quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Conjunto vazio ou falando com as paredes

Nada vezes nada vezes nada.

Falar e não dizer coisa nenhuma.

Eu ainda de verdade não sei o que é pior ou me atormenta mais.

É impossível uma terceira via?



{Ø}
 



quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Am-bu-lan-tes

Quase na maioria das vezes eles pedem desculpa por incomodar as nossas leituras, as nossas conversas e as nossas viagens.

Sim, precisamos falar sobre os ambulantes do metrô.

É que eu tenho tomado um pouco menos de metrô esses tempos, por motivos que não interessam agora.

Mas há uns bons meses é perceptível que aumentou a presença deles no metrô.

Abstraído no maravilhoso mundo da literatura confesso que eu me incomodei algumas vezes com vendedores nos vagões.

De repente uma voz sobressalta oferecendo algo que você não quer, não pode comprar e não precisa ou talvez possa, queira e precisa, vai saber.

É que do alto do meu conforto desta vida proletária classe C atrapalhava a minha leitura.

Mas daí eu parei para pensar. Uma voz que fala alto tentando me vender algo em um momento que eu estou fazendo outra coisa. Onde foi que eu vi isso antes?

Teria sido na TV, nos jornais ou nas revistas? Nos meios dos textos pela internet afora? Em banners, outdoors, relógios e pontos de ônibus? Talvez tenha sido antes, durante ou depois de um vídeo no Youtube ou vai ver é a cada três nos Stories no Instagram.

Ah, gente. Vamos lá, aula básica sobre como funciona o capitalismo, tá até no manual de como escrever uma boa redação para a Fuvest.

O capitalismo precisa de uma massa de desempregados pra garantir o lucro, porque é assim que a coisa funciona. Cortar gastos demitindo alguém que tem um salário “alto” e contratar outra pessoa pagando menos. É aquela velha história.

Brasil, crise financeira, desempregados, o povo precisando viver, botar comida em casa, boletos e etc. Acho que deu pra sacar qual é a ideia.

Num primeiro momento você se incomoda, né, com esse comércio ilegal do shopping trem. É uma disputa grande por espaço, sem falar que a oferta de produtos é excessiva.

Dia desses eu vi um pessoalzinho no Twitter comentando sobre isso.

Questão aqui é que o alvo tá errado. As pessoas que vendem bala fini, fone de ouvido, pendrive, lente pra selfie, pau de selfie, chocolate e afins são só... bem, pessoas. E estão dando duro e tentando fazer o melhor pra ganhar a vida, igual a qualquer um que não está naquela situação.

Então sei lá, fica aí a sugestão do exercício de empatia, solidariedade e expansão da mente e do ponto de vista. O trabalho dessa galera pode até te incomodar e você ficar morrendo de ódio, mais do que já morre de ódio na vida e no metrô paulistano. Mas ele não é tão diferente assim de toda a publicidade com a qual você já está acostumado, naturalizado e engole pacificamente.

No fundo essas pessoas não são tão diferentes de publicitários bacanas que ganham prêmios em Cannes. Sem falar que é um desperdício para o próprio sistema  que muitas delas não estejam em empregos formais. Há muita gente boa de lábia e criativa.

Lidar com uma série de adversidades e correr o risco constante de perder mercadorias em um jogo de gato e rato que não se esgota não é fácil e exige jogo de cintura, canela e esperteza. E tudo isso em nome de nada, daquele 1% sem rosto mais rico da população a quem esse corre corre no fundo protege e beneficia.

Então pessoal fica aí o reforço. A próxima vez que vocês sentirem raiva dos ambulantes no metrô, lembrem-se que na verdade esta raiva é do capitalismo e dos efeitos sociais que isto gera.

Beijos, paz e namastê.

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

The Clock


Eu sei que tá rolando a Mostra, que daqui a pouco tem MixBrasil e antes disso tem Satyrianas e Balada Literária, mas tentem colocar na agenda algumas horinhas para ver “The Clock” uma das coisas mais legais em cartaz/em exibição em São Paulo e com entrada gratuita no Instituto Moreira Salles.

Pude ficar só uma hora ontem, mas a experiência é muito legal e pretendo voltar em breve para passar mais um tempo lá.

“The Clock” é ao mesmo tempo um filme e um relógio. Para ser mais preciso, a obra é uma instalação de um artista chamado Christian Marclay. Ela é composta de pequenos trechos de outros filmes em que há um relógio em cena ou menção à hora equivalente. Desta forma a hora apresentada na tela está em sincronia com a hora da “realidade”.

A montagem traz material de cem anos de história do cinema, sobretudo americano.

São muitas cenas e é muita coisa para prestar atenção, mas peguei “Amélie Poulain”, “O Exorcista”, Al Pacino em dois filmes - um deles “O Advogado do Diabo” -, Debra Messing, Samuel L. Jackson e Ben Affleck, que eu sempre disse que seria um bom Batman.

Senti como meu repertório cinematográfico é limitado. Deu vontade de ir pra casa, assistir ao smilhões de filmes baixados, deu vontade de ficar ali, deitado/sentado por horas a fio, vendo o tempo passar na tela em milhões de referências para a vida.

Deu uma puta curiosidade de pensar como em tudo foi feito, no trabalho que deve ter dado para editar e no tanto de tempo que demorou para o filme ficar pronto. Deve ter sido muito. Há arte até no fazer e na concepção de uma obra coma essa.

O que eu mais gostei é que “The Clock” tem uma narrativa própria, que pode ser acompanhada de qualquer ponto e que pode ser abandonada em qualquer ponto, inclusive talvez seja interessante dedicar algumas horas para a contemplação. Ver o filme de madrugada ou de manhãzinha pode ser uma boa experiência.

Diversos aspectos do cinema podem ser entendidos ali. Direção de arte, direção de atores, fotografia, dramaturgia, montagem e sonoplastia. Foi muito legal, por exemplo, prestar atenção aos efeitos de sons de um filme de kung-fu em que cada soco e chute é acompanhado de um som totalmente artificial produzido num estúdio.

Para além de toda a fruição estética e intelectual da coisa, ter visto “The Clock” me pegou muito porque vem coroar um ano em que eu fiz uma série de cursos teóricos sobre as etapas de produção cinematográfica no Sesc Pompeia e que foram um bálsamo para a incerteza permanente e agoniante que é “o que é que eu faço agora?”.

Tem um texto bem bom que saiu na Folha sobre a instalação, aqui. Recomendo a leitura, mas depois da visita.

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Vista parcial do dia

Pela janela a promessa de um dia gelado, nublado, feio e sem poesia.

Mas foi só sair de casa, vestindo a blusa de frio que o céu abriu.

Na verdade, uma parte do céu já estava azul antes mesmo de eu ir para a vida.

E o sol também já dava sua cara.

Eu é que não conseguia ver nada disso, porque estava limitado pela visão que me é possível.

Em quantas metáforas é possível pensar?

O quanto o nosso ser/estar no mundo não é limitado pelo lugar em que a gente está?

A previsão do tempo não era otimista nem mesmo no aplicativo do celular.

Quer dizer. Às vezes nem as melhores ferramentas dão conta do imprevisível.

E mesmo com todas as previsões contrárias fez sol.

Só não me arrependi de ter levado a blusa porque à noite esfriou.

Mas o boné, recém-adquirido dia desses, fez falta. E como fez.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Liniker

Eu sei que todo mundo já deu sua opinião sobre o stories de Liniker no qual ela reclamava de um fã que havia passado a mão em sua bunda.

Teve esse texto todo cagado do Forastieri, teve esse que ia bem até dar aquela peidada molhada na tanga no final e teve o do Tony Goes que às vezes acerta, mas às vezes é o puro suco da decepção.

São tantos equívocos que eu também contribuir com meus vinte centavos, apesar de nem saber por onde começar.

Mentira. Vou começar pelos shows da Liniker no Sesc Vila Mariana que teve nos dias 21 e 22 de julho de dois mil e dezesexy.

Fomos, Raíra e eu, no primeiro dos dois dias de apresentação.

Conseguimos comprar o ingresso pela internet. Ê. Mas era balcão. Ah.

Liniker fez um show lindo. Lindo. Foi emocionante. De fazer me chorar um pequeno tico.

No final, na hora do bis, ela subiu por uma *passagem secreta* e foi do palco até o balcão pra interagir com os fãs que viram o show dela mais de longe.

Foi algo muito raro de se ver, sabe.

Uma artista cantando no meio do público, rompendo com essa relação fetichista e de divindade que cultivamos em relação aos famosos.

Ali, no meio da música, no meio do público, Liniker interagiu, tirou algumas fotos e não foi agarrada.

Ninguém se comportou descontroladamente.

Teve uma hora, quando tava para descer, que recusou uma foto que não estava rolando porque ela atrasaria o encerramento do show. E o Sesc, como vocês bem sabem, tem horário pra fechar etc.

Ainda assim, neste momento, ela deu a entender que receberia os fãs depois. Nem sei se recebeu. No dia seguinte uma amiga conseguiu tirar foto com ela no pós-show.

Mas essa história é pra contar que dá pra respeitar as pessoas, sem precisar fazer muito esforço. E não dói.

Inclusive, um dos momentos desagradáveis foi quando um cara que eu juro que aposto que é hétero chamou Liniker de gostoso umas duas ou três vezes.

Se era pra elogiar, que pelo menos chamasse de gostosa.

Daí esses dias eu estava lendo uns posts meus em um blog antigo que o Terra tirou do ar há algumas eras.

Eu falava sobre a primeira vez que eu tinha ido numa certa boate gay, que tinha passado a mão na bunda de uns boys e de como o Bruno ficou putíssimo comigo na época e de como eu não entendi o porquê.

Vai ver que pelo fator beleza o Bruno fosse mais assediado (talvez ainda seja) que eu nessa vida. Mas até então eu achava natural ir numa balada gay e eventualmente alguém passar a mão na minha bunda. Entendia isso como uma espécie de vibe do lugar.

Sexo, hormônio, desejo, liberdade.

Mas não é só sobre isso. Porque cada um tem um limite. A princípio antes, talvez, eu gostaria que passassem a mão na minha bunda. Mas agora vejo que isso pode ser muito inconveniente dependendo da situação.

E é curioso o Forastieri ter citado Luan Santana, porque eu fiquei justamente pensando no quanto seria impossível de o Luan fazer 1-) um show no Sesc, ou vá lá, numa Virada Cultural e 2-) ir para o meio do público. E no quanto isso é triste.

Simplesmente porque eu já fui em alguns shows do Luanilson, saudades, inclusive, e apesar de serem bons, não rola essa intimidade, essa troca, nem esse pé de igualdade entre ele e o público.

Mas né, até a Preta Gil, que não tem um público tão mainstream, tem seguranças pra tirar uns fãs mais exaltados do palco, que dirá Luan, que é total showbizz e tem um séquito gigantesco.

No mais, no meio do texto o Forastieri solta umas críticas aos artistas do circuito Sesc.

Eu tenho ido a um monte de shows no Sesc, sei lá, desde sempre. E olha, não fosse o Sesc ter uma programação eclética, diversa e relativamente barata, principalmente para quem é comerciário, eu não teria ido a metade dos shows (e peças de teatro também, mas isso é outra história) que fui neste ano e acho que em todos da minha vida.

Então o papel do Sesc é fundamental, ainda mais quando se ganha pouco.

O Sesc democratiza cultura, lazer, conhecimento e convivência.

Importantíssimo. Ainda mais em tempos de golpe e retrocesso.

A Maria Alcina, quando lançou seu “Espírito de Tudo” em um show no final de Agosto no Sesc Pompeia foi para o meio da pista e ninguém a assediou.

No mais, Liniker, você é maravilhosa, suas músicas tocam, inspiram e emocionam muita gente. Obrigado por existir e se bota mais pra jogo, meu amor.

Vamo que vamo.

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

De tudo aquilo que te disse em silêncio e umas coisinhas mais (Parte II)

Sua testa toda suada.

Sei lá porque você está nervoso.

Em silêncio, tento te dizer: ‘calma, garoto, respira, vai ficar tudo bem’.

E volto a pensar na história. Nas histórias.

Na impermanência, na vida sobre a corda bamba. Um passo em falso e paf.

Principalmente para quem não tem muito equilíbrio.

Olhar. Olhar. Olhar.

Sua respiração vai ficando mais calma. Que bom que nós dois estamos calmos agora.

É o que vem depois da tempestade. A calmaria e a certeza de que se a gente sobreviveu uma vez, a gente vai sobreviver de novo. E tomar cuidado por onde pisamos. Para não repetir os mesmos erros e não cair de novo.

A próxima vez que alguém fizer algo parecido com isso eu meto o pé.

Devia ter terminado ali.

Não, antes disso. Talvez antes. Talvez ainda antes.

Olha. Se for parar pra pensar, não devia nem ter começado.

Olha. Se for parar pra pensar, quem é que devolve a minhas noites passadas em claro?

A impossibilidade doce da história que eu quero contar tem uma virada positiva no final.

Às vezes é melhor não ser.

No final você diz que a sensação que bateu foi a de que 'vai ficar tudo bem'.

Ponto dos meninos.


Sua testa secou.

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Apenas um Rapaz Latino-Americano

É que às vezes acontecem algumas legais na vida da gente, e é legal registrar para deixar para a posteridade.

Aliás, a grande riqueza de fazer um blog meio diário é esse poder olhar para trás e ver o que já se passou.

Textos que passado tanto tempo, fazem pensar em quem era aquela pessoa, qual exatamente era o problema pelo qual eu estava desabafando e o que tinha acontecido.

Mas já me alonguei demais em reflexões.

No mês passado a editora Todavia, recém-chegada ao mercado editorial, lançou a biografia do cantor Belchior.

Entre as atividades que eles promoveram para marcar o lançamento estava um happy hour na sede da própria editora.

Lá rolou um encontro de livreiros com o autor, o jornalista Jotabê Medeiros.

O legal foi que Jotabê sempre foi uma referência para mim em jornalismo cultural desde os tempos em que eu era apenas um rapaz latino-americano estudante de jornalismo sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo do interior (Guarulhos, no caso).

E de repente eu estava lá. Entrevistando-o. Não assim, o ping-pong do século, mas num dado momento do evento, puxei-o de canto e fiz algumas perguntinhas. Mais ou menos improvisadas, mais ou menos planejadas. Sem anotações, gravadas no celular, o que uns figurões do jornalismo talvez condenassem e etc.

Desde então eu estava encalacrado para que o texto saísse, mas como a Ana estava de férias, demorei um pouco mais do que devia na função.

Além de escrever a matéria, me vi na investigação básica de escutar Belchior, de quem eu sabia que conhecia apenas “Como Nossos Pais” e “Apenas um Rapaz Latino-Americano”.

E daí que eu tenho ouvido Belchior por esses tempos. E muito de música brasileira. E Almério, que foi a recomendação musical do Jotabê durante a entrevista.

Nesta semana, o texto foi publicado. E achei legal registrar por aqui um pouco dos bastidores e a minha descoberta deste músico/compositor, por quem estou apaixonado ultimamente.

No dado momento eu estou lendo “Minha Vida Não Tão Perfeita”, da Sophie Kinsella, e já separei uns 20 livros mais ou menos de autores e temáticas que de alguma forma dialogam com o há meu próprio fazer literário. Afinal de contas seria legal estar mais afiado para os debates sobre literatura LGBT no ano que vem.

Apesar disso, sinto que “Belchior – Apenas um Rapaz Latino-Americano” é o próximo livro que eu vou ler, porque a minha alma está gritando por isso.

No mais, fica também o registro da minha total falta de traquejo social para interagir um evento em que eu conhecia apenas uma pessoa, mas fui super bem recebido por todo mundo. Isso e um obrigado aos envolvidos.

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Sobre o amor em uma hora e vinte de exercício

Então a gente se mete a querer fazer arte.

A saber como é o processo artístico do outro. E aí a gente se dispõe a estudar e a fazer cursos livres.

Conte a sua história sem usar palavras.

Apenas com o olhar.

Foram as instruções.

Foi a coisa mais forte e intensa que aconteceu comigo nos últimos tempos.

Tentar, nesse fluxo de olhar, respiração e toque, narrar a minha história.

A história que eu estou querendo contar na verdade.

Porque uma parte da minha história eu acabei de transformar em ficção. E agora eu nem sei se que quero mais ficar revirando, remexendo e cutucando ela.

Não mais do que eu já fiz por livre e espontânea pressão.

Então eu comecei a pensar na próxima história que eu quero contar. Que deve ser o próximo projeto no qual vou trabalhar.

Fui instigado a pensar no meu tema. Cabe um plural aqui.

Quais são os meus temas?

Quais são os temas dessa história?

O tempo? O amor?

A impossibilidade de uma relação amorosa? ¯\_(ツ)_/¯

E então, falar. Escolher uma palavra que sintetize tudo.

E eu penso na história. No final do livro. E falamos quase que ao mesmo tempo.

Esperança-Cumplicidade.

Esperança e Cumplicidade.

Uau. Um par.

Puta que pariu. Você quer me desmontar, é boy?

Porque eu aqui, pensando nas impermanências. Que você também não me aceitaria. E você me vem com cumplicidade?

Porque né. A esperança. A esperança anda em falta. É por isso que pairou sobre a sala e se repetiu.

Porque talvez eu também seja meio óbvio.

Porque a esperança tá escassa.

Mas se tem uma coisa que é mais rara que a esperança, porque esta, apesar de tudo a gente mais ou menos vai aprendendo a cultivar, esta coisa é a cumplicidade.

Porque boy, a cumplicidade é muito mais difícil de encontrar.

A cumplicidade é para poucos.

E eu pensei. No quanto eu busquei a cumplicidade e no quanto não encontrei.

Sabe. Aquela pessoa que é sua parceira no crime? Que vigia a rua para ver se não vem vindo ninguém enquanto você comete o delito?

Um milhão de vezes mais difícil de acontecer.

Acho que nem nunca aconteceu. Pelo menos no sentido amor romântico da coisa e precisamos implodir o amor romântico.

Porque romântico de verdade é beijar na sarjeta.

Mas cumplicidade seria uma palavra possível. Porque talvez tenha algum tipo dela na história em que eu quero trabalhar. Porque talvez seja algo escondido, mas que precisa ser visto.

E eu achei uma maneira de me colocar no filme.

Nem que for começando por fazer uma nuvem de tags relacionadas com a história que agora eu quero contar.

Você me fez lembrar de palavras esquecidas.

E em uma hora e vinte e pouco de exercício a gente conversou, sem conversar.

E eu adoraria falar mais com você.

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Chuva na Cracolândia ou uma pequena digressão

Chove na Cracolândia.

É bom.

Pelo menos para quem está abrigado na Cracolândia.

É bom.

A chuva dilui o cheiro de merda na calçada.

Pelo menos hoje sabemos que o estômago não vai embrulhar.

Se vier com mais força, o fluxo da água pode até limpar a sujeira do meio fio empurrando-a para entupir os bueiros da São João ou da parte mais baixa da Barão de Limeira.

Chove na Cracolândia. E me dá uma saudades de Copacabana.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Podemos falar sobre ovos?

Hoje eu passei cola Pritt na boca ao invés do protetor labial. Vai ver me confundi por causa da cor e do formato das embalagens vermelhas. Só me dei conta por causa do gosto, porque a consistência das gosmas em bastão são as mesmas.

Mas podemos falar sobre ovos?

Do quanto eu gostava de chupar seus... epa!

Com os ovos que te atiram você pode fazer uma omelete. Se for mais ousado e disposto talvez dê para fazer um bolo. Rola também uma fritada. E gemada. Faz tempo que eu nem ouço falar em gemada.

Às vezes, de sábado, ou quando saio mais tarde de casa em dias de semana normais, passa na minha rua o carro dos ovos. É uma delícia, de sabor incomparável. Não. Errei. Esses são os sorvetes.

O carro dos ovos que passa é o que vem direto da granja. Aquele que as galinhas ficaram malucas e o patrão mandou vender barato.

Sempre fico com dó das galinhas nesta parte do áudio. Criadas em condições horríveis e obrigadas a suportarem o gaslighting – a manipulação de terem suas sanidades questionadas. Vamos convir afinal de contas. Se você vivesse apenas para produzir em larga escala e em condições sub-humanas você não enlouqueceria?

Mas se tem uma coisa que eu gosto no carro dos ovos é a exposição de o quanto o plural é desnecessário e está em desuso. Bonitos ovo. Acho de uma poesia e concisão singulares.

No mais, antigamente, quando o espetáculo era ruim, as pessoas costumavam atirar comidas na apresentação. Tomates, repolhos e até mesmo ovos.

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Mas eu lembro que foi assim

O ser humano e suas contradições.

Dá vontade de fazer uma festa pra celebrar a incoerência.

Lindeza.

Hoje eu acordei com uma dor no maxilar, com ele meio rígido. Com uma meia dor de cabeça. Sem falar no sono e no frio.

Sonhei que participava de um debate. Sobre a buchinha da pia. O mundo contra eu. O universo versus o Will. É que eu gosto de deixar a bucha de lavar a louça com sabão. Tipo, depois que eu lavo a louça. Sei lá. É uma agonia que dá da bucha seca. Às vezes você só precisa passar uma buchinha numa colher que você colocou na boca e não lavar a louça de um batalhão da infantaria. Daí a agonia da bucha seca. Se ela tiver sabão, pronto. É só dar aquela esfregadinha e já dá para enfiar a colher de volta no pote de doce de leite, por exemplo. Eu tentava argumentar que era triplamente econômico deixar sabão na bucha. Economiza-se tempo, economiza-se água (que gasta para tirar o sabão da bucha), e economiza-se detergente (que você usou para fazer o sabão e tudo o mais).

As pessoas que estavam no sonho, não lembro quais, me condenavam, falando que aquilo era nojento, porquice, que dava problemas de saúde e higiene, que eles tinham visto no Buzzfeed. A tia Lorilei foi a única pessoa do meu sonho que me defendeu. Me senti injustiçado com todo aquele julgamento sobre mim. Qualé galera, vamos todos morrer mesmo. Não lembro como foi que tudo acabou ou porque aconteceu. Mas eu lembro que foi assim.


quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Mais do mesmo mais ou menos

Um dos vários conselhos que os especialistas dão para controlar a ansiedade é prestar atenção à respiração e respirar melhor.

Eu tento me concentrar na respiração para me acalmar, mas fica difícil inalar o ar poluído e seco desta cidade.

Daí eu me concentro na sujeira que entra em mim, nas catotas que vão se acumulando no nariz e penso que a cada respiração eu fico mais perto da morte e assim será até o último suspiro.

Esta semana eu acho que eu terminei meu livro. Pelo menos uma primeira versão antes de reler, reescrever e revisar. O projeto de uma vida e um puta trabalho, mas acho que vai valer a pena continuar.

Demorei a pegar no sono depois de colocar o ponto final. Recorri à técnica da insônia produtiva e fui assistir série na Netflix. 3%, caso alguém esteja curiose.

Daí torcer para essa chuva que ameaça cair, cair de fato, já que ela está chegando meio tímida como quem não quer vir.

Hoje de manhã o Facebook carregou aquelas lembranças de tempos atrás. Uma garrafa de cerveja e um copo. Tudo ali. Cinco anos. Eu sozinho com o mesmo desejo de hoje em dia: o de sentar na mesa de um bar e tomar uma gelada.

A vida, de lá pra cá, mudou em vários sentidos, mesmo que algumas coisas permaneçam inalteradas.

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Crônica de um coração mediano

Reduzi drasticamente o consumo diário de chocolate.

É a crise financeira. São as crises de ansiedade.

No sábado eu fui no 3º Distúrbio Feminino, um evento feminista que reuniu quatro bandas entre elas a minha amada Dominatrix e a empolgante e também querida Charlotte Matou um Cara.

Eu queria escrever sobre como foi tudo inspirador e em como eu sonho em aprender a tocar, só por causa do tanto de ânimo que dá de respirar o mesmo ar que pessoas incríveis como estas mulheres corajosas.

São 20 anos do Girl Gathering, o primeiro CD do Dominatrix, e isso fez com que passasse um filme na minha cabeça. Do tanto de show que eu já vi desta banda nos mais diversos lugares e com as mais diversas formações.

São tipo 14 anos desde que a minha foi transformada por causa destas músicas. Lembro de um debate que rolou no Hangar em que a Elisa disse que era gay e em como aquilo deu forças para que eu também pudesse encarar a saída do armário.

Eu queria falar do quanto os solos de guitarra me fazem bem e do quanto eu também me sinto um solitário quando vou nestes eventos por que ninguém mais que eu conheço divide estes momentos comigo. Ao mesmo tempo eu já estou mais do que acostumado a ser o presidente do clube dos corações solitários.

Sempre sendo aquele cara por quem quase ninguém se interessa, com gostos estranhos, que foge de alguns comportamentos de manada, que chega atrasado nas piadas, que está por fora das tendências, que não articula bem, que foge das pessoas, que não fala bem em público, que não performa bem em grupo, que não faz nada muito bem, enfim.

Eu queria escrever um texto chamado “Crônica de um coração punk”, sobre como a crueza da vida me interessa. De como eu gosto dos lugares sujos e acho que só lavei o meu único tênis que presta uma única vez depois de andar com ele numa rua alagada e ele já está imundo de novo.

Eu falaria neste texto como a anestesia alienante do cotidiano faz com que as pessoas esqueçam e minimizem o “estupra, mas não mata” de Paulo Maluf – inclusive continuando a elegê-lo -, mas que uma banda punk formada por mulheres pega esta frase e nos devolve gritada, na cara, emulando a violência e o próprio choque que a frase original deveria causar.

Mas nesta minha existência ocupando o não-lugar de uma vida altamente desinteressante o que dá mesmo é pra escrever no máximo uma crônica de um coração mediano e seguir o baile. E vida que segue.

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Sobre tantas coisas que eu já nem sei bem o quê

Levantei com uma fome do tamanho do mundo e até demorei um pouco mais para tomar o café da manhã.

Ontem eu terminei de ler “Toureando o Diabo” e... que tiro senhoras e senhores!

Foi tão um negócio da vida, porque tem aquela história da varinha escolher o bruxo. No caso, foi o livro que me escolheu. Pra ser lido agora, durante todos esses processos.


O bom de ler algo assim é que dá a sensação de que não é só com a gente.

Sem falar que serve de inspiração.

Tem coisa que acontece sem acontecer. Raíra disse que dá pra tatuar essa frase. E dá mesmo.

Hoje de manhã, com o apetite voraz, não tava dando. O abismo chegou chegando.

- E aí, vai pular?
- Não. Hoje eu estou a fim de voar.

Coloquei o leite na geladeira pensando nos meus dias. Não tenho escrito uma linha do romance, apesar de a cabeça estar fervilhando, pensando nele. E em tudo que eu poderia escrever aqui.

Mais uma vez, a escrita como tábua de salvação.

Mais uma vez, escrevendo para ninguém ler.

Tento.

Disfarçar a carência que me faz corar de vergonha.

Torcer para que haja algum bom humor nesta vida, para que eu não seja mal interpretado ou soe grosseiro ou desesperado.

Ser uma versão mais legal e melhorada de mim mesmo.

Esses últimos dias frios, tem sido assim. Difíceis de suportar, com altas doses de pessimismo e pequenas ondas de euforia por pequenas coisas boas, além dos grandes encontros com as amigas.

Hoje foi engraçado. Quase me apaixonei saindo da catraca do metrô. 2 segundos de paixão que se foi. Preciso melhorar essa marca. Ou não.

E também penso nas faltas. No e-mail não escrito e não enviado. Na carta aberta que talvez (não) devesse postar aqui.

Faltou um pedido de desculpas. Faltou uma explicação. Faltou me levar a sério. Porque estava lá. Escrito bem escritinho na mensagem. Porque se é importante rir de nós mesmos, também é importante saber levar as coisas a sério. Contexto. É importante. E saber ler nas entrelinhas. E isso eu chamaria de respeito e até de carinho quiçá. Migalhas de uma atenção que já não estava mais ali e que eu achei que estivesse. Faltou timing. Ah, como faltou. Tentativas de diálogos equivocadas. E faltou também objetividade.

Penso também nas minhas faltas. Que eu poderia até dizer que não faz mais falta. O que seria mentira até por tudo aqui escrito acima. A falta faz, mas a gente se acostuma. A grande questão é que já não faz mais diferença.

terça-feira, 18 de julho de 2017

Frias amenidades

E esse frio, hein?

Só não é maior do que o fogo em mim.

Hoje eu consegui dormir melhor e mais rápido.

De alguma forma e por algum motivo consegui relaxar um pouco.

Acho que estava mais cansado do que estava de fato me sentindo.

Tentei acordar mais cedo e ser mais produtivo e chegar mais cedo. Mas me confundi na hora de arrumar o alarme. Tem show hoje. Do Salgadinho. Vai ser no vale dos heterossexuais, mas as companheiras de aventuras são amadas. Pagode dos anos 90. Crescemos ouvindo. Amamos.

Massa de ar polar faz nevar no Brasil.

Eu poderia até inserir uma piada aqui sobre coração de gelo e ser a Elsa do Frozen. Não que alguém fosse rir.

Hoje eu terminei o livro do Lázaro e comecei a ler “Toureando o Diabo”. É tiro atrás de tiro.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Mais um post sobre nada em particular

Uma das melhores coisas que eu fiz nos últimos tempos foi mudar o toque genérico do despertador para Radiohead. Agora eu acordo ao som de Idioteque. Dá um ânimo pra sair da cama e viver, mesmo que no geral da vida eu ande meio assim, querendo morrer.

Tinha tanta coisa que eu gostaria de conseguir escrever para postar aqui, que fico até perdido, por não encontrar a forma. Porque para cada assunto, uma digressão, uma reflexão, uma fugida deste cotidiano louco.

Esta noite, por exemplo, não dormi muito bem. Uma crise de ansiedade fortíssima levou horas de sono embora. E tudo isso, por nada, pra nada, por bem pouco. Não que eu esteja lidando mal com meus sentimentos devido a fome na África. E não que eu também não esteja preocupado com a fome na África, mas o relato de armas apontadas para pessoas queridas deu uma azedada no dia.

Incrível como escrever é o que salva a vida.

Para termos de registro, eu tenho avançado na escrita do livro.

terça-feira, 11 de julho de 2017

Elegia

Acho que foi o Marcelino Freire em uma oficina de criação literaria que disse que se você quer fazer poesia pense no nome da sua avó.

Escreva com as suas palavras. O nome da sua vó é mais bonito do que se você tentar descrever as cores de um por do sol.

É verdade. Eu imediatamente pensei no nome das minhas avós. Maria Conceição e Justa. Quanta poesia.

Hoje a vó Justa se vai

A morte faz parte da vida e pra morrer, basta estar vivo. É sempre bom pensar na morte. A cada um, a sua hora. Não tem jeito. É preciso se conformar.

A minha vó era uma contadora de histórias. Vai ver por isso que eu sonho em ser escritor.

Vou me lembrar pra sempre das histórias da minha vó, que sempre, invetavelmente acabavam com uma bacia de doces que ela estava trazendo pra gente, mas que perdia ao escorregar na ladeira do quebra cu.

A minha vó não teve uma vida fácil. Criou e perdeu muitos filhos. Além da poesia de seu nome raro, a minha vó sempre carregou com ela uma fé e uma força que nem eu, mais novo e que cresci em um mundo com muito mais facilidades, tenho.

A minha vó viveu uma vida intensa. Com caracteristicas dos mais variados gêneros literários. De drama e melodrama com espaço também pra muita comédia.

A minha vó tem uma fé que eu nunca vou entender. Eu, que sou mais novo, penso sempre em desistir por muito menos.

A ironia de tudo é que boa parte da minha descrença tem a ver com as profundas desigualdades e injustiças desse mundão.

A minha vó era humana. Tinha defeitos e qualidades.

A vida muitas vezes foi dura com a minha avó, ensinando erroneamente que ela tinha que se curvar e servir, só por ter nascido mulher.

O livro preferido da minha vó era a bíblia, do qual eu só sei algumas passagens.

Hoje a minha vó parte.

Vá em paz, vó
Vá com deus, vó.

A vida pode não ser justa, mas a senhora é.

Viva!

sábado, 8 de julho de 2017

E se o Batman fosse gay?

Assisti, como milhares de outras pessoas, “Mulher-Maravilha”.

E incrível que né, é entretenimento e coisa e tal, mas saí da sessão com uma série de questões que tento desenvolver agora, pra ver se aquieta um pouco o turbilhão aqui de dentro.

São tantos os pensamentos e tantas coisas para falar que fica até difícil saber como começar. Então, eu começo pelo fim.

E também aviso para quem quiser ler que este texto contém spoiler.

O primeiro comentário negativo que eu vi sobre o longa  foi o do Marcelo Hessel, no Twitter, criticando a qualidade dos efeitos especiais. Saber disso me fez tremer só de lembrar de “Supergirl”, aquele filme ruim de 1984, muito responsabilizado pelo mito de que filme com heroína não dá certo.

E realmente. Os efeitos especiais na batalha final são de chorar de desgosto. Mas pelo menos, felizmente, o filme não se resume a isso.

Como um todo “Mulher-Maravilha” é muito legal. Inclusive quero rever e quero na minha coleção. O problema é que o diabo mora nos detalhes e acho que nesse sentido o filme peca em muitas coisas.

Pra começar: o amor romântico. Não precisava, mesmo, tentar usar isso pra “sustentar” o roteiro. O boy é bonitinho e tals - aliás, podia ter aparecido a neca -, mas ele ser a chave que libera a força da Mulher-Maravilha é completamente desnecessário.

Raíra apontou que Diana poderia se lembrar da tia, que levou um tiro por ela. Talvez isso não justificasse a defesa da humanidade, do “mundo dos homens”, mas pelo menos seria menos óbvio.

Muito me agrada a sequência de cenas em que ela chega a Londres. Da chegada até a luta na trincheira/povoado ela tem que lidar com uma sucessão de “não podes”. Não pode falar, não pode se vestir daquele jeito, não pode ir ajudar, não pode ir pra guerra, não pode, não pode, não pode.

Ainda assim, acho que faltou empoderar um pouquinho mais a secretária. Só por uma questão de representatividade, que importa sim e muito. Digo isso porque rola uma diversidade entre as Amazonas, mas ela é limitada. Há mulheres negras no filme, mas elas mal falam. E as amazonas são todas atléticas.

A Mulher-Maravilha é sexy lutando em câmera lenta com a bomba explodindo atrás, apesar de o filme não ficar expondo ela de maneira machista, focando em peito, coxa e bundas. Inclusive, o fato de ela ser treinada para ser melhor do que todas as outras Amazonas explicita em muito sua condição de mulher.

Porque ela é inteligente, forte, bonita, inclusive luta e não fica suada, nem despenteada. Acaba a luta e tá lá, princesa, impecável. Nem um pouco cagadinha. É bem a cobrança geral que rola sobre como as mulheres devem agir e se comportar. Ser mãe, profissional, acadêmica e se apresentar sempre impecável. Ser duas vezes melhor que um homem. Afinal, elas estão aqui para embelezar o mundo, não é mesmo?

Mas me alongo e fujo do que queria falar. A participação das mulheres no filme. Quando a Mulher-Maravilha sai de Themyscira o filme se concentra nela e nos rapazes. Assim, de imediato, não há mal nenhum nisso. Mas por se tratar do primeiro filme de herói protagonizado por uma mulher, well. Faltou um pouquinho de ousadia and feminismo aí.

Conheço nada de Mulher-Maravilha, a não ser pelo desenho da Liga da Justiça, aquele que passa(va?) no SBT e no Cartoon Network. De quadrinhos, ainda não tive o prazer de ler nenhum. Então, tá. Steve Trevor é um cara das HQs, mas pensa que seria legal a Mulher-Maravilha ter uma sidekick mulher, ao invés de um grupo de homens atuando no segundo plano.

Até porque – tá, o filme “registra” uma época – quando rola uma cena dos caras conversando, é bem um grupo de homens no whatsapp. “Uma ilha com mulheres como ela e nenhum cara por lá? Preciso conhecer esse lugar!”.

E isso me leva a dois pontos adiante. O teste de Bechdel. Aquele desenvolvido pela quadrinista de “Fun Home” que a gente tanto ama. O Buzzfeed colocou que o filme passa amplamente no teste. Saí com a percepção contrária. Daí eu me deparei com este texto aqui, que confirmava minha suspeita

O teste de Bechdel diz que para um filme ser considerado feminista, é necessário termos pelo menos duas personagens mulheres. Que elas dialoguem, tenham nome e papel de destaque na trama e que o assunto não seja sobre homem. Isso acontece no começo do filme, daí Diana sai da ilha e fuén.

E aponto isso porque pra mim o feminismo é uma questão muito importante. Fui salvo pelo feminismo e sou muito grato às feminista que conheci e que continuam me ensinando até hoje. No entanto não consegui ainda escrever uma obra feminista na vida. Minhas peças até flertam com o feminismo, mas não passam no teste, que acho inclusive um desafio muito bom para a criação. No entanto, nada ainda me veio em termos de criação artística que seja protagonizado por uma mulher.

E nisso chegamos ao segundo tópico: a heteronormatividade que o filme meio que sem querer escancara. Estamos falando de Amazonas, afinal de contas. Mulheres crossfiteiras que vivem numa ilha sem homens. Fiquei com tanta coisa para ser absorvida que confesso que este detalhe me escapou. Daí, mais uma vez foi Raíra com seu olhar espetacular para as coisas sutis que apontou. Há alguma coisa entre a tia de Diana e a outra amazona que corre para socorrê-la?

Fiquei pensando na construção dessa heterossexualidade. Que se a Mulher-Maravilha tivesse uma sidekick ao invés de um sidekick o filme talvez “correria o risco” de cair em uma homoafetividade e como esse “papel” de quebrar a barreira contra a homofobia pesaria novamente sobre uma mulher. Sempre elas na vanguarda.

E daí que chegamos no título do post. Outra das minhas indagações para comigo. E se o Batman fosse gay?

Não o gay das paródias que fazem dele com o Robin. Mas sim um herói de primeiro escalão. Um dos mais conhecidos de todos os tempos e por todo o mundo. Já parou pra pensar nisso?

Eu, que amo quadrinhos e sou apaixonado pelo Batman, sempre torci o nariz para a ideia. Um porque né – heteronormatividade à parte - isso nunca esteve nos quadrinhos. Risos.

Tá, tem umas teorias bem toscas sobre um subtexto gay entre eles, mas isso não significa nada. Até porque o Robin era teoricamente adolescente e quão doentio tudo isso seria, para além de né, um cara se vestir de morcego e sair combatendo o crime e tudo mais?

Enfim, falando sério.

Além de nunca ter estado nos quadrinhos - o Batman tem Vicky Vale, Mulher-Maravilha, Mulher-Gato e Thalia Al’Ghul como possibilidades de interesse romântico para um filme - a ideia de um Batman gay sempre veio do mundo acompanhada de um tom de deboche e de escárnio muito grande.

Recentemente li o quadrinho em que Renee Montoya, uma policial maravilhosa do universo Batman, é tirada do armário por um vilão. Há toda uma consequência dramática na trama depois disso. A falta de aceitação por parte dos pais, o bullying homofóbico sofrido até no local de trabalho.

Sei que tem também um arco, não sei em que momento da história da vida, em que Montoya acaba virando parceira da Batwoman, que também é uma personagem do bat-universo, atende pelo nome de Kate Kane (em homenagem ao Bob Kane, criador do Batman himself) é lésbica e ainda não tive a oportunidade de ler um quadrinho.

Parece que os títulos da Batwoman têm saído com um relativo sucesso e especulam que por aqui a Panini publique um encadernado dela. Assim espero.

Há um tempinho postaram em um desses grupos do Facebook a capa do quadrinho da Batwoman falando bem dele. Daí um ser na internet comentou que não curtiu as histórias “principalmente por colocarem a Sra. Kane como homossexual”. Daí vem um iluminado que responde “Pense nela como Bi e segue a vida”.

Tipo sério. A ciência precisa descobrir como se forma o pensamento humano porque eu, sinceramente não entendo essa lógica daí. Mas é ela que torna dificílimo termos um personagem gay como protagonista de um filme de heróis num futuro próximo.

No mais, sobre a heteronormatividade na indústria do consumo nerd, há uma cena que dura segundos de “Batman Vs Superman” em que o Batman/Ben Affleck/Bruce Wayne acorda ao lado de um corpo visivelmente feminino em seu quarto na mansão Wayne.

O curioso é que o filme não explora muito o lado playboy de Bruce, nem mesmo algum tipo de interesse romântico do morcegão. Em um roteiro pra lá de embolado e gigantesco, não há nenhuma menção a quem seria a bonita ali. Um corpo feminino que aparece sem nenhuma consequência dramática apenas para cumprir a função narrativa de marcar o território da heterossexualidade do personagem.

Eu adoraria que o Batman fosse gay, até porque não é muito certo que as questões sobre representatividade e diversidade caiam apenas sobre os ombros da Mulher-Maravilha ou de outras personagens femininas. Seria bom que outros heróis entrassem nesta luta.

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Nizan


Nesta semana acontece na SP Escola de Teatro (Praça Roosevelt, 210) algumas apresentações do espetáculo "Pobre Super-Homem ou o Avesso do Herói", de Brad Fraser.

A peça, que eu tive a sorte de assistir no final do ano passado, tem a Renata Peron no elenco. Foi a Renata que apareceu na timelaje divulgando o evento.

Em um momento da peça a Renata compartilha o episódio de transfobia que sofreu, quando foi atacada por um grupo de skinheads e acabou perdendo um rim.

Deve ser por isso que voltando pra casa e pensando na vida uma frase ficou ecoando na minha cabeça: "É preciso ser muito macho pra ser gay neste país".

Eu ouvi muito essa frase nos meus anos de formação e descoberta, quando era apenas um adolescente cheio de hormônios descobrindo e procurando aceitar minha própria homossexualidade e a dos outros.

Isso foi há uns 15 anos.

Passado esse tempo. Conhecendo mais pessoas e vivenciando a diversidade a gente vai questionando tudo aquilo que ensinaram pra gente. E em dois tempos eu desfiz esse raciocínio tão comum.

Pautado apenas e apenas na minha vivência e na posição de observador da vida alheia é possível afirmar que em 2017, em uma cidade grande como São Paulo, ser gay é bolinho.

A vida tem seus perrengues? Claro que tem. Acontecem episódios de homofobia? Mais do que seria aceitável em um país que se pretende evoluído.

Mas precisa ser macho pra ser gay?

Acho que não.

No geral, quando se consegue se desprender de experiências e pessoas tóxicas e homofóbicas, a vida de um gay padrão de classe média é até bem da confortável.

Agora, ser travesti. Mano. Deve ser muito mais difícil. O risco e a violência a que elas estão submetidas é de doer. Sem falar nas agressões, estar fora do mercado formal de trabalho, não ter acesso à educação garantido e muitas vezes ser expulsa de casa pela própria família.

Isso sim é de lascar o cano.

Sinal dos tempos ou sintonia meio estranha, no dia seguinte a essas minhas reflexões o publicitário Nizan Guanaes publicou na Folha uma coluna com o título "É preciso ser muito macho pra ser gay neste país".

Apesar da boa intenção e da declaração de apoio à causa gay, o texto vem com um tom que soa meio anacrônico. De novo. É preciso ser macho pra ser gay neste país?

É inegável que é preciso de coragem pra quebrar as barreiras do preconceito, além de uma boa dose de paciência, autoestima e inteligência para lidar com ignorância, preconceito e burrice até de gente conhecida e querida.

Mas, em um momento histórico no qual a gente já tem consciência de que a homofobia tem raiz ali na misoginia e no machismo, no ódio às mulheres e em tudo o que é feminino, é no mínimo temerário fazer essa afirmação.

Ai. hétero né. Esse povo sem perspectiva que fica em casa vendo Faustão. Ninguém mandou pra ele o memorando sobre as novas diretrizes do "neomovimento LGBTTQIA+" então ele não é obrigado a estar por dentro da pauta da “bolha gay”.

Ainda assim é bem equivocada a utilização da figura do macho como sinônimo de coragem. Close errado. Diante da necessidade da valorização do feminino em nós, dos questionamentos acerca da normatividade de gêneros, manter este tipo de associação é bastante dispensável.

Ninguém precisa ser macho. Nem os “machos”. Macho, queridxs é sinônimo de tudo que há de ruim no mundo atualmente. Tão, sorry, mas esse discurso já não dá mais para colar. É preciso repensar e assumir a defesa de identidades mais fluídas.

Afinal, se é pra ser algo, que seja pra ser todo dia mais bicha, todo dia um level a mais igual pokémon. =)

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Balanço

Em meados de abril, com a proximidade das férias e a ansiedade gritando, listei alguns desejos. Coisas que naquele momento específico da vida me fariam muito feliz se eu tivesse a oportunidade de fazê-las.


Chamei a minha wishlist um tanto quanto ambiciosa de "Plano de Voo".


Segue, sem edição.


***


Para as minhas férias eu quero


1.) Assistir a um filme por dia

2.) Terminar pelo menos uma série

3.) Ouvir um disco inteiro por dia

4.) Usar um dia inteiro para “meditar” – fazer um pacto de silêncio e nada de ação, apenas higiene e alimentação estarão permitidos

5.) Jogar Digimon 2, talvez até terminá-lo

6.) Andar de patins vários dias

7.) Acordar sem despertador, mas não muito tarde

8.) Não dormir tarde

9.) Escrever todos os dias. Com exceção, talvez, do dia da meditação.

10.) Jogar Pokemón Yellow?

11.) Ir ao Sesc nadar

12.) Ir na sauna

13.) Passar um dia na casa da tia Eliete


Filmes que queremos ver: os do post-it amarelo, bourne, daggenheim, uns bem gays, alguns dos monstros, o hobbit, charlie chaplin, animações DC, batman & Robin, deadpool, capinho 3.


Séries que queremos ver: Quarta temporada de Orange is The New Black. Terceira temporada de O Negócio. Série Dupla Identidade. Terceira temporada de Shield. Terceira temporada de Arrow. Sexta temporada de Glee. Segunda temporada de Kimmy Schimidt. Chewing Gum. Quarta temporada de Awkward


Livros que queremos ler: Becky Bloom ao Resgate.


***


Não preciso nem dizer que não fiz tudo. Mas, olha, fiquei muito feliz de ter feito tudo o que fiz. Tipo, não assisti um filme por dia, mas num mês, consegui ver 15 filmes. Alguns da lista, mas a grande maioria não.


Escrever todos os dias, para terminar o romance, foi outra das intenções que naufragou. Escrevi coisas bem legais, mas tô longe ainda de finalizar o livro. Já CDs eu ouvi alguns, mas poucos.


Consegui não dormir tão tarde e acordar não muito tarde sem despertador para aproveitar o dia, fazendo stuffs. Perdi algumas horas preciosas jogando Candy Crush e não andei de patins uma única vez. Em compensação, fui nadar no Sesc e dei uma passada na sauna.


A casa da tia Eliete também não rolou, mas fui na vó e na mãe. Não viajei para poder economizar, mas acabei gastando com outras coisas. Vi também 12 peças teatrais e além de "Becky Bloom ao Resgate", comecei a ler "Orgia", do Tulio Carella, mas ainda falta muito para terminar.


Não joguei "Digimon 2", mas rolou "Pokémon Yellow". Descobri como se captura o Mew e consegui em poucas horas o Bulbasar, o Charmander e o Squirtle. Joguei também "Harvest Moon - Back to Nature". Ganhei uma competição de ovelhas e atravessei praticamente uma estação. A última vez que eu joguei foi em 2014 e olhe lá.


Ah, sim. Iniciei um projeto de HQ e escrevi um novo conto erótico. Além disso, terminei a terceira temporada de "O Negócio" e a sexta e última temporada de "Glee". Li também dois quadrinhos, um deles em inglês.


No dia da meditação, fiquei em silêncio, mas me permitir ver uma apresentação do Grupo Galpão, no Sesc aqui perto de casa.


O saldo foi positivo. Hoje voltei animado e renovado para trabalhar. Com um gás bom, apesar da apreensão que eu estava ontem. Estou com novas ideias e metas de organização. E nossa, não senti falta nenhuma de estar no Facebook no dia a dia.


E isso ao mesmo tempo em que, de repente, pensando na lista, no momento em que ela foi feita, nos primeiros dias das férias e no agora, me flagrei com uma sensação que não sei explicar exatamente, mas é a de que estamos condenados a um presente eterno.


Vivemos um agora ininterrupto que ininterruptamente vai se tornando um passado que vamos esquecendo. Os problemas gigantescos vão se apequenando, até a gente se dar conta de que eles passaram, se foram, viraram coisas risíveis, que a gente quase pensa que não é possível que tenha acontecido.


O problema de dois meses atrás foi superado e hoje temos uma coleção de novos problemas que daqui a um tempo também serão esquecidos em detrimento de novos que surgirão. 


Eu ia comprar "Papers, Please" para jogar no iPad, mas bem quando a fatura do cartão virou, rolou todo o bafo do Fora Temer com o Joesley da JBS e o dólar disparou indo às alturas Isso ficou em stand by.


E já estamos no meio do ano e o que você fez.


Hoje fiz pela primeira vez na vida filé de frango à milanesa. Perdi o medo e encarei a frigideira cheia de óleo. Só queria aprender a não fazer tanta fumaça nem deixar espirrar tanto óleo. Tive que limpar o chão engordurado e o fogão. Para quem não cogitava usar uma panela de pressão, até que eu me saí bem.

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Vozes de Mariana

Há cerca de um ano eu estava (re)ingressando na Livraria da Folha, após um período de desemprego. Na verdade, voltei a trabalhar um dia depois de o acidente de Tchernóbil completar 30 anos.

As duas coisas ficaram marcadas em mim, porque fazia pouco tempo que a Companhia das Letras havia lançado o livro “Vozes de Tchernóbil”, da jornalista ucraniana, Svetlana Aleksievitch. Por conta da efeméride o título foi um dos destaques daquela semana.

Só li trechos do “Vozes” – ainda estou esperando aquela promoção de 50% de desconto maneira para garantir meu exemplar, ou se a Companhia quiser me mandar, adoraria receber – bem como de seus dois lançamentos posteriores “A Guerra Não Tem Rosto de Mulher”, sobre a participação das mulheres na Segunda Guerra Mundial e “O Fim do Homem Soviético”, sobre os impactos do pós-queda da União Soviética.

Um dos traços da escrita de Svtelana e que provavelmente ajudou a garantir o prêmio Nobel de literatura é a polifonia, ou os inúmeros depoimentos dos envolvidos no acontecimento, que ela costura para construir sua narrativa acerca do acidente nuclear.

E foco neste livro que mal li, porque foi o que mais me veio à tona quando há duas semanas fui assistir à peça “Hotel Mariana”, ainda em cartaz no Estação Satyros (praça Roosevelt, 134) aos sábados e segundas, às 20h, e domingos, às 18h. As apresentações são R$ 30 aos sábados e domingos e gratuitas às segundas.

Com depoimentos coletados pelo dramaturgo Munir Pedrosa a montagem tem no elenco nomes como Lucy Ramos, Angela Barros, Bruno Feldman, Rita Batata, Rodrigo Caetano, entre outros.

A peça usa a técnica do teatro verbatim – que eu também não sabia o que era, mas é quando os atores, usando fones de ouvido, reproduzem os relatos gravados que escutam. Me lembrou um pouco a peça “Ao Pé do Ouvido”, que esteve em cartaz em 2015.

Estive totalmente por fora dos acontecimentos de Mariana, internado em sessões de cinema na época do desastre. E antes tudo o que eu sabia da cidade era que Elizabeth Bishop e Lota Macedo de Soares passaram algumas férias por lá. Então, agora que o desmoronamento da barragem está quase fazendo dois anos, que a irresponsabilidade virou questão da Fuvest e que a peça está em cartaz, não tem como não ficar estarrecido. Tanto com a devastação em si como com a nossa alienação – inclusive a minha – em relação aos desdobramentos do caso.

O que mais me mata é o quanto é de difícil assimilação o discurso do ativista/militante que aparece no final encerrando a peça e pensar na Samarco e no trecho de “Vozes de Tchernóbil” que reproduzo a seguir:

Assim começa a história: no ano de 1986, começam a aparecer reportagens sobre o julgamento dos acusados pela catástrofe de Tchernóbil nas primeiras páginas dos jornais soviéticos e estrangeiros.

Mas, agora, imagine um prédio de cinco andares vazio. Uma casa sem moradores, mas com objetos, mobílias e roupas — coisas que ninguém nunca mais poderá usar, porque essa casa fica em Tchernóbil. Pois é justamente numa dessas casas da cidade morta que se realiza uma pequena conferência para a imprensa, oferecida pelas pessoas encarregadas de levar a cabo o julgamento dos acusados pelo acidente atômico. Nas instâncias mais altas do poder, no Comitê Central do Partido Comunista da União Soviética, considerara‑se necessário examinar as causas do delito in loco. Na própria cidade de Tchernóbil. O tribunal se constituiu no prédio da Casa da Cultura local. No banco dos réus havia seis pessoas: o diretor da central atômica, Víktor Briukhánov; o engenheiro‑chefe, Nikolai Fomín; o substituto do engenheiro‑chefe, Anatóli Diátlov; o chefe do turno, Boris Rogójkin; o chefe da seção do reator, Aleksandr Kovaliénko; e o inspetor do Serviço Estatal de Inspeção de Energia Atômica da União Soviética, Iuri Láuchkin.

Os assentos destinados ao público estavam vazios, ocupados apenas por alguns jornalistas. Aliás, já não vivia mais ninguém por lá, a cidade estava “fechada” por ser “zona de controle radiativo severo”. Não seria esse o motivo de terem‑na escolhido como local do julgamento? Quanto menos testemunhas, menor o barulho. Não havia operadores de câmera nem jornalistas estrangeiros. Decerto todos gostariam de ver no banco dos réus as dezenas de funcionários de Moscou igualmente responsáveis. E todo o estamento científico, à época do acidente, deveria ter sido obrigado a assumir as suas responsabilidades. Mas se conformaram com a “arraia‑miuda”.

Saiu a sentença: Víktor Briukhánov, Nikolai Fomín e Anatóli Diátlov receberam pena de dez anos. Para os outros, as penas foram menores. No final, Anatóli Diátlov e Iuri Láuchkin morreram em consequência da exposição às fortes radiações. O engenheiro‑chefe Nikolai Fomín enlouqueceu. Por outro lado, o diretor da central nuclear Víktor Briukhánov cumpriu toda a sentença, todos os dez anos, ao fim dos quais os seus familiares e alguns jornalistas foram recebe‑lo. O acontecimento passou despercebido. O ex‑diretor vive atualmente em Kíev e trabalha como simples escrevente em uma empresa.

Assim termina a história.

Talvez “Hotel Mariana” não ganhe o Nobel, nem o Shell ou seja contemplado em outros prêmios e festivais, mas que é uma das peças mais bonitas, necessárias, urgentes e demonstra o quanto o teatro ainda pode ser arena de debates das questões atuais, isto é.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

De sonhos e erros

Meus sonhos estão maravilhosos esses dias.

De sexta para sábado eu sonhei que ia na redação do Omelete. Faz um tempo já que vendo os vídeos no stories do instagram, dá muita vontade de trabalhar lá.

Parece um lugar legal e descontraído. Deve-se trabalhar muito e talvez seja preciso desapegar dessa mania de não gostar de spoilers.

O salário talvez seja legal, talvez não. Mas sempre rolam uns jabás e oportunidades de visitar o set de uns blockbusters ruins e esquecíveis - o que deve ser ótimo tanto para sair do marasmo da rotina conhecendo o mundo como para praticar o inglês.

No sonho, por algum motivo o Mauricio tinha algo para entregar lá e eu o acompanhava. Enquanto ele fazia o que precisava ser feito eu trocava uma ideia com o pessoal.

Mas acabei queimando meu filme ao narrar minha própria trajetória de maneira tragicômica. As pessoas, como não me conheciam, acabaram por levar a sério todo meu humor autodepreciativo e acabei tomando um puxão de orelha da Nathalia Arcuri.

Por boa parte do resto do sonho e até ao acordar, fiquei lamentando ter queimado a chance de trabalhar no Omelete. Levantei achando que aquilo tinha acontecido. "Acabei com todas as minhas oportunidades".

Nesta noite eu sonhei que ia fazer com a Raíra um curso de biscuit, ministrado por ninguém mais ninguém menos que Adriane Galisteu. Foi bem maluco. A Galisteu fazia uma participação bem curta no sonho. Apenas aparecendo na aula e chamando a turma para ir almoçar em um restaurante que ficava a algumas quadras de onde era oferecido o curso.

Almoçamos e descobrimos que a Galisteu teve algum tipo de contratempo, então o curso de biscuit seria dado pelo Miguel Falabella. Mas ele não ensinou ninguém a fazer biscuit no final das contas. Ele ficava falando sobre ele e no final das contas só sobrou eu, ele e uma assessora, pra fechar a sala.

Quando o Miguel Falabella estava colocando o capacete e subindo em sua moto para ir embora, acabei tomando coragem para pedir para ele me dar uma entrevista. Ele desconversou, mas depois que falei para ele, que já tinha o entrevistado uma vez, ele foi um pouco mais receptivo. Disse que responderia algumas perguntas por e-mail, mas não me passou o e-mail.

No final íamos embora juntos, meio a pé meio em alta velocidade, por um caminho que parecia ser a avenida Nove de Julho. Ele evitava um assalto no ponto de um ônibus dando dois reais a um assaltante e no final sua assessora acabava se machucando em uma grade e quase apanhou iniciando uma discussão sobre racismo.

Hoje eu tentei fazer a torta de cebola caramelizada da Bela Gil. Tinha comprado cebola e farinha de grão de bico na semana passada. Deu mais ou menos certo. A massa rachou, que ficou parecendo solo erodido.

A quantidade dos ingredientes da receita para a massa era pouca para o tamanho da forma que eu tenho em casa. Tive que fazer mais massa para a lateral da torta. Em compensação consegui pela primeira vez na vida acertar o ponto da cebola caramelizada. A torta não ficou incrível e formosa, mas dá para comer.

O legal de ter "errado" a torta, é aprender com o erro e ver que preciso mudar a quantidade de farinha, água e azeite da próxima vez. Talvez até fugir do conceito vegano e usar um ovo para dar liga, como numa massa de quiche convencional. Enfim. Acho que por hoje é só.


sexta-feira, 5 de maio de 2017

Projeções

Maio começou com um feriado, trazendo também as férias.

Férias que quanto tempo eu não tinha. Férias remuneradas, de trinta dias. Vamos aproveitar, porque vai que deixa de existir.

Além disso, eu também estava precisando. De um tempo, sabe? Pra pensar na vida.

O primeiro dia oficial das férias foi na terça. Então na segunda eu tentei fazer uma espécie de retiro caseiro do silêncio.

Inspirado por um livro que eu tava lendo, decidi me dedicar ao silêncio meditativo e contemplativo.

Tive que quebra-lo por motivos de força maior. Teve uma apresentação do Grupo Galpão aqui do lado de casa. E a não ser por uma vez ou outra que falei comigo em voz alta e na hora de falar para a mocinha do mercadinho passar as compras no débito eu não fiz nada, e também não falei nada.

Aliás. Nada fazer é algo que eu estou tão desabituado, que confesso que foi difícil. Minha pilha de livros e gibis está gigante. Assim como as séries e filmes para ver. Há muitas coisas com as quais ocupar os tempos livres.

Pois bem. Um dos projetos das férias era: assistir um filme por dia, ouvir um disco por dia e terminar algumas séries como a sexta temporada de “Glee”, pra me livrar logo desse carma, e a terceira temporada de “O Negócio”.

Já estou no quarto dia e nem tudo deu. Estou um pouco mais adiantado em “O Negócio”. Hoje a internet está meio embaçada então não consegui ver nada do que tenho na lista infinita da Netflix. O que me faz pensar: ao mesmo tempo em que a Netflix é maravilhosa, cria uma dependência, né?

Com a internet sem funcionar muito bem, vagou uma janela na minha programação de “ver coisas” e daí pensei. Fazer o quê com o tempo livre, não é mesmo? Daí que a tarde eu li. E vim então escrever esse post.

Eu podia trabalhar na edição do podcast, mas a internet e a dor nas costas complicam. Poderia então trabalhar no livro. Sim, porque né. Acho tão pretensioso dizer que eu estou escrevendo um livro.

Esses dias consegui trabalhar nele. Na verdade, passar a limpo e incrementar dois capítulos escritos em março (!!!). E também comecei mais um. Aquele sonho romântico de passar o dia inteiro escrevendo ou pelo menos quatro horas seguidas, ainda não aconteceu.

Fazendo um mea culpa, me faltou disciplina na, haha, primeira semana das férias. Semana que vem, tento compensar isso. Prometo. O problema é que nada do que eu tenho escrito eu acho bom. Tudo parece horroroso e aí é uma luta. Porque eu fico o tempo todo dizendo para mim mesmo que tá tudo uma bosta, que ninguém vai ler, que ninguém vai comprar, que ninguém vai se interessar por isso, que não é criativo, que não é ousado, que a estrutura é fraca, que não tem conflito, que eu nunca vou me sentar no panteão dos grandes escritores brasileiros,  que tem muito sexo, imagina sua mãe, sua vó e suas tias lendo isso. Como seus parentes vão conversar com você no churrasco, você nunca mais vai ser convidado para uma festinha na vida.

Sobre os discos, consegui ouvir o novo do Criolo, o novo do Gorillaz e um que eu esqueci o nome do Hercules & Love Affair. Gostei muito do primeiro. O segundo achei chato, boring, sem nenhum grande hit, nada  que fique na cabeça como des pa ci to e o terceiro também não virei fã não.

sábado, 1 de abril de 2017

Acordo acachapado. A sensação diária é a de corpo moído, trucidado. Parece que apanhei. É difícil despertar e mais difícil ainda levantar. Pareço carro a álcool que demora a pegar no tranco.


A vontade, a minha vontade, era de passar o dia inteiro lendo, acumulando inteligência. Lembra no Matrix que o download de um software faz você aprender a pilotar um helicóptero? 


A ideia é mais ou menos a mesma. Ler, ler um monte, ler pra caralho, ler até o infinito, só morrer depois de ler. E aí sim. Aí sim, quando estiver pronto, com muito e muito conhecimento e saber, enfrentar o dia a dia, encarar o mundo lá fora, ir lá, dar um oi pra vida.


Hoje achei que fosse me dar uma crise de ansiedade, mas não deu. Ainda bem que eu comprei maracujá. Escrever também ajuda. E lembrar de respirar me salvou.


É que de repente, as possibilidades e os caminhos para atingir os objetivos parecem tão longos, tão distantes, tão difíceis e injustos, que tem hora que a vontade que dá é desistir. É bater asas e voar. É desencanar, se conformar, apenas deixar tudo pra lá. 


Valeu a tentativa. Esse negócio de ser paciente não é pra mim. Há uma urgência de tudo aquilo que eu não fiz. Todos os projetos engavetados, enraizados, intocados, ou simplesmente parados.


Precisa esperar mas não pode mudar de ideia. E aí, quando sofremos ação do tempo, porque novas ideias vão surgindo, a gente faz o que? Refaz planos, adapta realidade, enfia o dedo no cu e rasga junto com os projetos, com os sonhos e as vontades não realizadas.


Queria acabar todo esse texto de um jeito mais otimista, mas não vai dar. Então, paro por aqui. Depois retomo.