e etc.
Desde então eu estava encalacrado para que o texto saísse, mas como a Ana estava de férias, demorei um pouco mais do que devia na função.
Além de escrever a matéria, me vi na investigação básica de escutar Belchior, de quem eu sabia que conhecia apenas “Como Nossos Pais” e “Apenas um Rapaz Latino-Americano”.
E daí que eu tenho ouvido Belchior por esses tempos. E muito de música brasileira. E Almério, que foi a recomendação musical do Jotabê durante a entrevista.
Nesta semana, o texto foi publicado. E achei legal registrar por aqui um pouco dos bastidores e a minha descoberta deste músico/compositor, por quem estou apaixonado ultimamente.
No dado momento eu estou lendo “Minha Vida Não Tão Perfeita”, da Sophie Kinsella, e já separei uns 20 livros mais ou menos de autores e temáticas que de alguma forma dialogam com o há meu próprio fazer literário. Afinal de contas seria legal estar mais afiado para os debates sobre literatura LGBT no ano que vem.
Apesar disso, sinto que “Belchior – Apenas um Rapaz Latino-Americano” é o próximo livro que eu vou ler, porque a minha alma está gritando por isso.
No mais, fica também o registro da minha total falta de traquejo social para interagir um evento em que eu conhecia apenas uma pessoa, mas fui super bem recebido por todo mundo. Isso e um obrigado aos envolvidos.
Aliás, a grande riqueza de fazer um blog meio diário é esse poder olhar para trás e ver o que já se passou.
Textos que passado tanto tempo, fazem pensar em quem era aquela pessoa, qual exatamente era o problema pelo qual eu estava desabafando e o que tinha acontecido.
Mas já me alonguei demais em reflexões.
No mês passado a editora Todavia, recém-chegada ao mercado editorial, lançou a biografia do cantor Belchior.
Entre as atividades que eles promoveram para marcar o lançamento estava um happy hour na sede da própria editora.
Lá rolou um encontro de livreiros com o autor, o jornalista Jotabê Medeiros.
O legal foi que Jotabê sempre foi uma referência para mim em jornalismo cultural desde os tempos em que eu era apenas um rapaz latino-americano estudante de jornalismo sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo do interior (Guarulhos, no caso).
E de repente eu estava lá. Entrevistando-o. Não assim, o ping-pong do século, mas num dado momento do evento, puxei-o de canto e fiz algumas perguntinhas. Mais ou menos improvisadas, mais ou menos planejadas. Sem anotações, gravadas no celular, o que uns figurões do jornalismo talvez condenassem e etc.
Desde então eu estava encalacrado para que o texto saísse, mas como a Ana estava de férias, demorei um pouco mais do que devia na função.
Além de escrever a matéria, me vi na investigação básica de escutar Belchior, de quem eu sabia que conhecia apenas “Como Nossos Pais” e “Apenas um Rapaz Latino-Americano”.
E daí que eu tenho ouvido Belchior por esses tempos. E muito de música brasileira. E Almério, que foi a recomendação musical do Jotabê durante a entrevista.
Nesta semana, o texto foi publicado. E achei legal registrar por aqui um pouco dos bastidores e a minha descoberta deste músico/compositor, por quem estou apaixonado ultimamente.
No dado momento eu estou lendo “Minha Vida Não Tão Perfeita”, da Sophie Kinsella, e já separei uns 20 livros mais ou menos de autores e temáticas que de alguma forma dialogam com o há meu próprio fazer literário. Afinal de contas seria legal estar mais afiado para os debates sobre literatura LGBT no ano que vem.
Apesar disso, sinto que “Belchior – Apenas um Rapaz Latino-Americano” é o próximo livro que eu vou ler, porque a minha alma está gritando por isso.
No mais, fica também o registro da minha total falta de traquejo social para interagir um evento em que eu conhecia apenas uma pessoa, mas fui super bem recebido por todo mundo. Isso e um obrigado aos envolvidos.
quarta-feira, 13 de setembro de 2017
Sobre o amor em uma hora e vinte de exercício
Então a gente se mete a querer fazer arte.
A saber como é o processo artístico do outro. E aí a gente se dispõe a estudar e a fazer cursos livres.
Conte a sua história sem usar palavras.
Apenas com o olhar.
Foram as instruções.
Foi a coisa mais forte e intensa que aconteceu comigo nos últimos tempos.
Tentar, nesse fluxo de olhar, respiração e toque, narrar a minha história.
A história que eu estou querendo contar na verdade.
Porque uma parte da minha história eu acabei de transformar em ficção. E agora eu nem sei se que quero mais ficar revirando, remexendo e cutucando ela.
Não mais do que eu já fiz por livre e espontânea pressão.
Então eu comecei a pensar na próxima história que eu quero contar. Que deve ser o próximo projeto no qual vou trabalhar.
Fui instigado a pensar no meu tema. Cabe um plural aqui.
Quais são os meus temas?
Quais são os temas dessa história?
O tempo? O amor?
A impossibilidade de uma relação amorosa? ¯\_(ツ)_/¯
E então, falar. Escolher uma palavra que sintetize tudo.
E eu penso na história. No final do livro. E falamos quase que ao mesmo tempo.
Esperança-Cumplicidade.
Esperança e Cumplicidade.
Uau. Um par.
Puta que pariu. Você quer me desmontar, é boy?
Porque eu aqui, pensando nas impermanências. Que você também não me aceitaria. E você me vem com cumplicidade?
Porque né. A esperança. A esperança anda em falta. É por isso que pairou sobre a sala e se repetiu.
Porque talvez eu também seja meio óbvio.
Porque a esperança tá escassa.
Mas se tem uma coisa que é mais rara que a esperança, porque esta, apesar de tudo a gente mais ou menos vai aprendendo a cultivar, esta coisa é a cumplicidade.
Porque boy, a cumplicidade é muito mais difícil de encontrar.
A cumplicidade é para poucos.
E eu pensei. No quanto eu busquei a cumplicidade e no quanto não encontrei.
Sabe. Aquela pessoa que é sua parceira no crime? Que vigia a rua para ver se não vem vindo ninguém enquanto você comete o delito?
Um milhão de vezes mais difícil de acontecer.
Acho que nem nunca aconteceu. Pelo menos no sentido amor romântico da coisa e precisamos implodir o amor romântico.
Porque romântico de verdade é beijar na sarjeta.
Mas cumplicidade seria uma palavra possível. Porque talvez tenha algum tipo dela na história em que eu quero trabalhar. Porque talvez seja algo escondido, mas que precisa ser visto.
E eu achei uma maneira de me colocar no filme.
Nem que for começando por fazer uma nuvem de tags relacionadas com a história que agora eu quero contar.
Você me fez lembrar de palavras esquecidas.
E em uma hora e vinte e pouco de exercício a gente conversou, sem conversar.
E eu adoraria falar mais com você.
A saber como é o processo artístico do outro. E aí a gente se dispõe a estudar e a fazer cursos livres.
Conte a sua história sem usar palavras.
Apenas com o olhar.
Foram as instruções.
Foi a coisa mais forte e intensa que aconteceu comigo nos últimos tempos.
Tentar, nesse fluxo de olhar, respiração e toque, narrar a minha história.
A história que eu estou querendo contar na verdade.
Porque uma parte da minha história eu acabei de transformar em ficção. E agora eu nem sei se que quero mais ficar revirando, remexendo e cutucando ela.
Não mais do que eu já fiz por livre e espontânea pressão.
Então eu comecei a pensar na próxima história que eu quero contar. Que deve ser o próximo projeto no qual vou trabalhar.
Fui instigado a pensar no meu tema. Cabe um plural aqui.
Quais são os meus temas?
Quais são os temas dessa história?
O tempo? O amor?
A impossibilidade de uma relação amorosa? ¯\_(ツ)_/¯
E então, falar. Escolher uma palavra que sintetize tudo.
E eu penso na história. No final do livro. E falamos quase que ao mesmo tempo.
Esperança-Cumplicidade.
Esperança e Cumplicidade.
Uau. Um par.
Puta que pariu. Você quer me desmontar, é boy?
Porque eu aqui, pensando nas impermanências. Que você também não me aceitaria. E você me vem com cumplicidade?
Porque né. A esperança. A esperança anda em falta. É por isso que pairou sobre a sala e se repetiu.
Porque talvez eu também seja meio óbvio.
Porque a esperança tá escassa.
Mas se tem uma coisa que é mais rara que a esperança, porque esta, apesar de tudo a gente mais ou menos vai aprendendo a cultivar, esta coisa é a cumplicidade.
Porque boy, a cumplicidade é muito mais difícil de encontrar.
A cumplicidade é para poucos.
E eu pensei. No quanto eu busquei a cumplicidade e no quanto não encontrei.
Sabe. Aquela pessoa que é sua parceira no crime? Que vigia a rua para ver se não vem vindo ninguém enquanto você comete o delito?
Um milhão de vezes mais difícil de acontecer.
Acho que nem nunca aconteceu. Pelo menos no sentido amor romântico da coisa e precisamos implodir o amor romântico.
Porque romântico de verdade é beijar na sarjeta.
Mas cumplicidade seria uma palavra possível. Porque talvez tenha algum tipo dela na história em que eu quero trabalhar. Porque talvez seja algo escondido, mas que precisa ser visto.
E eu achei uma maneira de me colocar no filme.
Nem que for começando por fazer uma nuvem de tags relacionadas com a história que agora eu quero contar.
Você me fez lembrar de palavras esquecidas.
E em uma hora e vinte e pouco de exercício a gente conversou, sem conversar.
E eu adoraria falar mais com você.
terça-feira, 15 de agosto de 2017
Chuva na Cracolândia ou uma pequena digressão
Chove na Cracolândia.
É bom.
Pelo menos para quem está abrigado na Cracolândia.
É bom.
A chuva dilui o cheiro de merda na calçada.
Pelo menos hoje sabemos que o estômago não vai embrulhar.
Se vier com mais força, o fluxo da água pode até limpar a sujeira do meio fio empurrando-a para entupir os bueiros da São João ou da parte mais baixa da Barão de Limeira.
Chove na Cracolândia. E me dá uma saudades de Copacabana.
É bom.
Pelo menos para quem está abrigado na Cracolândia.
É bom.
A chuva dilui o cheiro de merda na calçada.
Pelo menos hoje sabemos que o estômago não vai embrulhar.
Se vier com mais força, o fluxo da água pode até limpar a sujeira do meio fio empurrando-a para entupir os bueiros da São João ou da parte mais baixa da Barão de Limeira.
Chove na Cracolândia. E me dá uma saudades de Copacabana.
quarta-feira, 9 de agosto de 2017
Podemos falar sobre ovos?
Hoje eu passei cola Pritt na boca ao invés do protetor labial. Vai ver me confundi por causa da cor e do formato das embalagens vermelhas. Só me dei conta por causa do gosto, porque a consistência das gosmas em bastão são as mesmas.
Mas podemos falar sobre ovos?
Do quanto eu gostava de chupar seus... epa!
Com os ovos que te atiram você pode fazer uma omelete. Se for mais ousado e disposto talvez dê para fazer um bolo. Rola também uma fritada. E gemada. Faz tempo que eu nem ouço falar em gemada.
Às vezes, de sábado, ou quando saio mais tarde de casa em dias de semana normais, passa na minha rua o carro dos ovos.É uma delícia, de sabor incomparável. Não. Errei. Esses são os sorvetes.
O carro dos ovos que passa é o que vem direto da granja. Aquele que as galinhas ficaram malucas e o patrão mandou vender barato.
Sempre fico com dó das galinhas nesta parte do áudio. Criadas em condições horríveis e obrigadas a suportarem o gaslighting – a manipulação de terem suas sanidades questionadas. Vamos convir afinal de contas. Se você vivesse apenas para produzir em larga escala e em condições sub-humanas você não enlouqueceria?
Mas se tem uma coisa que eu gosto no carro dos ovos é a exposição de o quanto o plural é desnecessário e está em desuso. Bonitos ovo. Acho de uma poesia e concisão singulares.
No mais, antigamente, quando o espetáculo era ruim, as pessoas costumavam atirar comidas na apresentação. Tomates, repolhos e até mesmo ovos.
Mas podemos falar sobre ovos?
Do quanto eu gostava de chupar seus... epa!
Com os ovos que te atiram você pode fazer uma omelete. Se for mais ousado e disposto talvez dê para fazer um bolo. Rola também uma fritada. E gemada. Faz tempo que eu nem ouço falar em gemada.
Às vezes, de sábado, ou quando saio mais tarde de casa em dias de semana normais, passa na minha rua o carro dos ovos.
O carro dos ovos que passa é o que vem direto da granja. Aquele que as galinhas ficaram malucas e o patrão mandou vender barato.
Sempre fico com dó das galinhas nesta parte do áudio. Criadas em condições horríveis e obrigadas a suportarem o gaslighting – a manipulação de terem suas sanidades questionadas. Vamos convir afinal de contas. Se você vivesse apenas para produzir em larga escala e em condições sub-humanas você não enlouqueceria?
Mas se tem uma coisa que eu gosto no carro dos ovos é a exposição de o quanto o plural é desnecessário e está em desuso. Bonitos ovo. Acho de uma poesia e concisão singulares.
No mais, antigamente, quando o espetáculo era ruim, as pessoas costumavam atirar comidas na apresentação. Tomates, repolhos e até mesmo ovos.
sexta-feira, 4 de agosto de 2017
Mas eu lembro que foi assim
O ser humano e suas contradições.
Dá vontade de fazer uma festa pra celebrar a incoerência.
Lindeza.
Hoje eu acordei com uma dor no maxilar, com ele meio rígido. Com uma meia dor de cabeça. Sem falar no sono e no frio.
Sonhei que participava de um debate. Sobre a buchinha da pia. O mundo contra eu. O universo versus o Will. É que eu gosto de deixar a bucha de lavar a louça com sabão. Tipo, depois que eu lavo a louça. Sei lá. É uma agonia que dá da bucha seca. Às vezes você só precisa passar uma buchinha numa colher que você colocou na boca e não lavar a louça de um batalhão da infantaria. Daí a agonia da bucha seca. Se ela tiver sabão, pronto. É só dar aquela esfregadinha e já dá para enfiar a colher de volta no pote de doce de leite, por exemplo. Eu tentava argumentar que era triplamente econômico deixar sabão na bucha. Economiza-se tempo, economiza-se água (que gasta para tirar o sabão da bucha), e economiza-se detergente (que você usou para fazer o sabão e tudo o mais).
As pessoas que estavam no sonho, não lembro quais, me condenavam, falando que aquilo era nojento, porquice, que dava problemas de saúde e higiene, que eles tinham visto no Buzzfeed. A tia Lorilei foi a única pessoa do meu sonho que me defendeu. Me senti injustiçado com todo aquele julgamento sobre mim. Qualé galera, vamos todos morrer mesmo. Não lembro como foi que tudo acabou ou porque aconteceu. Mas eu lembro que foi assim.
Dá vontade de fazer uma festa pra celebrar a incoerência.
Lindeza.
Hoje eu acordei com uma dor no maxilar, com ele meio rígido. Com uma meia dor de cabeça. Sem falar no sono e no frio.
Sonhei que participava de um debate. Sobre a buchinha da pia. O mundo contra eu. O universo versus o Will. É que eu gosto de deixar a bucha de lavar a louça com sabão. Tipo, depois que eu lavo a louça. Sei lá. É uma agonia que dá da bucha seca. Às vezes você só precisa passar uma buchinha numa colher que você colocou na boca e não lavar a louça de um batalhão da infantaria. Daí a agonia da bucha seca. Se ela tiver sabão, pronto. É só dar aquela esfregadinha e já dá para enfiar a colher de volta no pote de doce de leite, por exemplo. Eu tentava argumentar que era triplamente econômico deixar sabão na bucha. Economiza-se tempo, economiza-se água (que gasta para tirar o sabão da bucha), e economiza-se detergente (que você usou para fazer o sabão e tudo o mais).
As pessoas que estavam no sonho, não lembro quais, me condenavam, falando que aquilo era nojento, porquice, que dava problemas de saúde e higiene, que eles tinham visto no Buzzfeed. A tia Lorilei foi a única pessoa do meu sonho que me defendeu. Me senti injustiçado com todo aquele julgamento sobre mim. Qualé galera, vamos todos morrer mesmo. Não lembro como foi que tudo acabou ou porque aconteceu. Mas eu lembro que foi assim.
quinta-feira, 3 de agosto de 2017
Mais do mesmo mais ou menos
Um dos vários conselhos que os especialistas dão para controlar a ansiedade é prestar atenção à respiração e respirar melhor.
Eu tento me concentrar na respiração para me acalmar, mas fica difícil inalar o ar poluído e seco desta cidade.
Daí eu me concentro na sujeira que entra em mim, nas catotas que vão se acumulando no nariz e penso que a cada respiração eu fico mais perto da morte e assim será até o último suspiro.
Esta semana eu acho que eu terminei meu livro. Pelo menos uma primeira versão antes de reler, reescrever e revisar. O projeto de uma vida e um puta trabalho, mas acho que vai valer a pena continuar.
Demorei a pegar no sono depois de colocar o ponto final. Recorri à técnica da insônia produtiva e fui assistir série na Netflix. 3%, caso alguém esteja curiose.
Daí torcer para essa chuva que ameaça cair, cair de fato, já que ela está chegando meio tímida como quem não quer vir.
Hoje de manhã o Facebook carregou aquelas lembranças de tempos atrás. Uma garrafa de cerveja e um copo. Tudo ali. Cinco anos. Eu sozinho com o mesmo desejo de hoje em dia: o de sentar na mesa de um bar e tomar uma gelada.
A vida, de lá pra cá, mudou em vários sentidos, mesmo que algumas coisas permaneçam inalteradas.
Eu tento me concentrar na respiração para me acalmar, mas fica difícil inalar o ar poluído e seco desta cidade.
Daí eu me concentro na sujeira que entra em mim, nas catotas que vão se acumulando no nariz e penso que a cada respiração eu fico mais perto da morte e assim será até o último suspiro.
Esta semana eu acho que eu terminei meu livro. Pelo menos uma primeira versão antes de reler, reescrever e revisar. O projeto de uma vida e um puta trabalho, mas acho que vai valer a pena continuar.
Demorei a pegar no sono depois de colocar o ponto final. Recorri à técnica da insônia produtiva e fui assistir série na Netflix. 3%, caso alguém esteja curiose.
Daí torcer para essa chuva que ameaça cair, cair de fato, já que ela está chegando meio tímida como quem não quer vir.
Hoje de manhã o Facebook carregou aquelas lembranças de tempos atrás. Uma garrafa de cerveja e um copo. Tudo ali. Cinco anos. Eu sozinho com o mesmo desejo de hoje em dia: o de sentar na mesa de um bar e tomar uma gelada.
A vida, de lá pra cá, mudou em vários sentidos, mesmo que algumas coisas permaneçam inalteradas.
quarta-feira, 26 de julho de 2017
Crônica de um coração mediano
Reduzi drasticamente o consumo diário de chocolate.
É a crise financeira. São as crises de ansiedade.
No sábado eu fui no 3º Distúrbio Feminino, um evento feminista que reuniu quatro bandas entre elas a minha amada Dominatrix e a empolgante e também querida Charlotte Matou um Cara.
Eu queria escrever sobre como foi tudo inspirador e em como eu sonho em aprender a tocar, só por causa do tanto de ânimo que dá de respirar o mesmo ar que pessoas incríveis como estas mulheres corajosas.
São 20 anos do Girl Gathering, o primeiro CD do Dominatrix, e isso fez com que passasse um filme na minha cabeça. Do tanto de show que eu já vi desta banda nos mais diversos lugares e com as mais diversas formações.
São tipo 14 anos desde que a minha foi transformada por causa destas músicas. Lembro de um debate que rolou no Hangar em que a Elisa disse que era gay e em como aquilo deu forças para que eu também pudesse encarar a saída do armário.
Eu queria falar do quanto os solos de guitarra me fazem bem e do quanto eu também me sinto um solitário quando vou nestes eventos por que ninguém mais que eu conheço divide estes momentos comigo. Ao mesmo tempo eu já estou mais do que acostumado a ser o presidente do clube dos corações solitários.
Sempre sendo aquele cara por quem quase ninguém se interessa, com gostos estranhos, que foge de alguns comportamentos de manada, que chega atrasado nas piadas, que está por fora das tendências, que não articula bem, que foge das pessoas, que não fala bem em público, que não performa bem em grupo, que não faz nada muito bem, enfim.
Eu queria escrever um texto chamado “Crônica de um coração punk”, sobre como a crueza da vida me interessa. De como eu gosto dos lugares sujos e acho que só lavei o meu único tênis que presta uma única vez depois de andar com ele numa rua alagada e ele já está imundo de novo.
Eu falaria neste texto como a anestesia alienante do cotidiano faz com que as pessoas esqueçam e minimizem o “estupra, mas não mata” de Paulo Maluf – inclusive continuando a elegê-lo -, mas que uma banda punk formada por mulheres pega esta frase e nos devolve gritada, na cara, emulando a violência e o próprio choque que a frase original deveria causar.
Mas nesta minha existência ocupando o não-lugar de uma vida altamente desinteressante o que dá mesmo é pra escrever no máximo uma crônica de um coração mediano e seguir o baile. E vida que segue.
É a crise financeira. São as crises de ansiedade.
No sábado eu fui no 3º Distúrbio Feminino, um evento feminista que reuniu quatro bandas entre elas a minha amada Dominatrix e a empolgante e também querida Charlotte Matou um Cara.
Eu queria escrever sobre como foi tudo inspirador e em como eu sonho em aprender a tocar, só por causa do tanto de ânimo que dá de respirar o mesmo ar que pessoas incríveis como estas mulheres corajosas.
São 20 anos do Girl Gathering, o primeiro CD do Dominatrix, e isso fez com que passasse um filme na minha cabeça. Do tanto de show que eu já vi desta banda nos mais diversos lugares e com as mais diversas formações.
São tipo 14 anos desde que a minha foi transformada por causa destas músicas. Lembro de um debate que rolou no Hangar em que a Elisa disse que era gay e em como aquilo deu forças para que eu também pudesse encarar a saída do armário.
Eu queria falar do quanto os solos de guitarra me fazem bem e do quanto eu também me sinto um solitário quando vou nestes eventos por que ninguém mais que eu conheço divide estes momentos comigo. Ao mesmo tempo eu já estou mais do que acostumado a ser o presidente do clube dos corações solitários.
Sempre sendo aquele cara por quem quase ninguém se interessa, com gostos estranhos, que foge de alguns comportamentos de manada, que chega atrasado nas piadas, que está por fora das tendências, que não articula bem, que foge das pessoas, que não fala bem em público, que não performa bem em grupo, que não faz nada muito bem, enfim.
Eu queria escrever um texto chamado “Crônica de um coração punk”, sobre como a crueza da vida me interessa. De como eu gosto dos lugares sujos e acho que só lavei o meu único tênis que presta uma única vez depois de andar com ele numa rua alagada e ele já está imundo de novo.
Eu falaria neste texto como a anestesia alienante do cotidiano faz com que as pessoas esqueçam e minimizem o “estupra, mas não mata” de Paulo Maluf – inclusive continuando a elegê-lo -, mas que uma banda punk formada por mulheres pega esta frase e nos devolve gritada, na cara, emulando a violência e o próprio choque que a frase original deveria causar.
Mas nesta minha existência ocupando o não-lugar de uma vida altamente desinteressante o que dá mesmo é pra escrever no máximo uma crônica de um coração mediano e seguir o baile. E vida que segue.
quinta-feira, 20 de julho de 2017
Sobre tantas coisas que eu já nem sei bem o quê
Levantei com uma fome do tamanho do mundo e até demorei um pouco mais para tomar o café da manhã.
Ontem eu terminei de ler “Toureando o Diabo” e... que tiro senhoras e senhores!
Foi tão um negócio da vida, porque tem aquela história da varinha escolher o bruxo. No caso, foi o livro que me escolheu. Pra ser lido agora, durante todos esses processos.
O bom de ler algo assim é que dá a sensação de que não é só com a gente.
Sem falar que serve de inspiração.
Tem coisa que acontece sem acontecer. Raíra disse que dá pra tatuar essa frase. E dá mesmo.
Hoje de manhã, com o apetite voraz, não tava dando. O abismo chegou chegando.
- E aí, vai pular?
- Não. Hoje eu estou a fim de voar.
Coloquei o leite na geladeira pensando nos meus dias. Não tenho escrito uma linha do romance, apesar de a cabeça estar fervilhando, pensando nele. E em tudo que eu poderia escrever aqui.
Mais uma vez, a escrita como tábua de salvação.
Mais uma vez, escrevendo para ninguém ler.
Tento.
Disfarçar a carência que me faz corar de vergonha.
Torcer para que haja algum bom humor nesta vida, para que eu não seja mal interpretado ou soe grosseiro ou desesperado.
Ser uma versão mais legal e melhorada de mim mesmo.
Esses últimos dias frios, tem sido assim. Difíceis de suportar, com altas doses de pessimismo e pequenas ondas de euforia por pequenas coisas boas, além dos grandes encontros com as amigas.
Hoje foi engraçado. Quase me apaixonei saindo da catraca do metrô. 2 segundos de paixão que se foi. Preciso melhorar essa marca. Ou não.
E também penso nas faltas. No e-mail não escrito e não enviado. Na carta aberta que talvez (não) devesse postar aqui.
Faltou um pedido de desculpas. Faltou uma explicação. Faltou me levar a sério. Porque estava lá. Escrito bem escritinho na mensagem. Porque se é importante rir de nós mesmos, também é importante saber levar as coisas a sério. Contexto. É importante. E saber ler nas entrelinhas. E isso eu chamaria de respeito e até de carinho quiçá. Migalhas de uma atenção que já não estava mais ali e que eu achei que estivesse. Faltou timing. Ah, como faltou. Tentativas de diálogos equivocadas. E faltou também objetividade.
Penso também nas minhas faltas. Que eu poderia até dizer que não faz mais falta. O que seria mentira até por tudo aqui escrito acima. A falta faz, mas a gente se acostuma. A grande questão é que já não faz mais diferença.
Ontem eu terminei de ler “Toureando o Diabo” e... que tiro senhoras e senhores!
Foi tão um negócio da vida, porque tem aquela história da varinha escolher o bruxo. No caso, foi o livro que me escolheu. Pra ser lido agora, durante todos esses processos.
O bom de ler algo assim é que dá a sensação de que não é só com a gente.
Sem falar que serve de inspiração.
Tem coisa que acontece sem acontecer. Raíra disse que dá pra tatuar essa frase. E dá mesmo.
Hoje de manhã, com o apetite voraz, não tava dando. O abismo chegou chegando.
- E aí, vai pular?
- Não. Hoje eu estou a fim de voar.
Coloquei o leite na geladeira pensando nos meus dias. Não tenho escrito uma linha do romance, apesar de a cabeça estar fervilhando, pensando nele. E em tudo que eu poderia escrever aqui.
Mais uma vez, a escrita como tábua de salvação.
Mais uma vez, escrevendo para ninguém ler.
Tento.
Disfarçar a carência que me faz corar de vergonha.
Torcer para que haja algum bom humor nesta vida, para que eu não seja mal interpretado ou soe grosseiro ou desesperado.
Ser uma versão mais legal e melhorada de mim mesmo.
Esses últimos dias frios, tem sido assim. Difíceis de suportar, com altas doses de pessimismo e pequenas ondas de euforia por pequenas coisas boas, além dos grandes encontros com as amigas.
Hoje foi engraçado. Quase me apaixonei saindo da catraca do metrô. 2 segundos de paixão que se foi. Preciso melhorar essa marca. Ou não.
E também penso nas faltas. No e-mail não escrito e não enviado. Na carta aberta que talvez (não) devesse postar aqui.
Faltou um pedido de desculpas. Faltou uma explicação. Faltou me levar a sério. Porque estava lá. Escrito bem escritinho na mensagem. Porque se é importante rir de nós mesmos, também é importante saber levar as coisas a sério. Contexto. É importante. E saber ler nas entrelinhas. E isso eu chamaria de respeito e até de carinho quiçá. Migalhas de uma atenção que já não estava mais ali e que eu achei que estivesse. Faltou timing. Ah, como faltou. Tentativas de diálogos equivocadas. E faltou também objetividade.
Penso também nas minhas faltas. Que eu poderia até dizer que não faz mais falta. O que seria mentira até por tudo aqui escrito acima. A falta faz, mas a gente se acostuma. A grande questão é que já não faz mais diferença.
terça-feira, 18 de julho de 2017
Frias amenidades
E esse frio, hein?
Só não é maior do que o fogo em mim.
Hoje eu consegui dormir melhor e mais rápido.
De alguma forma e por algum motivo consegui relaxar um pouco.
Acho que estava mais cansado do que estava de fato me sentindo.
Tentei acordar mais cedo e ser mais produtivo e chegar mais cedo. Mas me confundi na hora de arrumar o alarme. Tem show hoje. Do Salgadinho. Vai ser no vale dos heterossexuais, mas as companheiras de aventuras são amadas. Pagode dos anos 90. Crescemos ouvindo. Amamos.
Massa de ar polar faz nevar no Brasil.
Eu poderia até inserir uma piada aqui sobre coração de gelo e ser a Elsa do Frozen. Não que alguém fosse rir.
Hoje eu terminei o livro do Lázaro e comecei a ler “Toureando o Diabo”. É tiro atrás de tiro.
Só não é maior do que o fogo em mim.
Hoje eu consegui dormir melhor e mais rápido.
De alguma forma e por algum motivo consegui relaxar um pouco.
Acho que estava mais cansado do que estava de fato me sentindo.
Tentei acordar mais cedo e ser mais produtivo e chegar mais cedo. Mas me confundi na hora de arrumar o alarme. Tem show hoje. Do Salgadinho. Vai ser no vale dos heterossexuais, mas as companheiras de aventuras são amadas. Pagode dos anos 90. Crescemos ouvindo. Amamos.
Massa de ar polar faz nevar no Brasil.
Eu poderia até inserir uma piada aqui sobre coração de gelo e ser a Elsa do Frozen. Não que alguém fosse rir.
Hoje eu terminei o livro do Lázaro e comecei a ler “Toureando o Diabo”. É tiro atrás de tiro.
segunda-feira, 17 de julho de 2017
Mais um post sobre nada em particular
Uma das melhores coisas que eu fiz nos últimos tempos foi mudar o toque genérico do despertador para Radiohead. Agora eu acordo ao som de Idioteque. Dá um ânimo pra sair da cama e viver, mesmo que no geral da vida eu ande meio assim, querendo morrer.
Tinha tanta coisa que eu gostaria de conseguir escrever para postar aqui, que fico até perdido, por não encontrar a forma. Porque para cada assunto, uma digressão, uma reflexão, uma fugida deste cotidiano louco.
Esta noite, por exemplo, não dormi muito bem. Uma crise de ansiedade fortíssima levou horas de sono embora. E tudo isso, por nada, pra nada, por bem pouco. Não que eu esteja lidando mal com meus sentimentos devido a fome na África. E não que eu também não esteja preocupado com a fome na África, mas o relato de armas apontadas para pessoas queridas deu uma azedada no dia.
Incrível como escrever é o que salva a vida.
Para termos de registro, eu tenho avançado na escrita do livro.
Tinha tanta coisa que eu gostaria de conseguir escrever para postar aqui, que fico até perdido, por não encontrar a forma. Porque para cada assunto, uma digressão, uma reflexão, uma fugida deste cotidiano louco.
Esta noite, por exemplo, não dormi muito bem. Uma crise de ansiedade fortíssima levou horas de sono embora. E tudo isso, por nada, pra nada, por bem pouco. Não que eu esteja lidando mal com meus sentimentos devido a fome na África. E não que eu também não esteja preocupado com a fome na África, mas o relato de armas apontadas para pessoas queridas deu uma azedada no dia.
Incrível como escrever é o que salva a vida.
Para termos de registro, eu tenho avançado na escrita do livro.
terça-feira, 11 de julho de 2017
Elegia
Acho que foi o Marcelino Freire em uma oficina de criação literaria que disse que se você quer fazer poesia pense no nome da sua avó.
Escreva com as suas palavras. O nome da sua vó é mais bonito do que se você tentar descrever as cores de um por do sol.
É verdade. Eu imediatamente pensei no nome das minhas avós. Maria Conceição e Justa. Quanta poesia.
Hoje a vó Justa se vai
A morte faz parte da vida e pra morrer, basta estar vivo. É sempre bom pensar na morte. A cada um, a sua hora. Não tem jeito. É preciso se conformar.
A minha vó era uma contadora de histórias. Vai ver por isso que eu sonho em ser escritor.
Vou me lembrar pra sempre das histórias da minha vó, que sempre, invetavelmente acabavam com uma bacia de doces que ela estava trazendo pra gente, mas que perdia ao escorregar na ladeira do quebra cu.
A minha vó não teve uma vida fácil. Criou e perdeu muitos filhos. Além da poesia de seu nome raro, a minha vó sempre carregou com ela uma fé e uma força que nem eu, mais novo e que cresci em um mundo com muito mais facilidades, tenho.
A minha vó viveu uma vida intensa. Com caracteristicas dos mais variados gêneros literários. De drama e melodrama com espaço também pra muita comédia.
A minha vó tem uma fé que eu nunca vou entender. Eu, que sou mais novo, penso sempre em desistir por muito menos.
A ironia de tudo é que boa parte da minha descrença tem a ver com as profundas desigualdades e injustiças desse mundão.
A minha vó era humana. Tinha defeitos e qualidades.
A vida muitas vezes foi dura com a minha avó, ensinando erroneamente que ela tinha que se curvar e servir, só por ter nascido mulher.
O livro preferido da minha vó era a bíblia, do qual eu só sei algumas passagens.
Hoje a minha vó parte.
Vá em paz, vó
Vá com deus, vó.
A vida pode não ser justa, mas a senhora é.
Viva!
Escreva com as suas palavras. O nome da sua vó é mais bonito do que se você tentar descrever as cores de um por do sol.
É verdade. Eu imediatamente pensei no nome das minhas avós. Maria Conceição e Justa. Quanta poesia.
Hoje a vó Justa se vai
A morte faz parte da vida e pra morrer, basta estar vivo. É sempre bom pensar na morte. A cada um, a sua hora. Não tem jeito. É preciso se conformar.
A minha vó era uma contadora de histórias. Vai ver por isso que eu sonho em ser escritor.
Vou me lembrar pra sempre das histórias da minha vó, que sempre, invetavelmente acabavam com uma bacia de doces que ela estava trazendo pra gente, mas que perdia ao escorregar na ladeira do quebra cu.
A minha vó não teve uma vida fácil. Criou e perdeu muitos filhos. Além da poesia de seu nome raro, a minha vó sempre carregou com ela uma fé e uma força que nem eu, mais novo e que cresci em um mundo com muito mais facilidades, tenho.
A minha vó viveu uma vida intensa. Com caracteristicas dos mais variados gêneros literários. De drama e melodrama com espaço também pra muita comédia.
A minha vó tem uma fé que eu nunca vou entender. Eu, que sou mais novo, penso sempre em desistir por muito menos.
A ironia de tudo é que boa parte da minha descrença tem a ver com as profundas desigualdades e injustiças desse mundão.
A minha vó era humana. Tinha defeitos e qualidades.
A vida muitas vezes foi dura com a minha avó, ensinando erroneamente que ela tinha que se curvar e servir, só por ter nascido mulher.
O livro preferido da minha vó era a bíblia, do qual eu só sei algumas passagens.
Hoje a minha vó parte.
Vá em paz, vó
Vá com deus, vó.
A vida pode não ser justa, mas a senhora é.
Viva!
sábado, 8 de julho de 2017
E se o Batman fosse gay?
Assisti, como milhares de outras pessoas, “Mulher-Maravilha”.
E incrível que né, é entretenimento e coisa e tal, mas saí da sessão com uma série de questões que tento desenvolver agora, pra ver se aquieta um pouco o turbilhão aqui de dentro.
São tantos os pensamentos e tantas coisas para falar que fica até difícil saber como começar. Então, eu começo pelo fim.
E também aviso para quem quiser ler que este texto contém spoiler.
O primeiro comentário negativo que eu vi sobre o longa foi o do Marcelo Hessel, no Twitter, criticando a qualidade dos efeitos especiais. Saber disso me fez tremer só de lembrar de “Supergirl”, aquele filme ruim de 1984, muito responsabilizado pelo mito de que filme com heroína não dá certo.
E realmente. Os efeitos especiais na batalha final são de chorar de desgosto. Mas pelo menos, felizmente, o filme não se resume a isso.
Como um todo “Mulher-Maravilha” é muito legal. Inclusive quero rever e quero na minha coleção. O problema é que o diabo mora nos detalhes e acho que nesse sentido o filme peca em muitas coisas.
Pra começar: o amor romântico. Não precisava, mesmo, tentar usar isso pra “sustentar” o roteiro. O boy é bonitinho e tals - aliás, podia ter aparecido a neca -, mas ele ser a chave que libera a força da Mulher-Maravilha é completamente desnecessário.
Raíra apontou que Diana poderia se lembrar da tia, que levou um tiro por ela. Talvez isso não justificasse a defesa da humanidade, do “mundo dos homens”, mas pelo menos seria menos óbvio.
Muito me agrada a sequência de cenas em que ela chega a Londres. Da chegada até a luta na trincheira/povoado ela tem que lidar com uma sucessão de “não podes”. Não pode falar, não pode se vestir daquele jeito, não pode ir ajudar, não pode ir pra guerra, não pode, não pode, não pode.
Ainda assim, acho que faltou empoderar um pouquinho mais a secretária. Só por uma questão de representatividade, que importa sim e muito. Digo isso porque rola uma diversidade entre as Amazonas, mas ela é limitada. Há mulheres negras no filme, mas elas mal falam. E as amazonas são todas atléticas.
A Mulher-Maravilha é sexy lutando em câmera lenta com a bomba explodindo atrás, apesar de o filme não ficar expondo ela de maneira machista, focando em peito, coxa e bundas. Inclusive, o fato de ela ser treinada para ser melhor do que todas as outras Amazonas explicita em muito sua condição de mulher.
Porque ela é inteligente, forte, bonita, inclusive luta e não fica suada, nem despenteada. Acaba a luta e tá lá, princesa, impecável. Nem um pouco cagadinha. É bem a cobrança geral que rola sobre como as mulheres devem agir e se comportar. Ser mãe, profissional, acadêmica e se apresentar sempre impecável. Ser duas vezes melhor que um homem. Afinal, elas estão aqui para embelezar o mundo, não é mesmo?
Mas me alongo e fujo do que queria falar. A participação das mulheres no filme. Quando a Mulher-Maravilha sai de Themyscira o filme se concentra nela e nos rapazes. Assim, de imediato, não há mal nenhum nisso. Mas por se tratar do primeiro filme de herói protagonizado por uma mulher, well. Faltou um pouquinho de ousadia and feminismo aí.
Conheço nada de Mulher-Maravilha, a não ser pelo desenho da Liga da Justiça, aquele que passa(va?) no SBT e no Cartoon Network. De quadrinhos, ainda não tive o prazer de ler nenhum. Então, tá. Steve Trevor é um cara das HQs, mas pensa que seria legal a Mulher-Maravilha ter uma sidekick mulher, ao invés de um grupo de homens atuando no segundo plano.
Até porque – tá, o filme “registra” uma época – quando rola uma cena dos caras conversando, é bem um grupo de homens no whatsapp. “Uma ilha com mulheres como ela e nenhum cara por lá? Preciso conhecer esse lugar!”.
E isso me leva a dois pontos adiante. O teste de Bechdel. Aquele desenvolvido pela quadrinista de “Fun Home” que a gente tanto ama. O Buzzfeed colocou que o filme passa amplamente no teste. Saí com a percepção contrária. Daí eu me deparei com este texto aqui, que confirmava minha suspeita
O teste de Bechdel diz que para um filme ser considerado feminista, é necessário termos pelo menos duas personagens mulheres. Que elas dialoguem, tenham nome e papel de destaque na trama e que o assunto não seja sobre homem. Isso acontece no começo do filme, daí Diana sai da ilha e fuén.
E aponto isso porque pra mim o feminismo é uma questão muito importante. Fui salvo pelo feminismo e sou muito grato às feminista que conheci e que continuam me ensinando até hoje. No entanto não consegui ainda escrever uma obra feminista na vida. Minhas peças até flertam com o feminismo, mas não passam no teste, que acho inclusive um desafio muito bom para a criação. No entanto, nada ainda me veio em termos de criação artística que seja protagonizado por uma mulher.
E nisso chegamos ao segundo tópico: a heteronormatividade que o filme meio que sem querer escancara. Estamos falando de Amazonas, afinal de contas. Mulherescrossfiteiras que vivem numa ilha sem homens. Fiquei com tanta coisa para ser absorvida que confesso que este detalhe me escapou. Daí, mais uma vez foi Raíra com seu olhar espetacular para as coisas sutis que apontou. Há alguma coisa entre a tia de Diana e a outra amazona que corre para socorrê-la?
Fiquei pensando na construção dessa heterossexualidade. Que se a Mulher-Maravilha tivesse uma sidekick ao invés de um sidekick o filme talvez “correria o risco” de cair em uma homoafetividade e como esse “papel” de quebrar a barreira contra a homofobia pesaria novamente sobre uma mulher. Sempre elas na vanguarda.
E daí que chegamos no título do post. Outra das minhas indagações para comigo. E se o Batman fosse gay?
Não o gay das paródias que fazem dele com o Robin. Mas sim um herói de primeiro escalão. Um dos mais conhecidos de todos os tempos e por todo o mundo. Já parou pra pensar nisso?
Eu, que amo quadrinhos e sou apaixonado pelo Batman, sempre torci o nariz para a ideia. Um porque né – heteronormatividade à parte - isso nunca esteve nos quadrinhos. Risos.
Tá, tem umas teorias bem toscas sobre um subtexto gay entre eles, mas isso não significa nada. Até porque o Robin era teoricamente adolescente e quão doentio tudo isso seria, para além de né, um cara se vestir de morcego e sair combatendo o crime e tudo mais?
Enfim, falando sério.
Além de nunca ter estado nos quadrinhos - o Batman tem Vicky Vale, Mulher-Maravilha, Mulher-Gato e Thalia Al’Ghul como possibilidades de interesse romântico para um filme - a ideia de um Batman gay sempre veio do mundo acompanhada de um tom de deboche e de escárnio muito grande.
Recentemente li o quadrinho em que Renee Montoya, uma policial maravilhosa do universo Batman, é tirada do armário por um vilão. Há toda uma consequência dramática na trama depois disso. A falta de aceitação por parte dos pais, o bullying homofóbico sofrido até no local de trabalho.
Sei que tem também um arco, não sei em que momento da história da vida, em que Montoya acaba virando parceira da Batwoman, que também é uma personagem do bat-universo, atende pelo nome de Kate Kane (em homenagem ao Bob Kane, criador do Batman himself) é lésbica e ainda não tive a oportunidade de ler um quadrinho.
Parece que os títulos da Batwoman têm saído com um relativo sucesso e especulam que por aqui a Panini publique um encadernado dela. Assim espero.
Há um tempinho postaram em um desses grupos do Facebook a capa do quadrinho da Batwoman falando bem dele. Daí um ser na internet comentou que não curtiu as histórias “principalmente por colocarem a Sra. Kane como homossexual”. Daí vem um iluminado que responde “Pense nela como Bi e segue a vida”.
Tipo sério. A ciência precisa descobrir como se forma o pensamento humano porque eu, sinceramente não entendo essa lógica daí. Mas é ela que torna dificílimo termos um personagem gay como protagonista de um filme de heróis num futuro próximo.
No mais, sobre a heteronormatividade na indústria do consumo nerd, há uma cena que dura segundos de “Batman Vs Superman” em que o Batman/Ben Affleck/Bruce Wayne acorda ao lado de um corpo visivelmente feminino em seu quarto na mansão Wayne.
O curioso é que o filme não explora muito o lado playboy de Bruce, nem mesmo algum tipo de interesse romântico do morcegão. Em um roteiro pra lá de embolado e gigantesco, não há nenhuma menção a quem seria a bonita ali. Um corpo feminino que aparece sem nenhuma consequência dramática apenas para cumprir a função narrativa de marcar o território da heterossexualidade do personagem.
Eu adoraria que o Batman fosse gay, até porque não é muito certo que as questões sobre representatividade e diversidade caiam apenas sobre os ombros da Mulher-Maravilha ou de outras personagens femininas. Seria bom que outros heróis entrassem nesta luta.
E incrível que né, é entretenimento e coisa e tal, mas saí da sessão com uma série de questões que tento desenvolver agora, pra ver se aquieta um pouco o turbilhão aqui de dentro.
São tantos os pensamentos e tantas coisas para falar que fica até difícil saber como começar. Então, eu começo pelo fim.
E também aviso para quem quiser ler que este texto contém spoiler.
O primeiro comentário negativo que eu vi sobre o longa foi o do Marcelo Hessel, no Twitter, criticando a qualidade dos efeitos especiais. Saber disso me fez tremer só de lembrar de “Supergirl”, aquele filme ruim de 1984, muito responsabilizado pelo mito de que filme com heroína não dá certo.
E realmente. Os efeitos especiais na batalha final são de chorar de desgosto. Mas pelo menos, felizmente, o filme não se resume a isso.
Como um todo “Mulher-Maravilha” é muito legal. Inclusive quero rever e quero na minha coleção. O problema é que o diabo mora nos detalhes e acho que nesse sentido o filme peca em muitas coisas.
Pra começar: o amor romântico. Não precisava, mesmo, tentar usar isso pra “sustentar” o roteiro. O boy é bonitinho e tals - aliás, podia ter aparecido a neca -, mas ele ser a chave que libera a força da Mulher-Maravilha é completamente desnecessário.
Raíra apontou que Diana poderia se lembrar da tia, que levou um tiro por ela. Talvez isso não justificasse a defesa da humanidade, do “mundo dos homens”, mas pelo menos seria menos óbvio.
Muito me agrada a sequência de cenas em que ela chega a Londres. Da chegada até a luta na trincheira/povoado ela tem que lidar com uma sucessão de “não podes”. Não pode falar, não pode se vestir daquele jeito, não pode ir ajudar, não pode ir pra guerra, não pode, não pode, não pode.
Ainda assim, acho que faltou empoderar um pouquinho mais a secretária. Só por uma questão de representatividade, que importa sim e muito. Digo isso porque rola uma diversidade entre as Amazonas, mas ela é limitada. Há mulheres negras no filme, mas elas mal falam. E as amazonas são todas atléticas.
A Mulher-Maravilha é sexy lutando em câmera lenta com a bomba explodindo atrás, apesar de o filme não ficar expondo ela de maneira machista, focando em peito, coxa e bundas. Inclusive, o fato de ela ser treinada para ser melhor do que todas as outras Amazonas explicita em muito sua condição de mulher.
Porque ela é inteligente, forte, bonita, inclusive luta e não fica suada, nem despenteada. Acaba a luta e tá lá, princesa, impecável. Nem um pouco cagadinha. É bem a cobrança geral que rola sobre como as mulheres devem agir e se comportar. Ser mãe, profissional, acadêmica e se apresentar sempre impecável. Ser duas vezes melhor que um homem. Afinal, elas estão aqui para embelezar o mundo, não é mesmo?
Mas me alongo e fujo do que queria falar. A participação das mulheres no filme. Quando a Mulher-Maravilha sai de Themyscira o filme se concentra nela e nos rapazes. Assim, de imediato, não há mal nenhum nisso. Mas por se tratar do primeiro filme de herói protagonizado por uma mulher, well. Faltou um pouquinho de ousadia and feminismo aí.
Conheço nada de Mulher-Maravilha, a não ser pelo desenho da Liga da Justiça, aquele que passa(va?) no SBT e no Cartoon Network. De quadrinhos, ainda não tive o prazer de ler nenhum. Então, tá. Steve Trevor é um cara das HQs, mas pensa que seria legal a Mulher-Maravilha ter uma sidekick mulher, ao invés de um grupo de homens atuando no segundo plano.
Até porque – tá, o filme “registra” uma época – quando rola uma cena dos caras conversando, é bem um grupo de homens no whatsapp. “Uma ilha com mulheres como ela e nenhum cara por lá? Preciso conhecer esse lugar!”.
E isso me leva a dois pontos adiante. O teste de Bechdel. Aquele desenvolvido pela quadrinista de “Fun Home” que a gente tanto ama. O Buzzfeed colocou que o filme passa amplamente no teste. Saí com a percepção contrária. Daí eu me deparei com este texto aqui, que confirmava minha suspeita
O teste de Bechdel diz que para um filme ser considerado feminista, é necessário termos pelo menos duas personagens mulheres. Que elas dialoguem, tenham nome e papel de destaque na trama e que o assunto não seja sobre homem. Isso acontece no começo do filme, daí Diana sai da ilha e fuén.
E aponto isso porque pra mim o feminismo é uma questão muito importante. Fui salvo pelo feminismo e sou muito grato às feminista que conheci e que continuam me ensinando até hoje. No entanto não consegui ainda escrever uma obra feminista na vida. Minhas peças até flertam com o feminismo, mas não passam no teste, que acho inclusive um desafio muito bom para a criação. No entanto, nada ainda me veio em termos de criação artística que seja protagonizado por uma mulher.
E nisso chegamos ao segundo tópico: a heteronormatividade que o filme meio que sem querer escancara. Estamos falando de Amazonas, afinal de contas. Mulheres
Fiquei pensando na construção dessa heterossexualidade. Que se a Mulher-Maravilha tivesse uma sidekick ao invés de um sidekick o filme talvez “correria o risco” de cair em uma homoafetividade e como esse “papel” de quebrar a barreira contra a homofobia pesaria novamente sobre uma mulher. Sempre elas na vanguarda.
E daí que chegamos no título do post. Outra das minhas indagações para comigo. E se o Batman fosse gay?
Não o gay das paródias que fazem dele com o Robin. Mas sim um herói de primeiro escalão. Um dos mais conhecidos de todos os tempos e por todo o mundo. Já parou pra pensar nisso?
Eu, que amo quadrinhos e sou apaixonado pelo Batman, sempre torci o nariz para a ideia. Um porque né – heteronormatividade à parte - isso nunca esteve nos quadrinhos. Risos.
Tá, tem umas teorias bem toscas sobre um subtexto gay entre eles, mas isso não significa nada. Até porque o Robin era teoricamente adolescente e quão doentio tudo isso seria, para além de né, um cara se vestir de morcego e sair combatendo o crime e tudo mais?
Enfim, falando sério.
Além de nunca ter estado nos quadrinhos - o Batman tem Vicky Vale, Mulher-Maravilha, Mulher-Gato e Thalia Al’Ghul como possibilidades de interesse romântico para um filme - a ideia de um Batman gay sempre veio do mundo acompanhada de um tom de deboche e de escárnio muito grande.
Recentemente li o quadrinho em que Renee Montoya, uma policial maravilhosa do universo Batman, é tirada do armário por um vilão. Há toda uma consequência dramática na trama depois disso. A falta de aceitação por parte dos pais, o bullying homofóbico sofrido até no local de trabalho.
Sei que tem também um arco, não sei em que momento da história da vida, em que Montoya acaba virando parceira da Batwoman, que também é uma personagem do bat-universo, atende pelo nome de Kate Kane (em homenagem ao Bob Kane, criador do Batman himself) é lésbica e ainda não tive a oportunidade de ler um quadrinho.
Parece que os títulos da Batwoman têm saído com um relativo sucesso e especulam que por aqui a Panini publique um encadernado dela. Assim espero.
Há um tempinho postaram em um desses grupos do Facebook a capa do quadrinho da Batwoman falando bem dele. Daí um ser na internet comentou que não curtiu as histórias “principalmente por colocarem a Sra. Kane como homossexual”. Daí vem um iluminado que responde “Pense nela como Bi e segue a vida”.
Tipo sério. A ciência precisa descobrir como se forma o pensamento humano porque eu, sinceramente não entendo essa lógica daí. Mas é ela que torna dificílimo termos um personagem gay como protagonista de um filme de heróis num futuro próximo.
No mais, sobre a heteronormatividade na indústria do consumo nerd, há uma cena que dura segundos de “Batman Vs Superman” em que o Batman/Ben Affleck/Bruce Wayne acorda ao lado de um corpo visivelmente feminino em seu quarto na mansão Wayne.
O curioso é que o filme não explora muito o lado playboy de Bruce, nem mesmo algum tipo de interesse romântico do morcegão. Em um roteiro pra lá de embolado e gigantesco, não há nenhuma menção a quem seria a bonita ali. Um corpo feminino que aparece sem nenhuma consequência dramática apenas para cumprir a função narrativa de marcar o território da heterossexualidade do personagem.
Eu adoraria que o Batman fosse gay, até porque não é muito certo que as questões sobre representatividade e diversidade caiam apenas sobre os ombros da Mulher-Maravilha ou de outras personagens femininas. Seria bom que outros heróis entrassem nesta luta.
segunda-feira, 12 de junho de 2017
Nizan
Nesta semana acontece na SP Escola de Teatro (Praça Roosevelt, 210) algumas apresentações do espetáculo "Pobre Super-Homem ou o Avesso do Herói", de Brad Fraser.
A peça, que eu tive a sorte de assistir no final do ano passado, tem a Renata Peron no elenco. Foi a Renata que apareceu na timelaje divulgando o evento.
Em um momento da peça a Renata compartilha o episódio de transfobia que sofreu, quando foi atacada por um grupo de skinheads e acabou perdendo um rim.
Deve ser por isso que voltando pra casa e pensando na vida uma frase ficou ecoando na minha cabeça: "É preciso ser muito macho pra ser gay neste país".
Eu ouvi muito essa frase nos meus anos de formação e descoberta, quando era apenas um adolescente cheio de hormônios descobrindo e procurando aceitar minha própria homossexualidade e a dos outros.
Isso foi há uns 15 anos.
Passado esse tempo. Conhecendo mais pessoas e vivenciando a diversidade a gente vai questionando tudo aquilo que ensinaram pra gente. E em dois tempos eu desfiz esse raciocínio tão comum.
Pautado apenas e apenas na minha vivência e na posição de observador da vida alheia é possível afirmar que em 2017, em uma cidade grande como São Paulo, ser gay é bolinho.
A vida tem seus perrengues? Claro que tem. Acontecem episódios de homofobia? Mais do que seria aceitável em um país que se pretende evoluído.
Mas precisa ser macho pra ser gay?
Acho que não.
No geral, quando se consegue se desprender de experiências e pessoas tóxicas e homofóbicas, a vida de um gay padrão de classe média é até bem da confortável.
Agora, ser travesti. Mano. Deve ser muito mais difícil. O risco e a violência a que elas estão submetidas é de doer. Sem falar nas agressões, estar fora do mercado formal de trabalho, não ter acesso à educação garantido e muitas vezes ser expulsa de casa pela própria família.
Isso sim é de lascar o cano.
Sinal dos tempos ou sintonia meio estranha, no dia seguinte a essas minhas reflexões o publicitário Nizan Guanaes publicou na Folha uma coluna com o título "É preciso ser muito macho pra ser gay neste país".
Apesar da boa intenção e da declaração de apoio à causa gay, o texto vem com um tom que soa meio anacrônico. De novo. É preciso ser macho pra ser gay neste país?
É inegável que é preciso de coragem pra quebrar as barreiras do preconceito, além de uma boa dose de paciência, autoestima e inteligência para lidar com ignorância, preconceito e burrice até de gente conhecida e querida.
Mas, em um momento histórico no qual a gente já tem consciência de que a homofobia tem raiz ali na misoginia e no machismo, no ódio às mulheres e em tudo o que é feminino, é no mínimo temerário fazer essa afirmação.
Ai. hétero né. Esse povo sem perspectiva que fica em casa vendo Faustão. Ninguém mandou pra ele o memorando sobre as novas diretrizes do "neomovimento LGBTTQIA+" então ele não é obrigado a estar por dentro da pauta da “bolha gay”.
Ainda assim é bem equivocada a utilização da figura do macho como sinônimo de coragem. Close errado. Diante da necessidade da valorização do feminino em nós, dos questionamentos acerca da normatividade de gêneros, manter este tipo de associação é bastante dispensável.
Ninguém precisa ser macho. Nem os “machos”. Macho, queridxs é sinônimo de tudo que há de ruim no mundo atualmente. Tão, sorry, mas esse discurso já não dá mais para colar. É preciso repensar e assumir a defesa de identidades mais fluídas.
Afinal, se é pra ser algo, que seja pra ser todo dia mais bicha, todo dia um level a mais igual pokémon. =)
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