Então em um contexto que talvez não caiba muito revelar por aqui eu me deparei com esse filme pornô chamado “Noite das Meninas”, ou no original, Girls Night Part 1.
A trama é relativamente simples, mas muito curiosa e instigante. Três amigues gays conversando entre si. Um deles solta a braba. Já pensou que legal seria ser do sexo oposto por um dia? E se isso acontecesse, o que você faria?
Sendo um pornô gay, a resposta é meio óbvia, mas eu particularmente achei interessante. Atire a primeira pedra a gay que nunca pensou em ser mulher para pegar os caras héteros?
Claro que fora do terreno das fantasias e desejos sexuais, talvez isso seja um tanto problemático. Mas enquanto filme, sem entrar nos méritos das complexidades do pornô, a premissa rende umas cenas e diálogos no mínimo engraçados e foi a isso que eu me ative.
Surge uma fadrag madrinha que transforma os três caras em fogosas e gostosas mulheres que aproveitam a oportunidade para seduzir uns boys. Cada um deles arruma um par – menos o último, que consegue uma dupla -, até que na hora H a fada gaydrinha apronta e faz com que eles voltem às suas formas convencionais.
Há um espanto e relutância dos héteros em transar com outros homens, mas é como já dizem os ditados se está no inferno abraça o capeta e como já estão na chuva, todos se molham.
segunda-feira, 11 de janeiro de 2021
Noite das Meninas
quarta-feira, 30 de dezembro de 2020
de quando eu me dei conta de que não teria São Silvestre
sexta-feira, 23 de outubro de 2020
A pizza do Subway é um pedido de socorro
Lá para meados de julho teve um dia em que eu tava com vontade de comer pizza. Não mencionei isso numa conversa, mas ao telefone falamos sobre como fazia tempo que não comíamos no Subway. Primeiro por motivos pandêmicos, segundo porque mesmo antes da pandemia, a franquia de lanchonetes estava fechando algumas de suas unidades que ficavam em nossas rotas.
Pois foi desligar o telefone e acessar o Instagram que lá estava o anúncio. Conhecido pelos seus lanches que tinham todos o mesmo sabor, sempre, o Subway agora tinha pizza. E entregava em casa. Isso era de madrugada.
Não precisou nem de vinte e quatro horas até que alguém no Twitter fizesse o pedido e compartilhasse com o mundo sua experiência. A imagem de uma pizza cubista montada na força do ódio viralizou (risos), gerou uma série de memes e a companhia chegou a pedir desculpa nas redes sociais, dizendo que vai melhorar e tudo o mais.
Esse episódio todo, somado a vivências pelas quais tenho passado e experiências que tenho acompanhado de pessoas próximas, me fez pensar: a pizza do Subway é um pedido de socorro. Não em um sentido individual apenas, ou pelo menos não só.
Muitos dos que não ficaram desempregados nos últimos tempos, viram o rendimento cair. Quem teve a sorte e o privilégio de trabalhar de casa, precisou lidar com o aumento de pressão por produtividade, adaptação a uma rotina de reuniões e vídeo-chamadas exaustivas e a dificuldade em estabelecer o que é hora de trabalho e o que é hora de descanso.
Para quem já estava sem emprego ou em condições de trabalho intermitente, aumenta o nível de preocupação com o futuro. Se já estava difícil, neste cenário de recessão econômica e terra arrasada, o horizonte é de incertezas e desesperança. E embora represente um pequeno alívio, o auxílio emergencial não dá conta de trazer qualquer tranquilidade que seria bem-vinda nestes tempos. Todo mês é um drama sobre a data em que vai cair, se vai cair, e se o PicPay vai comer uma parte.
Neste contexto a pizza do Subway é uma síntese dos tempos em que vivemos e de um processo que vem de diminuição dos direitos trabalhistas e aumento da precarização (uberização) das condições de trabalho.
Junte-se a isso uma série de crises: política, econômica, moral, estética e civilizatória que se arrasta desde um pouco antes do golpe contra a presidenta Dilma, se eleva com a chegada de um grupo de milicianos trogloditas ao governo federal e se aprofunda com a pandemia do novo coronavirus no país.
Desta forma, além de síntese, a pizza do Subway passa a ser também um sintoma das condições em que vivemos e o que ela mostra é que não vamos sair melhores dessa. Ao contrário. Não há um mundo discutindo muito a sério modos de vida que façam sentido; em que a riqueza seja distribuída ao invés de concentrada; em que possamos nos dar ao luxo de trabalhar menos e gozar mais a vida e que o consumo não paute a construção de nossas subjetividades, bem como o patriarcado e o racismo.
O absurdo é elevado dia após dia. As iniciativas que vão na contramão da produção dos discursos hegemônicos não deram conta ainda de decolonizar imaginários em larga escala para conseguir adesão e promover novas utopias. O novo normal é o antigo normal de máscara. O novo normal é o antigo normal piorado.
O Subway passar a fazer pizzas em plena pandemia, na qual o grande ideal era isolamento e distanciamento social, é a prática de uma ideologia que prega a todo fucking instante aqueles velhos chavões de que é preciso se reinventar para sair dessa. Afinal, é preciso inovar, encontrar um diferencial, se destacar em meio à concorrência, não é mesmo?
Nesse mundo lindo das fanfics corporativas ninguém fala que isso se consegue às custas de sangue e suor de um funcionário ou funcionária mal remunerade que se expõe a riscos ao sair de casa para dar conta de fazer algo para o qual não dever ter recebido o mínimo treinamento adequado.
Não é fácil fazer pizza. Na verdade, não é que seja difícil. Eu mesmo me aventurei a fazer pizzas nestes tempos isolado. O difícil é fazer uma pizza gostosa e perfeitamente redonda e bonita. Requer prática, muito provavelmente talento. Não que eu esteja esperando que a pizza do Subway vá ser excepcionalmente gostosa. A crítica aqui é sobre o aumento de intensidade da pressão em alguém que já está em condições por si só estressantes.
Porque num belo dia um CEO tem uma ideia: vamos fazer pizza para superar a crise. E o vamos é repassado pela hierarquia da empresa, para o marketing que cria em isolamento ou semi isolamento as imagens que alimentarão as divulgações nas redes sociais e na mídia, aos donos das franquias, aos gerentes até chegar a pessoa que atendente no balcão e recebe a informação:
- Amanhã vamos começar a fazer pizza. E você vai ser responsável!
- Mas assim do nada. Como?
- Ordens da chefia. Te vira, pois é assim que a banda toca, e é assim que o mundo gira. Não tá satisfeito, rua! Tem 14 milhões aí querendo ocupar o seu lugar.
sábado, 26 de setembro de 2020
Como se fossem coisas distintas
Assisti meio sem querer Ana Maria Braga no Roda Viva segunda-feira. Não sabia que ela seria entrevistada e a vida quis que eu ficasse sabendo assim em cima da hora.
Gosto da Ana Maria e teve uma época da minha vida em que eu acordava cedo para assistir ao programa dela. Só saía de casa para trabalhar depois que acabava.
Eram outros tempos, outras questões, outro país e outra economia. Uma época sem whatsapp e sem bolsonarismo, em que a gente ainda acreditava viver num estado democrático de direito. Saudades.
Dito isso, devo confessar que senti um grande desconforto vendo a entrevista, sem deixar de me admirar com a educação, finèsse e elegância da Ana Maria Braga ao responder às questões dos entrevistadores e entrevistadoras.
Em dado momento, perguntaram para ela sobre política e sobre ela estar sempre em cima do muro. Lisa como um quiabo, Ana Maria saiu-se bem respondendo "perguntas difíceis".
Um pequeno momento em que ela pareceu ter esquecido de um roteiro de media training foi em sua resposta quando questionada sobre racismo. Apesar de o que pareceu um ligeiro deslize para acessar o glossário pertinente ao assunto é possível classificar a resposta como irrepreensível.
Depois a pauta foi feminismo. Movimento das mulheres. União e Me Too.
E talvez o meu desconforto venha daí. Dessa noção de que política seja algo que se refere apenas e tão somente à questões de gestão e gerenciamento da vida e da ordem de países, estados e municípios.
Como se política fosse um termo que servisse para se referir apenas àquela parte específica dos noticiários ou dos jornais impresso e não a todo o resto. Como se política fosse apenas temas relacionados a governo, prefeitura, deputados, vereadores, senadores e por aí vai.
Então venho aqui humildemente para reafirmar o óbvio de que tudo, absolutamente tudo, é política. E quando Ana Maria Braga fala que faz entretenimento e por isso não se posiciona, ela e toda a bancada do Roda Viva ressaltam uma ideia de oposição onde não há.
Não há entretenimento isento de ponto de vista e viés ideológico de mundo. E estar em cima do muro já é um posicionamento bem do claro. Não dá para falar de combate a racismo, machismo, homofobia e gordofobia como se se fossem coisas distintas de política. Não são.
Uma outra parte do meu desconforto consegui identificar apenas no dia seguinte. Por mais que a entrevista de Ana Maria Braga tenha servido também para que ela compartilhasse ensinamentos valorosos e sabedoria de vida, não pude deixar de me sentir como se estivesse lendo um dos quadrinhos da série Confinada, do Leandro Assis e da Triscila Oliveira, mas isso eu talvez desenvolva em outro post, quem sabe?
quarta-feira, 2 de setembro de 2020
Registro do ano que corre
domingo, 26 de julho de 2020
Reconhecer que era eu
sábado, 18 de julho de 2020
On testing novas possibilidades
quinta-feira, 16 de julho de 2020
As coisas como são
Cliquei na notícia, mas eu tenho muita agonia dos links do Facebook, com aquele &fbclid= que fica na barra de endereços. Então apago o &fbclid= e clico de novo na notícia que tem o instagram do Banksy embedado. Não sigo o Banksy no instagram, o que é um tanto irônico, pois adoro o Banksy. Tenho duas camisetas dele, da menina que solta o balão do coração e do punk jogando um buquê de flores. Acho que tenho a da menina do Napalm com o Ronal Mc Donald’s e o Mickey, mas talvez, se tiver, está em Guarulhos.
Uma loucura não segui-lo no instagram, eu às vezes penso em tatuar algum dos desenhos dele. A menina do balão, talvez. Daí eu penso que é muito legal, né. Isso de ser misterioso e tudo o mais. De identidade desconhecida. Que a arte que fica em primeiro plano. Evita decepções, né? Vai que na vida real, como ser humano ele é meio babaca, com opiniões racistas, machistas, homofóbicas ou misóginas.
Não, alguém com esse tipo de posicionamento artístico não poderia ter uma opinião dessas. Corrijo então meu deslize de uma vida, apertando o botão seguir. Não vejo vídeo, pois preguiça de ver vídeos enquanto penso na notícia. O metrô de Londres proíbe terminantemente grafites então remove o do Banksy, mas afirma que talvez liberem um espaço para ele. Daí deixa de ser contestatório, ou não? Perderia a força da intervenção, certo?
Em todo caso, uma nova timeline me atrai com seu fluxo. Dessa vez são os Stories. Isso porque eu tava com preguiça de ver vídeos. Mas fazia tempo que nada do Chico Lima aparecia pra mim e da última vez era uma homenagem de aniversário para um amigo (ou seria um boy? – não ficou claro) que eu achei tão legal. Então vejo, ele divulgando uma feijoada vegana do SubteVegan que me encheu de vontade, então passo a seguir o comércio. Vai que sobra uma graninha no malabarismo orçamentário pra pedir uma comida diferente qualquer dia desses.
Continuo vendo os Stories do Chico, ele replica a página da produtora de Tremor Magnífico, que estreou um pouco antes da pandemia. Não deu tempo de ir ver. Eles estão vendendo o libreto da peça. Já que não é possível estar no teatro é um modo de dividir o trabalho com o mundo. Passo a seguir a Jasmim Produção, mais informações no link na bio. É um linktree. Gosto demais desse conceito.
Vou parar no Youtube. Há um teaser de Lobo no canal. Choro sangue. Saudades Lobo. Fui ver duas vezes essa peça no começo do ano, no verão sem censura. Tinha visto ano passado, na MIT também. Queria a camiseta de Lobo, da faca. Não tinha mais o meu tamanho. Há também uma entrevista com a Carolina Bianchi, que está muito boa, onde ela fala um pouco do seu trabalho e do seu processo artístico.
Eu tô desde março do ano passado pra escrever um e-mail para Carolina pra dizer o quanto Lobo foi importante na minha vida. Lembro da história do Amyr Klink, que a Jout Jout contou uma vez no canal. Ele sai para navegar o mundo e dá uma missão para o caseiro, que ele consertasse uma janela. Amyr volta depois de dois anos. A janela ainda está quebrada. O caseiro diz que não deu tempo pra fazer o conserto. Fico pensando nas minhas janelas quebradas. O tempo para quem está em trânsito é diferente para quem está preso, confinado, quarentenado, sem poder escapar de um país, de uma realidade.
As pequenas coisas vão demandando atenção, a vida vai passando e de repente quando a gente olha, puxa já passou tudo isso. O tempo que leva para dar a volta ao mundo é o mesmo que leva para não se fazer nada. Eu só queria poder agarrar o tempo com as mãos e controlar ele um pouquinho que seja.
Meus acúmulos me aborrecem. Listas de coisas pra fazer, ler, escrever, ouvir que só crescem em direção ao infinito. É um tanto quanto exaustivo. As coisas, né, como são. Penso tudo isso com saudades de Lobo e vendo o teaser e o quão maravilhosa foi aquela peça. Daí pego o Shazam, que amo esse aplicativo, e ele me mostra que a música da peça-teaser, chama Eternity, de um tal de Vitalic.
Procuro no YouTube e acho esse vídeo aqui que fico apaixonado. Descubro um novo filme para ver. O Conto dos Contos. É com a Salma Hayek. Dá vontade de ver Frida de novo. E Assunto de Meninas. O filme é de 2015. Tem na Globoplay. Lembro de onde estava e o que eu estava fazendo naquela época. Foi um dos piores anos da minha vida. Tinha coisa pra viver e descobrir, mas me atirei numa fogueira em uma ilusão de amor. Talvez seja a hora de tirar uns atrasos e tentar consertar mais janelas já que não dá pra sair pra navegar.
quinta-feira, 9 de julho de 2020
Nota cítrica
sexta-feira, 26 de junho de 2020
Sexta-feira psicológica
quinta-feira, 25 de junho de 2020
Sobre lendas e feijões
| O melhor PF do mundo, na esquina da Farme de Amoedo com a Visconde de Pirajá em Ipanema |
Da minha parte eu sei que não fui criado para desenvolver autonomia, então me esforço para ir contra o que tentaram fazer de mim e fazer de mim o que eu quiser. É custoso e exaustivo. Não tem glória nenhuma aqui. Se quiser uma história de sucesso você está no blog errado.
| O restaurante Regina, no Arouche. Saudades do tempero desta comida |
sábado, 13 de junho de 2020
Postei uma foto pelado no instagram
Meu público sempre foi majoritariamente feminino. Homens não costumam ligar para a minha existência.
Pelo tom dos comentários a foto surpreendeu as pessoas. Diana achou ousada. Raíra pediu a versão sem censura. Recebi uma cantada mais abusada pedindo a foto sem a berinjela na DM, mas desconversei. Fiquei pensando nisso. Nessa nossa má relação social com o corpo humano nu.
![]() |
| Pensei também em postar aqui, sem censura, para leitores e leitoras ocasionais |
sexta-feira, 12 de junho de 2020
Pedras I
Até que surge um pequeno e levemente pavoroso silêncio porque você se perdeu nos pensamentos enquanto ouvia o que ele tinha a dizer sobre ele mesmo. Você analisava o que ele estava dizendo e como estava dizendo e seu cérebro projetava a sinastria e você se encantava com o sorriso dele, o sotaque, a respiração, o corpo, as costas das mãos, a bunda, a mala, as pernas e as orelhas e aí.
quarta-feira, 10 de junho de 2020
Processo de transformação de um texto
Como eu sabia que não ganhar era uma possibilidade, comprei a ideia da Raíra de que se não fosse escolhido, teria pelo menos um post novo para este blog.
Pois vim aqui contar um pouquinho como foi o meu processo. Fiquei sabendo do edital no dia que ele foi lançado, mas deixei para me inscrever no último dia. Sem problemas. Eu estava ruminando o texto em segundo plano na cabeça, então quando sentei para escrever o texto simplesmente saiu.
Quer dizer, mais ou menos.
Confesso que eu não sabia muito bem sobre o que iria escrever, ou como, mas quando peguei meu caderno, uma caneta e sentei para escrever, o negócio fluiu. Até demais. Eu tenho um pouco isso. Esse gosto, hábito, mania, tesão de escrever à mão. Era uma prática mais comum em tempos pré-pandêmicos, durante intervalos, uma espera em mesa de bar, momentos entre compromissos, no Sesc, na rua, na praça de alimentação do shopping depois do almoço.
Então eu escrevi uma versão de um texto, que depois digitei. Considero o digitar uma espécie de reescrita onde geralmente reelaboro o que não ficou tão bom no papel. O resultado tomou a forma que reproduzo abaixo:
Repetir, depois que tinha parecido a própria eternidade, aquele trajeto de outrora.
Outrora. Gostava daquela palavra que remetia a outros tempos, tempos estes anteriores àquele em que o mundo tinha virado de cabeça para baixo.
Já há muito tempo que esperava aquela ligação. Ei, tu pode vir hoje? Tá livre? Tô. Ok. Pra entrar às duas, tá? Beleza. Obrigado de chamar.
E então lidar de novo com aquela euforia que vai do coração ao queixo, tomar um banho, preparar alguma coisinha para comer na pausa. Mandar uma mensagem no Whatsapp para as amigas, com quem compartilha detalhes da rotina, contando que foi chamado para um dia de frila, “hoje tem evento”, “graças a deus”, “tô cansado, mas precisando do dinheiro”.
E voltar aos preparativos. Colocar a camiseta e a calça jeans, mesmo com este calor, mesmo depois de todo o vírus, porque trabalhar de bermuda não pega muito bem.
Tomar o metrô e descobrir naquele percurso um novo sabor, o da retomada de coisas que mudam permanecendo as mesmas e das coisas que permanecem iguais mas que se transformaram de um jeito difícil de explicar, captar ou apreender muito bem como.
Durante o trajeto pensa o ar, como se este estivesse mais denso e era isso que tornava os cumprimentos tão desajeitados. Como se agora tivesse que aprender uma nova língua, comunicar os afetos de outro jeito, inventar uma nova gramática, reaprender o que fazer com as mãos, o quanto abrir os braços, qual a velocidade ideal de um aceno de mão de distante. Porque se for muito efusivo pode demonstrar muita afetação e o que os outros vão pensar? Uma alternativa melhor seria aquele toque de cotovelos que surgiu antes de todos os eventos serem suspensos e havia especialistas dizendo na televisão que o ideal eram as palmas das mãos coladas em posição de Namastê ou a leve reverência curvando o tronco para a frente como fazem no Japão.
Uma bobagem essas novas etiquetas quando o metrô continua cheio do mesmo jeito."
Pois bem. O edital pedia 800 caracteres, contando espaços, que é praticamente nada. A primeira versão tinha 2.035. Para um texto deixado para a última hora, era relativamente bastante.
Fiquei na dúvida entre jogar fora e fazer outro ou trabalhar nele mesmo. Optei pela segunda alternativa. Então começou a operação edição. Cortes. Como sintetizar o texto e as ideias e manter uma essência?
Como abrir mão de frases ou trechos que me agradavam bastante? Passar a tesoura, praticar o desapego e ainda assim tentar chegar a um resultado minimamente satisfatório?
Fui ouvir meus áudios de Whatsapp e ler os comentários durante este processo de enxugamento. É um corta daqui, corta dali. Entendi que estava diante de um exercício de concisão. Foi um desafio fazer. Fui derrubando parágrafos e eliminando artigos. O primeiro corte significativo cheguei a 1078 caracteres. Então cheguei a 974. Depois 907, 871. Nessa hora eu fiquei pirando. Até então achava que o mais difícil seria escrever.
Cheguei a 802 caracteres. Dois acima do que o concurso exigia. Ainda precisava fazer caber. 791. Parecia ok. Duas pequenas modificações que resultaram em 796 caracteres. Inclui então um “as” em “as palmas das mãos” e daí cheguei aos 799 caracteres que compartilho com vocês a seguir:
Já há muito que esperava aquela ligação. Tu pode vir hoje? Posso. Pra entrar às duas, tá? Beleza. Então lidar de novo com aquela euforia boa de correr pra dar tempo. Tomar banho, cozinhar. Vestir a calça, mesmo com o calor, mesmo depois do vírus. Bermuda não pega bem.
Notar no caminho o ar mais denso e perceber como isso fazia os cumprimentos tão desajeitados. Era preciso outro jeito de se comunicar, descobrir o que fazer com as mãos, o quanto abrir os braços, a velocidade de um aceno. Alternativa seria o toque de cotovelos e dizem na TV que ideal eram as palmas das mãos coladas em posição de Namastê. Ou a reverência que fazem no Japão.
Etiquetas bestas. O metrô continua cheio como antes."
Agora eu quero ler outros textos do concurso. Quer tenham sido contemplados, quer não.
terça-feira, 26 de maio de 2020
Do que não saber o que fazer com o tempo
Foi esquisito a sensação de ter finalizado uma parte do filme e mais esquisita ainda essa sensação de não saber o que fazer com o tempo.
sexta-feira, 22 de maio de 2020
A Tese do Mestrado
Desta forma a minha tese ia explicando o mundo. O biroliro por exemplo é uma performance para o mestrado dele, onde ele se inscreve como sujeito e observador do experimento ao mesmo tempo. Pessoas queridas falando besteiras nas redes sociais, com certeza é para investigação do mestrado delas, porque só isso explica eu não conseguir entender o que se passa na cabeça desse povo.
Mas eu gostaria muito que fosse.
segunda-feira, 11 de maio de 2020
Como ganhar um edital
Hoje foi o primeiro dia de inscrição, que vai até quarta e eu não escrevi uma linha de nada por causa do tema: a vida pós-pandemia.
Minha inércia tem uma boa razão de ser. Estou completamente tomado pelo pessimismo. Ou talvez eu seja bom nisso de arrumar desculpas para mim mesmo.
Tudo que eu consigo pensar sobre vida pós-pandemia é que por mais que iniciativas pontuais e bacanas de solidariedade tenham aparecido, tem muita gente escrota no mundo.
E o mundo, como sabemos, já passou por muitas crises e estamos onde estamos por tudo que fizemos antes, durante e principalmente depois delas. Não melhoramos depois da escravidão, do nazismo, da crise espanhola, da epidemia de hiv, do 11 de setembro ou da boate kiss.
Não há luz num horizonte próximo. Pelo menos nada assim que eu consiga mensurar. Não deixaremos de acreditar nas ficções que são o dinheiro e a economia e não conseguiremos inventar um novo modo de viver, simplesmente porque nem tentaremos.
Porque falta adesão à vontade de mudar o mundo. A gente nem acredita mais que isso é possível.
Porque agora, que é agora, a gente não liberou as faxineiras e as pessoas mais precarizadas não estão ficando em casa - às vezes nem casa têm para se ficar. Como é que se pensa um pós, um futuro, quando o presente é altamente incerto e desemprego, falta de propósito e desigualdade se acentuam?
Que tipo de ficção é possível de ser inventada num cenário como esse? Que tipo de ficção tem chances de ganhar um edital? Oras, você não é escritor, inventor, criativo? Pois, crie!
Neste momento, pensar em futuro me faz oscilar. Na vida, de modo geral, pensar em amanhã só me dá vontade de chorar na cama prostrado em posição fetal. Se, por um acaso eu conseguir até lá pensar em algo para o edital, será para chorar as pitangas de um mundo cada vez mais injusto e cada vez pior.
Uma epidemia que não serviu de nada para tirarmos algum tipo de lição, porque enquanto ela está acontecendo há marmanjos na rua da casa do Lucas empinando pipa.
Por outro lado, acho que pra ganhar um edital, talvez o segredo seja investir em uma narrativa mais edificante, mais bonitinha, mais conforme dizem especialistas das novas etiquetas que surgirão. Mais como foi a capa do Segundo Caderno d’O Globo de Sábado. E eu que já não suportava etiquetas terei que conviver com novas.
A imagem que me vem desse futuro pós-pandemia é a daqueles desenhos que ilustram o céu em folhetos das Testemunhas de Jeová, em que crianças multiétnicas brincam com leões e tigres num cenário de relva verde, lagos e árvores frutíferas.
Vou descrever uma dessas. Pintar em 800 caracteres essa paisagem idílica. Vai que assim eu sou contemplado.
sexta-feira, 8 de maio de 2020
No meio de tudo isso
Não ando lendo mais o horóscopo mensal para não criar expectativas com as boas quadraturas entre os planetas ou os aspectos tensos entre os astros celestes.
Não estou acompanhando com tanta regularidade os horóscopos diários também. A rotina virou água que corre pelas mãos. Cada dia é uma surpresa em relação a com quais sentimentos terei que lidar hoje.
Fica difícil processar o que se passa internamente quando parece que o chão desaparece, a normalidade de antes virou pó e o mundo físico que nos cerca é como se derretesse.
Do mundo espiritual eu queria uns sinais, sentir umas conexões, mas meus canais devem ser todos bloqueados.
No meio de tudo isso ainda tentar dar conta de alguma produtividade, eficiência, seguir com o projeto do filme. Abraçar outras ideias, anotar em cadernos ou blocos de notas boas sacadas para depois, textos, contos, observações que só devem ganhar corpo dias que chegarão sabe-se lá quando, se é que chegarão.
Esses dias tava escovando os dentes e tive um lampejo de uma ideia para o que seria o meu projeto de mestrado. Não anotei uma linha mais a sério sobre isso. E sim, o mundo de ponta cabeças, o futuro cada vez mais sinônimo de incerteza e a bonita sonhando, que é o que resta.
Junho tá aí, sendo que maio mal começou. Mais uma semana se foi.
quinta-feira, 30 de abril de 2020
Tudo que a gente tem é o hoje
Tá, marindo?, perguntou a a uva para a outra. Não, tô milho!, respondeu a outra para a uva.
E terminar aquela panela gigante foi uma questão que me absorveu até que ele enfim acabasse. Dei a última garfada nele na terça seguinte antes que ficasse mais intragável do que já estava.
O negócio é que as preocupações de hoje (daquele hoje) nem serão preocupações daqui a duas semanas, apenas lembranças, memórias até dignas de esquecimento. E a questão aqui é que o hoje é tudo o que a gente tem, porque já já hoje acaba e amanhã vira o novo hoje.
Eu preciso cozinhar de novo. Talvez faça macarrão.

