domingo, 26 de julho de 2020

Reconhecer que era eu

Todo mundo já deve ter passado por aquele momento meio estranho meio Black Mirror quando após mencionar a intenção de comprar um produto em uma conversa casual que pode ser analógica ou por facilitadores digital a linda do tempo aparece carregada de promoções ou anúncios do item citado.

É o tal do algoritmo, é  “1984”, é a gente entregando voluntariamente nossos dados, momentos, produções de saberes, privacidades e intimidades para que a grande máquina do capitalismo possa funcionar em velocidade de fibra ótica, 5G, essas coisas.

A televisão aqui de casa é Smart. Já é um modelo ultrapassado, mas é Smart. Ela não é minha, mas essa é outra história. A Netflix que está logada é o minha. A conta da Amazon é da Raíra, assim como a do Mubi e da Globoplay (que funciona muito mal). A do Looke é minha, mas ainda não paguei nada nele. Só assisti coisas de graça. Globosatplay é uma conta com os dados do meu pai, porque ele que assina a Net/Claro, um login que eu acho que ele nem sabe que tem, mas eu quase nunca vejo nada de lá pela televisão, porque instalei o app esses dias só. Quarentena, né minha filha?

Pois. Eu tinha acabado há pouco de assistir a um filme na Netflix e um comentário me fez lembrar que eu queria ver um video do canal Estante Alada  Liguei no Youtube, logado na conta do meu irmão e assisti ao vídeo, assisti mais um. Procurei o Livrada!, e vi mais três vídeos.

As recomendações que aparecem na primeira página do Youtube do meu irmão são de coisas bastante específicas, umas coisas científicas, tipo Atila e Mindfield, tipo Yoga e Show da Luna, por causa da minha sobrinha.

Passei uma hora usando o aplicativo no login dele e o Youtube já sugeriu vídeos de Book Haul. Achei legal isso de bagunçar as sugestões dele que vai ficar com uma homepage mais parecida com a minha hahahaha, mas acredito que logo logo a inteligência suprema por trás desses serviços poderá reconhecer que era eu quem tava assistindo, usando a conta de outra pessoa. 
 


sábado, 18 de julho de 2020

On testing novas possibilidades

Estou testando novas possibilidades de existir neste sábado à noite.

Por exemplo, eu acabei de perceber que tomei muito pouca água ao longo do dia. E isso é um eufemismo para nenhuma água.

Também almocei tarde. Na hora da janta, que não foi das mais substanciosas, mesmo sendo lasanha.

Engraçado e curioso como os dias estão voando. Daqui a pouco é agosto e o ano acaba. Eu tô com um pouco de preguiça de existir, mas preciso dar conta das coisas pra fazer enquanto dura esse desemprego. Enquanto não terminamos o filme.

Há ao menos 10 coisas para tocar paralelamente.

Às vezes me pego preso, como agora, num misto de depressão com ansiedade e parece que nada do que eu fizer vai fazer com que eu tenha uma sensação de tempo bem aproveitado. Excesso de passado, de presente e de futuro simultâneamente.

Descansar não me descansa, filmes não andam segurando minha atenção. Séries menos ainda. Rever uma coisa que já vi parece desperdício de vida. É um sábado à noite e preciso estender roupas e botar pano de prato pra lavar.

A cabeça não concentra na leitura, minha libido está desaparecida. Pensei em botar anúncio: paga-se recompensa. Se alguém achar que faça o favor de cuidar bem, por enquanto.

No mais é isso: já que boiar não tá rolando, o jeito é nadar nessa corrente de incertezas ou se deixar levar pelo fluxo dos dias dando as braçadas possíveis e necessárias para não me afogar.

E olha que ontem eu comi esfihas. O ponto alto da semana. Além da capa nova do iPad que chegou. Uma agonia a menos nessa vida.

Daí que para lidar com o que está difícil de entender eu vim aqui escrever.

quinta-feira, 16 de julho de 2020

As coisas como são

Eu estava procurando um vídeo no Facebook para usar no filme, o fluxo da timeline me levou feito enxurrada. Me deparei com um link sobre metrô de Londres ter removido um grafite do Banksy. Eu adoro o Banksy, tinha aparecido no Twitter já ele usando máscara e tals, mas eu não tinha me aprofundado.

Cliquei na notícia, mas eu tenho muita agonia dos links do Facebook, com aquele &fbclid= que fica na barra de endereços. Então apago o &fbclid= e clico de novo na notícia que tem o instagram do Banksy embedado. Não sigo o Banksy no instagram, o que é um tanto irônico, pois adoro o Banksy. Tenho duas camisetas dele, da menina que solta o balão do coração e do punk jogando um buquê de flores. Acho que tenho a da menina do Napalm com o Ronal Mc Donald’s e o Mickey, mas talvez, se tiver, está em Guarulhos.

Uma loucura não segui-lo no instagram, eu às vezes penso em tatuar algum dos desenhos dele. A menina do balão, talvez. Daí eu penso que é muito legal, né. Isso de ser misterioso e tudo o mais. De identidade desconhecida. Que a arte que fica em primeiro plano. Evita decepções, né? Vai que na vida real, como ser humano ele é meio babaca, com opiniões racistas, machistas, homofóbicas ou misóginas.

Não, alguém com esse tipo de posicionamento artístico não poderia ter uma opinião dessas. Corrijo então meu deslize de uma vida, apertando o botão seguir. Não vejo vídeo, pois preguiça de ver vídeos enquanto penso na notícia. O metrô de Londres proíbe terminantemente grafites então remove o do Banksy, mas afirma que talvez liberem um espaço para ele. Daí deixa de ser contestatório, ou não? Perderia a força da intervenção, certo?

Em todo caso, uma nova timeline me atrai com seu fluxo. Dessa vez são os Stories. Isso porque eu tava com preguiça de ver vídeos. Mas fazia tempo que nada do Chico Lima aparecia pra mim e da última vez era uma homenagem de aniversário para um amigo (ou seria um boy? – não ficou claro) que eu achei tão legal. Então vejo, ele divulgando uma feijoada vegana do SubteVegan que me encheu de vontade, então passo a seguir o comércio. Vai que sobra uma graninha no malabarismo orçamentário pra pedir uma comida diferente qualquer dia desses.

Continuo vendo os Stories do Chico, ele replica a página da produtora de Tremor Magnífico, que estreou um pouco antes da pandemia. Não deu tempo de ir ver. Eles estão vendendo o libreto da peça. Já que não é possível estar no teatro é um modo de dividir o trabalho com o mundo. Passo a seguir a Jasmim Produção, mais informações no link na bio. É um linktree. Gosto demais desse conceito.

Vou parar no Youtube. Há um teaser de Lobo no canal. Choro sangue. Saudades Lobo. Fui ver duas vezes essa peça no começo do ano, no verão sem censura. Tinha visto ano passado, na MIT também. Queria a camiseta de Lobo, da faca. Não tinha mais o meu tamanho. Há também uma entrevista com a Carolina Bianchi, que está muito boa, onde ela fala um pouco do seu trabalho e do seu processo artístico.

Eu tô desde março do ano passado pra escrever um e-mail para Carolina pra dizer o quanto Lobo foi importante na minha vida. Lembro da história do Amyr Klink, que a Jout Jout contou uma vez no canal. Ele sai para navegar o mundo e dá uma missão para o caseiro, que ele consertasse uma janela. Amyr volta depois de dois anos. A janela ainda está quebrada. O caseiro diz que não deu tempo pra fazer o conserto. Fico pensando nas minhas janelas quebradas. O tempo para quem está em trânsito é diferente para quem está preso, confinado, quarentenado, sem poder escapar de um país, de uma realidade.

As pequenas coisas vão demandando atenção, a vida vai passando e de repente quando a gente olha, puxa já passou tudo isso. O tempo que leva para dar a volta ao mundo é o mesmo que leva para não se fazer nada. Eu só queria poder agarrar o tempo com as mãos e controlar ele um pouquinho que seja.

Meus acúmulos me aborrecem. Listas de coisas pra fazer, ler, escrever, ouvir que só crescem em direção ao infinito. É um tanto quanto exaustivo. As coisas, né, como são. Penso tudo isso com saudades de Lobo e vendo o teaser e o quão maravilhosa foi aquela peça. Daí pego o Shazam, que amo esse aplicativo, e ele me mostra que a música da peça-teaser, chama Eternity, de um tal de Vitalic.

Procuro no YouTube e acho esse vídeo aqui que fico apaixonado. Descubro um novo filme para ver. O Conto dos Contos. É com a Salma Hayek. Dá vontade de ver Frida de novo. E Assunto de Meninas. O filme é de 2015. Tem na Globoplay. Lembro de onde estava e o que eu estava fazendo naquela época. Foi um dos piores anos da minha vida. Tinha coisa pra viver e descobrir, mas me atirei numa fogueira em uma ilusão de amor. Talvez seja a hora de tirar uns atrasos e tentar consertar mais janelas já que não dá pra sair pra navegar.

quinta-feira, 9 de julho de 2020

Nota cítrica

Estava com sono na mesma proporção em que estava com vontade de comer uma laranja. Então decidiu chupar uma laranja antes de dormir. Foi até a cozinha, onde cortou a laranja em quatro partes. Estava doce a laranja. Não tão doce quanto as laranjas bahia, que tinha comprado na semana anterior. Quatro por dez, um absurdo de caro, mas valeu o investimento porque estavam dulcíssimas. E tinham tambéms vistosas polpas vermelhas que aguçavam a visão antes de agradar ao paladar. Laranjas. Poderia ser um texto sobre o governo do país, mas é só um texto sobre aquela vontade inesperada que dá de comer uma laranja antes de dormir.

sexta-feira, 26 de junho de 2020

Sexta-feira psicológica

Ainda que os dias estejam todos meio iguais, é na sexta-feira em que sinto mais o corpo doer.

Nessa espiral de sentimentos que virou este período isolado, teimo em não perder essa sensação de sexta-feira. De chegar ao ápice da semana. De só querer dormir até mais tarde no dia seguinte.

Não que os finais de semana sejam de descanso. Pelo contrário. Tem sido raro o final de semana em que é possível fazer o que quero, sem culpa, ressentimentos ou algo do tipo.

Nem jornal eu tô lendo mais. Perdi a mão, tomado pela escrita, tradução e revisão de um edital, além de assistir ao primeiro corte e as reuniões de edição e a entrada no segundo corte e um furacão que tomou minha casa esses dias.

Abandonei também outras leituras que em breve pretendo retomar. Hoje eu só queria estar livre mais cedo, mas ainda tem aula de alemão onde meu cérebro frita. Não tô reclamando. Só constatando.

Sei que é privilégio estudar online na quarentena, mas no momento meus privilégios esbarram no desemprego. E olhando para trás o que temos é uma vida de sucessivos subempregos, alguns com mais felicidades que outros, é bem verdade, mas que não somam dez anos de carteira de trabalho assinada.

Não que esse seja o foco ou o objetivo de uma vida, mas dá muito o que se pensar, sobre de antemão falar de condições alheias. Só eu sei tudo o que calo.

Sempre detestei isso, dessa coisa de esperar ansiosamente a sexta-feira e odiar a segunda-feira. É um modo de vida muito triste, já que a gente vive todos os dias e não só aos finais de semana. 

O problema, um dos problemas, dessa quarentena, é saber como fazer a cabeça dar uma trégua. Neste cenário de terra arrasada, quem conseguir, que se dê por satisfeito.

Ainda bem que amanhã é sábado.

quinta-feira, 25 de junho de 2020

Sobre lendas e feijões

Tenho um problema com sal. Receoso de salgar demais as comidas eu boto muito pouco sal nas coisas quando cozinho. Em algumas receitas nem coloco, tipo em strogonoff, por exemplo, porque já tem o sódio do catchup e da mostarda, ou quando uso Sazon e lembro do meme que a Adelita me mandou.

Preciso ousar mais no uso do sal, arriscar, experimentar novas medidas. Trago esta espécie de introdução para contar aqui que no último sábado eu fiz feijão. Cozinhei feijão preto como se come no Rio de Janeiro com a ideia de me transportar em sensação para Ipanema, para o Beach Sucos, o melhor prato feito do mundo, não melhor do que o quilo da Regina, no Arouche.

Acertei no alho, na quantidade da água para o caldo, mas errei no sal. Enquanto o feijão cozinhava, vi na timeline que mais pessoas tinham cozinhado feijão. A Luiza falou que as estrelas do feijão estavam alinhadas. Deviam estar. Paralelamente, é comum os relatos sobre o medo da panela de pressão explodir, além da recomendação da panela de pressão elétrica.

A panela de pressão tem um segredo simples que é não encher demais, nem de menos. E não deixar a água secar. Tirando isso, fiquei pensando muito neste medo da panela de pressão, que como todos os medos me foi ensinado. No meu caso, herdei da minha mãe, que não deixava eu chegar perto do fogão, achando que eu colocaria fogo na casa, como um boneco do The Sims.

O melhor PF do mundo, na esquina da Farme de Amoedo
com a Visconde de Pirajá em Ipanema


Medo de panela de pressão passou a fazer pouco sentido para mim quando comecei a utilizá-la com mais frequência. Ainda que eu não faça muito feijão ou muitas coisas envolvendo esta panela. A última vez tinha sido aquele macarrão cheio das gororobas (só que sem bacon) que ficou uma delícia, e antes carne louca.

De qualquer forma, fiquei pensando nessas lendas urbanas que nos formaram. A kombi que sequestra crianças, a loira do banheiro, primeiro tirar a Dilma pra depois tirar o resto. É muito pouco comum panelas de pressão explodirem. Não lembro de casos, relatos, reportagens sobre isso. Por que esse medo tão entremunhado na gente então?

Da minha parte eu sei que não fui criado para desenvolver autonomia, então me esforço para ir contra o que tentaram fazer de mim e fazer de mim o que eu quiser. É custoso e exaustivo. Não tem glória nenhuma aqui. Se quiser uma história de sucesso você está no blog errado.

Em todo caso não deixa de ser curioso notar como uma geração inteira, ou mais de uma, é refém do mesmo mito. A sensação que dá é que não fomos criados para lidar com o mundo, ou sequer com nós mesmos, no plano individual.

Fazia tempo que eu não comia ou fazia feijão. De qualquer forma, devo ficar mais um tempo sem feijão de novo. Mesmo deixando de molho e remolho, desta vez o feijão me deu muitos gases.


O restaurante Regina, no Arouche. Saudades do tempero desta comida



sábado, 13 de junho de 2020

Postei uma foto pelado no instagram

Postei uma foto pelado no instagram com um emoji de berinjela cobrindo o meu pau.

Foi a primeira foto do tipo que postei na internet. Sempre tive problemas com minha autoimagem. Quem me conhece para além das paragens das redes sociais sabe que tenho questões em relação a autoestima, que é baixa.

Há um tempo venho tentando parar com tantas piadas autodepreciativas sobre mim. É um exercício gigante de quebra de costume e acho que até consegui reduzir bem o número de piadinhas. Mas tirando os chistes, ainda sobra um olhar bem pouco generoso que tenho sobre mim.

É uma sensação não ligada a aparência física exatamente. É bem mais profundo do que isso. Interno. No sentido de ter que fazer um esforço grande pra tirar um chicote da mão do superego e deixar feridas arderem para que talvez assim possam cicatrizar.

Paralelamente eu sigo muitos artistas, ilustradores e desenhistas que tem no nu a expressão de sua arte e eu gosto muito desses trabalhos de nudez artística. Além de amigos e conhecidos que vivem sendo fotografados pelados.

Por meio de textos eu sempre acho que me exponho demais ao mesmo tempo que acho que tenho algum domínio (ou ilusão de domínio) sobre o que deixo explícito aqui e o que fica escondido ou nas entrelinhas. Além do que calo para evitar maiores dores de cabeça.

Sempre quis posar pelado para esses artistas que desenham nu. Tenho pensado em como me desnudar quando escrevo também. O Hugo Guimarães, por exemplo, tem uma literatura mais visceral do que as minhas aventuras literárias e vez ou outra publica fotos de si mesmo pelado.

Sem falar no Pornceptual, um site que amo muito, com muitas fotos de pelado artístico. Veja, eu não tenho uma pasta de memes no computador, mas tenho uma pastinha com algumas de melhores do pornceptual. Antigamente, numa era pré internet banda larga, era muito difícil esperar que a uma foto carregasse no computador.

Imbuído destes pensamentos, certo dia depois de sair do banho tirei uma foto minha pelado em frente ao espelho do guarda-roupa. Resolvi postar no instagram para ver no que ia dar. Pensei se um textão mal formulado como este acompanharia a publicação. Desisti da ideia. O tempo para pensar no que escrever somado do tempo da escrita em si certamente me fariam desobedecer ao impulso de dividir minha peladeza com o mundo digital.

Não sei tirar selfies. Me sinto patético e desconfortável. É bem difícil me achar bonito nelas. Minha linha editorial no aplicativo tem mais a ver com minha relação com a cidade. E no momento estamos sem poder desbravá-la.

A minha foto teve 55 likes e 11 comentários. Incluindo aí o da minha mãe, que depois fez um comentário no whatsapp: "vi sua foto pelado, kkkkkk". Um sucesso absoluto. Talvez vá para o bestnine de 2020 quando este ano enfim acabar. Minha média de likes fica em torno de 20, mais ou menos. Depende do dia, da foto, do algoritmo, do horário em que ela é publicada.

Antes de postar a foto eu tinha 543 seguidores. Depois de tê-la publicado, esta quantidade caiu para 538. No mesmo dia uma pessoa nova passou a me seguir. Tinha a sensação de que quase todos os comentários da foto eram de amigas mulheres, mas fui conferir e o número está até equilibrado em 6 mulheres (heterossexuais) e 5 homens (3 gays e 2 héteros).

Meu público sempre foi majoritariamente feminino. Homens não costumam ligar para a minha existência.

Pelo tom dos comentários a foto surpreendeu as pessoas. Diana achou ousada. Raíra pediu a versão sem censura. Recebi uma cantada mais abusada pedindo a foto sem a berinjela na DM, mas desconversei. Fiquei pensando nisso. Nessa nossa má relação social com o corpo humano nu.

Esses dias descobri a Falo Magazine, uma publicação justamente sobre nudez masculina. Achei incrível. Penso em criar algo para submeter à revista quando abrirem nova chamada. Quem sabe vocês não se surpreendam novamente com mais fotos minhas pelado por aí?


Além de postar a foto no instagram, pensei também em postá-la aqui, sem censura, para os visitantes ocasionais
Pensei também em postar aqui,
sem censura, para leitores e leitoras ocasionais


sexta-feira, 12 de junho de 2020

Pedras I

Sabe quando você conhece uma pessoa nova e vocês estão se apresentando? Aquele momento em que o outro cara fala sem parar, mas não porque fala demais, e sim porque gosta de falar (não conheço viado que não goste de falar) e você não quer interromper, porque não quer ser mal educado ou só quer ouvir e poderia fazer isso por horas até que.

Até que surge um pequeno e levemente pavoroso silêncio porque você se perdeu nos pensamentos enquanto ouvia o que ele tinha a dizer sobre ele mesmo. Você analisava o que ele estava dizendo e como estava dizendo e seu cérebro projetava a sinastria e você se encantava com o sorriso dele, o sotaque, a respiração, o corpo, as costas das mãos, a bunda, a mala, as pernas e as orelhas e aí.

E aí ele pede para você falar de você. Mas você tem pânico de falar de você, porque você nem sabe falar sobre você direito, isso não é algo que você faz com frequência, você acha esse tipo de situação sempre embaraçosa, você não está acostumado a isso, ninguém nunca pede que você fale de você (ainda bem) e aí surgem dúvidas do tipo como começar ou por onde?, qual versão seria a melhor?, qual delas causaria mais impacto?, a mais boa impressão? A falta de jeito e a falta de prática alimentam a insegurança que cresce, porque este é um momento importante, determinante até, de frio na barriga, de segurar ou perder a atenção do seu interlocutor porque.

Porque aqui você se depara diante de uma bifurcação em que você tem que performar muito bem e o sucesso fará toda a diferença entre a permanência e o sumiço, entre uma história de amor com final de novela ou a amargura da solidão eterna ao qual você está condenado como o Sísifo que sempre que chega com a pedra no topo da montanha vê com desgosto a pedra rolar montanha abaixo e não há nada que se possa fazer para quebrar esse ciclo a não ser subir com a pedra no dia seguinte porque uma condenação desse tipo é como um ciclo que não se consegue quebrar e então.

E então por causa de tudo isso você diz que não sabe muito bem o que falar, que ele pode perguntar o que quer saber, porque só o fato de você estar ali já quer dizer que você está entregue e que pode se entregar muito mais, mas ele não sabe disso, porque você não disse daí.

Daí que depois de alguns dias ele some.

quarta-feira, 10 de junho de 2020

Processo de transformação de um texto

Fui um dos 12.982 inscritos no edital de emergência do Itaú Cultural e seguindo um roteiro já velho conhecido meu, fui um dos 12.782 que não foram contemplados pela premiação.

Como eu sabia que não ganhar era uma possibilidade, comprei a ideia da Raíra de que se não fosse escolhido, teria pelo menos um post novo para este blog.

Pois vim aqui contar um pouquinho como foi o meu processo. Fiquei sabendo do edital no dia que ele foi lançado, mas deixei para me inscrever no último dia. Sem problemas. Eu estava ruminando o texto em segundo plano na cabeça, então quando sentei para escrever o texto simplesmente saiu.

Quer dizer, mais ou menos.

Confesso que eu não sabia muito bem sobre o que iria escrever, ou como, mas quando peguei meu caderno, uma caneta e sentei para escrever, o negócio fluiu. Até demais. Eu tenho um pouco isso. Esse gosto, hábito, mania, tesão de escrever à mão. Era uma prática mais comum em tempos pré-pandêmicos, durante intervalos, uma espera em mesa de bar, momentos entre compromissos, no Sesc, na rua, na praça de alimentação do shopping depois do almoço.

Então eu escrevi uma versão de um texto, que depois digitei. Considero o digitar uma espécie de reescrita onde geralmente reelaboro o que não ficou tão bom no papel. O resultado tomou a forma que reproduzo abaixo:


"Então, após uma sucessão infinita de infinitos hojes, voltar. Ou seria “seguir” a palavra mais adequada?

Repetir, depois que tinha parecido a própria eternidade, aquele trajeto de outrora.

Outrora. Gostava daquela palavra que remetia a outros tempos, tempos estes anteriores àquele em que o mundo tinha virado de cabeça para baixo.

Já há muito tempo que esperava aquela ligação. Ei, tu pode vir hoje? Tá livre? Tô. Ok. Pra entrar às duas, tá? Beleza. Obrigado de chamar.

E então lidar de novo com aquela euforia que vai do coração ao queixo, tomar um banho, preparar alguma coisinha para comer na pausa. Mandar uma mensagem no Whatsapp para as amigas, com quem compartilha detalhes da rotina, contando que foi chamado para um dia de frila, “hoje tem evento”, “graças a deus”, “tô cansado, mas precisando do dinheiro”.

E voltar aos preparativos. Colocar a camiseta e a calça jeans, mesmo com este calor, mesmo depois de todo o vírus, porque trabalhar de bermuda não pega muito bem.

Tomar o metrô e descobrir naquele percurso um novo sabor, o da retomada de coisas que mudam permanecendo as mesmas e das coisas que permanecem iguais mas que se transformaram de um jeito difícil de explicar, captar ou apreender muito bem como.

Durante o trajeto pensa o ar, como se este estivesse mais denso e era isso que tornava os cumprimentos tão desajeitados. Como se agora tivesse que aprender uma nova língua, comunicar os afetos de outro jeito, inventar uma nova gramática, reaprender o que fazer com as mãos, o quanto abrir os braços, qual a velocidade ideal de um aceno de mão de distante. Porque se for muito efusivo pode demonstrar muita afetação e o que os outros vão pensar? Uma alternativa melhor seria aquele toque de cotovelos que surgiu antes de todos os eventos serem suspensos e havia especialistas dizendo na televisão que o ideal eram as palmas das mãos coladas em posição de Namastê ou a leve reverência curvando o tronco para a frente como fazem no Japão.

Uma bobagem essas novas etiquetas quando o metrô continua cheio do mesmo jeito."

Pois bem. O edital pedia 800 caracteres, contando espaços, que é praticamente nada. A primeira versão tinha 2.035. Para um texto deixado para a última hora, era relativamente bastante.

Fiquei na dúvida entre jogar fora e fazer outro ou trabalhar nele mesmo. Optei pela segunda alternativa. Então começou a operação edição. Cortes. Como sintetizar o texto e as ideias e manter uma essência?

Como abrir mão de frases ou trechos que me agradavam bastante? Passar a tesoura, praticar o desapego e ainda assim tentar chegar a um resultado minimamente satisfatório?
 
Fui ouvir meus áudios de Whatsapp e ler os comentários durante este processo de enxugamento. É um corta daqui, corta dali. Entendi que estava diante de um exercício de concisão. Foi um desafio fazer. Fui derrubando parágrafos e eliminando artigos. O primeiro corte significativo cheguei a 1078 caracteres. Então cheguei a 974. Depois 907, 871. Nessa hora eu fiquei pirando. Até então achava que o mais difícil seria escrever.

Cheguei a 802 caracteres. Dois acima do que o concurso exigia. Ainda precisava fazer caber. 791. Parecia ok. Duas pequenas modificações que resultaram em 796 caracteres. Inclui então um “as” em “as palmas das mãos” e daí cheguei aos 799 caracteres que compartilho com vocês a seguir:

"Após infinitos hojes, voltar. Repetir, depois do que tinha parecido a eternidade, o trajeto de outrora.

Já há muito que esperava aquela ligação. Tu pode vir hoje? Posso. Pra entrar às duas, tá? Beleza. Então lidar de novo com aquela euforia boa de correr pra dar tempo. Tomar banho, cozinhar. Vestir a calça, mesmo com o calor, mesmo depois do vírus. Bermuda não pega bem.

Notar no caminho o ar mais denso e perceber como isso fazia os cumprimentos tão desajeitados. Era preciso outro jeito de se comunicar, descobrir o que fazer com as mãos, o quanto abrir os braços, a velocidade de um aceno. Alternativa seria o toque de cotovelos e dizem na TV que ideal eram as palmas das mãos coladas em posição de Namastê. Ou a reverência que fazem no Japão.

Etiquetas bestas. O metrô continua cheio como antes."


Ainda tive que fazer uma minibio onde eu dizia que sou de capricórnio com ascendente em áries e lua em aquário antes finalizar o envio.

Agora eu quero ler outros textos do concurso. Quer tenham sido contemplados, quer não.

terça-feira, 26 de maio de 2020

Do que não saber o que fazer com o tempo

Ontem. No domingo eu cheguei ao fim de uma parte muito importante do filme que foi terminar definitivamente o primeiro corte do documentário.

Eu já havia passado por uma etapa parecida, que vamos chamar aqui de pré-primeiro-corte. Quando fui assistir vi que havia muito som a ser corrigido e sequencias das quais eu senti um pouco de falta.

Então depois de assistir tudo eu voltei pra mais dias que viraram semanas em frente ao programa de edição.

Resolvi tirar hoje um day-off, como dizem. Não exatamente folga-folga, nem feriado, mas aquele bom e velho deixar um pouco o material descansar e retomar outro dia.

Preenchi minhas horas acordando mais tarde, mas não tão tarde. Lendo gostosamente o meu jornal como eu gosto de fazer. Depois fui exportar os arquivos do filme, pra poder transferi-los para a Raíra. Fico pensando como seria legal podermos assistirmos todas essas 15 horas juntos.

Li também meus livros diários. Estou amando o "Oblómov" e "Sapiens" e gostando de "Sangue Negro" da Noémia de Sousa. Desde sábado que eu não tinha conseguido ler "Torto Arado", então hoje foram três capítulos no lugar do único que tenho lido por dia. Daí fui escrever. Deve sair posts no Pilhas nesta semana. Fiz uma pausa para assistir "Will & Grace" na hora do almoço e vi um episódio de "Liga da Justiça" antes de fazer arroz e strogonoff para a janta.

Enquanto cozinhava assisti um episódio de "A Regra do Jogo", que acho que foi sim uma boa novela. Faltam mais ou menos uns 30 episódios ainda para terminar.

Foi esquisito a sensação de ter finalizado uma parte do filme e mais esquisita ainda essa sensação de não saber o que fazer com o tempo.

Usei um pouco do tempo livre para refletir sobre algumas questões pessoais para levar na terapia amanhã. "Levar". a terapia tem sido feita por Skype, no meu quarto mesmo desde que entramos em confinamento. Vi dois episódios de séries diferentes (a saber Família Soprano e Todxs Nós) e o filme "Atrás da Estante", uma gracinha, disponível na Netflix.

Vi também o curta do Caio Franco, o amigo ex-namorado da Jout Jout, e um chamado "Inhalation" que está disponível no Mubi. E este foi o meu dia.

Passei longe das redes de modo geral, mas incentivado por Diana e Lucas fui ver os tuítes do Leo Dias sobre a treta com a Anitta. E o povo achando que o vídeo de sexta da reunião ministerial iria por a República abaixo. Que nada.

E assim foi mais um dia na vida. Menos um dia de vida. Amanhã, começar a assistir ao primeiro corte. Além de outras atividades relacionadas com o filme e não relacionadas também

sexta-feira, 22 de maio de 2020

A Tese do Mestrado

É um negócio meu, assim, uma teoria, uma piada interna que eu tenho para comigo mesmo e que eu chamo carinhosamente de tese do mestrado.

Descobri que existia um negócio chamado vida acadêmica só depois de ingressar na universidade. E mais. Só fui percebendo como se dava isso de pós-graduação, especialização, mestrado, doutorado etecetera depois de participar cof cof como imprensa, de encontros universitários, mais especificamente o ENUDS (diversidade sexual), e lá travar contatos com pessoas que faziam ensino superior público, já que eu vinha de uma universidade particular menos conceituada e conhecida em termos de produção acadêmica e científica, digamos assim.

Foi como ficar sabendo de um outro universo possível, cheio de pessoas inteligentes, interessantes, interessadas, articuladas, muito além do nível de boçalidade e ignorância com o qual eu estava condenado a conviver até então na vida. E não estou me referindo aqui de maneira alguma às pessoas que dividiam o estudo universitário comigo. Faço menção a formas de mentalidades mais provincianas e prosaicas, coisas de priscas eras, lá da infância e de gente que veio depois ou já estava lá desde sempre, mas cujo pensamento parou.

Pois bem.

Dada a minha admiração por essas pessoas mestrandas e mestras e mestres e doutores e doutoras e pertencentes a este universo tão distante de mim e ao qual eu só conseguia acessar lendo uns textos muito cabeçudos e muito difíceis e às vezes até incompreensíveis, comecei assim a balizar a realidade.

Se uma pessoa praticasse um ato ou exprimisse um pensamento muito absurdo que estivesse além das minhas capacidades de assimilação, interpretação e absorção eu brincava comigo mesmo dizendo "ah, gente não é possível, ele está dizendo isso para o mestrado dele. É uma pesquisa sobre a incontrolabilidade das reações sociais no século 21". "Isso é para o mestrado dela, uma etnografia sobre os efeitos" e assim por diante.

Desta forma a minha tese ia explicando o mundo. O biroliro por exemplo é uma performance para o mestrado dele, onde ele se inscreve como sujeito e observador do experimento ao mesmo tempo. Pessoas queridas falando besteiras nas redes sociais, com certeza é para investigação do mestrado delas, porque só isso explica eu não conseguir entender o que se passa na cabeça desse povo.

É uma piada velha e interna que já perdeu a graça e a qual eu nem recorro mais dado os delírios todos que estamos vivendo. Infelizmente tenho que lidar com o fato de que minha tese não é a realidade.

Mas eu gostaria muito que fosse.

segunda-feira, 11 de maio de 2020

Como ganhar um edital

É uma questão que eu tô me perguntando desde que vi que um edital de emergência para a área da literatura foi lançado por uma importante instituição cultural.

Hoje foi o primeiro dia de inscrição, que vai até quarta e eu não escrevi uma linha de nada por causa do tema: a vida pós-pandemia.

Minha inércia tem uma boa razão de ser. Estou completamente tomado pelo pessimismo. Ou talvez eu seja bom nisso de arrumar desculpas para mim mesmo.

Tudo que eu consigo pensar sobre vida pós-pandemia é que por mais que iniciativas pontuais e bacanas de solidariedade tenham aparecido, tem muita gente escrota no mundo.

E o mundo, como sabemos, já passou por muitas crises e estamos onde estamos por tudo que fizemos antes, durante e principalmente depois delas. Não melhoramos depois da escravidão, do nazismo, da crise espanhola, da epidemia de hiv, do 11 de setembro ou da boate kiss.

Não há luz num horizonte próximo. Pelo menos nada assim que eu consiga mensurar. Não deixaremos de acreditar nas ficções que são o dinheiro e a economia e não conseguiremos inventar um novo modo de viver, simplesmente porque nem tentaremos.

Porque falta adesão à vontade de mudar o mundo. A gente nem acredita mais que isso é possível.

Porque agora, que é agora, a gente não liberou as faxineiras e as pessoas mais precarizadas não estão ficando em casa - às vezes nem casa têm para se ficar. Como é que se pensa um pós, um futuro, quando o presente é altamente incerto e desemprego, falta de propósito e desigualdade se acentuam?

Que tipo de ficção é possível de ser inventada num cenário como esse? Que tipo de ficção tem chances de ganhar um edital? Oras, você não é escritor, inventor, criativo? Pois, crie!

Neste momento, pensar em futuro me faz oscilar. Na vida, de modo geral, pensar em amanhã só me dá vontade de chorar na cama prostrado em posição fetal. Se, por um acaso eu conseguir até lá pensar em algo para o edital, será para chorar as pitangas de um mundo cada vez mais injusto e cada vez pior.

Uma epidemia que não serviu de nada para tirarmos algum tipo de lição, porque enquanto ela está acontecendo há marmanjos na rua da casa do Lucas empinando pipa.

Por outro lado, acho que pra ganhar um edital, talvez o segredo seja investir em uma narrativa mais edificante, mais bonitinha, mais conforme dizem especialistas das novas etiquetas que surgirão. Mais como foi a capa do Segundo Caderno d’O Globo de Sábado. E eu que já não suportava etiquetas terei que conviver com novas.

A imagem que me vem desse futuro pós-pandemia é a daqueles desenhos que ilustram o céu em folhetos das Testemunhas de Jeová, em que crianças multiétnicas brincam com leões e tigres num cenário de relva verde, lagos e árvores frutíferas.

Vou descrever uma dessas. Pintar em 800 caracteres essa paisagem idílica. Vai que assim eu sou contemplado.

sexta-feira, 8 de maio de 2020

No meio de tudo isso

Não ando lendo mais o horóscopo mensal para não criar expectativas com as boas quadraturas entre os planetas ou os aspectos tensos entre os astros celestes.


Não estou acompanhando com tanta regularidade os horóscopos diários também. A rotina virou água que corre pelas mãos. Cada dia é uma surpresa em relação a com quais sentimentos terei que lidar hoje.


Fica difícil processar o que se passa internamente quando parece que o chão desaparece, a normalidade de antes virou pó e o mundo físico que nos cerca é como se derretesse.


Do mundo espiritual eu queria uns sinais, sentir umas conexões, mas meus canais devem ser todos bloqueados.


No meio de tudo isso ainda tentar dar conta de alguma produtividade, eficiência, seguir com o projeto do filme. Abraçar outras ideias, anotar em cadernos ou blocos de notas boas sacadas para depois, textos, contos, observações que só devem ganhar corpo dias que chegarão sabe-se lá quando, se é que chegarão.


Esses dias tava escovando os dentes e tive um lampejo de uma ideia para o que seria o meu projeto de mestrado. Não anotei uma linha mais a sério sobre isso. E sim, o mundo de ponta cabeças, o futuro cada vez mais sinônimo de incerteza e a bonita sonhando, que é o que resta.


Junho tá aí, sendo que maio mal começou. Mais uma semana se foi.  

quinta-feira, 30 de abril de 2020

Tudo que a gente tem é o hoje

E o que eu quero dizer com isso é que há duas semanas eu fui para a cozinha, responsável por proporcionar o alimento feito para a casa.

O problema é que era quinta. E vai chegando o final de semana e vai dando aquela vontade de comer uma coisa gostosa.

Eu fiz um macarrão ao molho de cebola. Receita da Rita Lobo. Na verdade, uma variação do tal macarrão. Já que eu não tinha o vinho e substituí pelo suco de limão como ela mesma tinha falado. Também não tinha tomilho aqui. Nunca usei tomilho para cozinhar. Não sei nem que cor que tem. Mas adoro esse nome. Parece uma piadinha, ou uma poesia, daquelas bem singelas e bonitinhas.

Tá, marindo?, perguntou a a uva para a outra. Não, tô milho!, respondeu a outra para a uva.

Mas eu dizia que fiz uma panela gigante de macarrão. Também a receita mandava usar uma xícara. E isso chega a ser uma piada. Mas a intenção da Rita era que o macarrão substituísse um miojo safado. Eu mudei todas as quantidades da receita da Rita. E dizia também eu que era quinta. E na sexta comemos comida gostosa.

E no sábado meu irmão foi fazer a quarentena em outro lugar, por motivos de força maior que não cabem aqui explanar.

Pois que fiquei eu em casa sozinho, senhor da quarentena, dono absoluto desses 50 metros quadrados. Eu, de cueca pela casa, a panela gigante do macarrão ruim. E ainda tinha arroz e feijão.

E aí era isso. Ou eu encarava aquela gororoba ou a comida iria para o lixo e eu detesto conviver com a ideia de desperdiçar comida. Também detesto pagar caro por comida ruim ou pouca comida, mas isso não vem ao caso agora. É só uma coisinha sobre mim

Fato é que, além das preocupações habituais da vida somadas às incertezas de futuro, insônias financeiras, incertezas profissionais, eu ainda tive que comer aquele macarrão triste.

E terminar aquela panela gigante foi uma questão que me absorveu até que ele enfim acabasse. Dei a última garfada nele na terça seguinte antes que ficasse mais intragável do que já estava.

E para não jogar também o arroz e o feijão fora fiz foi bolinhos com eles. Os de feijão eu não fritei. Sabe-se lá a razão. Só taquei meio pacote de farinha de mandioca na panela e oi bolinhos. Os de arroz foram fritos. A primeira vez que faço bolinho de arroz na vida. Faltou sal, um tempero mais ousado, marcante, talvez um Sazon, cheio de sódio, mas deu para comer, que é o que importa.

E toda essa história para dizer que tudo o que a gente tem é o hoje. Porque quando aquela quinta-feira, 16 de abril, era um hoje, a minha preocupação primeira era o cozinhar. Quando aquela quinta feira virou um ontem na sexta-feira seguinte a minha preocupação era resolver o conflito entre comer o macarrão e uma coisa mais gostosa e a coisa gostosa ganhou. Então lidar com o excesso de comida foi o dilema dos hojes que se seguiram posteriormente ao hoje original.

Todos aqueles hoje já viraram duas semanas atrás e nem registrados no tempo ficarão, ou ficarão, já que agora temos um registro daqueles tempos que poderiam ter sido sem que viessem a ser expostos publicamente aqui.

O negócio é que as preocupações de hoje (daquele hoje) nem serão preocupações daqui a duas semanas, apenas lembranças, memórias até dignas de esquecimento. E a questão aqui é que o hoje é tudo o que a gente tem, porque já já hoje acaba e amanhã vira o novo hoje.

Eu preciso cozinhar de novo. Talvez faça macarrão.

terça-feira, 28 de abril de 2020

terça-feira, 14 de abril de 2020

Perca a libido agora pergunte-me como

Estou com fastio de sexo. Entediado. Com preguiça. Com o tesão abaixo do nível do pré-sal.

Faz tempo que tenho pensado muito sobre isso.

Meu tesão constante, minha vontade de chupar rola que não passa nunca e o lugar que o sexo, o amor e os relacionamentos ocupam em minha vida.

Mas esses tempos eu ando achando tudo muito chato. A forma como a gente transa. A forma como a gente se relaciona.

Ensaiei ou pensei em escrever uma peça teatral sobre isso. Sobre essa inquietação que fica rodeando a minha orelha. Mas seria tão chata mas tão chata que não abri sequer o Word para começar a digitar. E também falar o quê?, para quem?, sobre o que?, e como exatamente?

Tudo aquilo sobre o que eu gostaria de discorrer não parece se encaixar em nenhuma forma. Ou pelo menos nas formas que tenho buscado.

Pode ser também essa autoconfiança na certeza de que eu penso sobre todas as variáveis de um problema, reproblematizando tudo por outro lado, só que sempre há algo que escapa. E o que vem é o senso comum como resposta. A simplificação das mais ignorantes.

Se não tenho tanto prazer em ser penetrado ou penetrar e gostaria de pensar o sexo para além da penetração é como se houvesse algo de errado comigo. Eu que preciso me resolver. Não o mundo que funciona de um jeito muito certo, não é mesmo? Eu que lute.

Quase como quando alguém olha um quadro em uma exposição e diz que uma criança poderia ter feito aquilo. Que o quadro na parede não é arte.

Ou na cena do Parasita em que o boy fala que a criança é muito talentosa por ter pintado um Chimpanzé e a mãe informa que aquilo é um autorretrato.

Para quem não tem o hábito de desenhar ou se expressar por essa via artística, como eu, a escrita é uma forma de se retratar. E como eu estou o tempo todo pensando sobre escrita e sobre sexo, não consigo escapar de escrever sobre mim.

E nestes tempos tem aparecido essa impotência sexual. E não nestes tempos quarentenados. A crise é anterior à crise.

Uma escassez de sonhos eróticos. Uma falta de imaginação para se masturbar. O condicionamento de estar sempre com gadgets na hora do onanismo. Meu lance são contos eróticos, mas também não dispenso vídeos, de preferência amadores.

Da última vez que eu transei eu brochei e não gozei. Mas também não era porque meu pau não estava duro que eu não estava gostando do sexo em si. Outrora muitos caras ficaram espantados porque minha ereção demorava a abaixar depois da ejaculação.

O boy com quem transei da última vez (já faz 84 anos) me perguntou quantas vezes eu tinha me masturbado pensando nele desde que tínhamos nos vistos. E ficou um clima embaraçoso, porque a resposta era nenhuma. Mas também faz tempo que eu não me masturbo pensando em alguém em especial e quando eu digo que faz tempo, faz muito tempo mesmo. Tipo bota uns 15 anos aí. Uma sexualidade quase toda que condicionada, acostumada, habituada. Uma vida sexual sedentária, preguiçosa, modorrenta. Ele tinha se masturbado duas vezes só naquele dia antes de nos encontrarmos. Obviamente me deu curiosidade de saber se eu havia sido homenageado alguma vez, mas fiquei sem jeito de perguntar. Fazia uma semana quase que eu nem tinha gozado. E óbvio que ele achou aquilo esquisito.

Em todo o caso, a inquietação vem da forma como o sexo de uma forma geral na sociedade contemporânea vem sendo feito, reproduzido, ensinado, encenado, discutido, debatido, visto, consumido e narrado.

Mas vai ver é só comigo.

quarta-feira, 8 de abril de 2020

Do equilíbrio necessário

Se ontem a queixa era a dificuldade em retomar, hoje a constatação gira em torno da necessidade de equilibrar as demandas.

Não que manter hábitos e rotina não seja uma batalha da vida em si. Mas nestes tempos pandêmicos tenho sentido necessidade de olhar para isso com mais carinho, digamos assim.

É que hoje, por exemplo, eu fui ao mercado. Também cozinhei. E participei de duas reuniões distintas de video-chamada. Além da terapia, que tem sido via Skype desde que começamos o isolamento social.

Salvo poucos tuítes, me sobrou pouco tempo para desperdiçar acompanhando o fluxo das redes sociais ao longo do dia.

Em dias que os compromissos são mais meus comigo mesmo é muito mais fácil perder essa linha. 

E fazer tantas coisas “offline” me fez visualizar a importância de encontrar momentos de esquecer que existe celular e redes sociais.

Equilíbrio é algo que busco há tempos e tempos nessa vida. Acho que minha relação com a ansiedade, por exemplo, melhorou muito nos últimos tempos. Não sem levar em consideração um trabalho de acompanhamento psicanalítico aí.

De qualquer forma não deixa de ser irônico observar que mais difícil do que equilibrar-se é manter-se equilibrado.

segunda-feira, 6 de abril de 2020

Retomada

Hoje foi uma segunda daquelas.

Daquelas em que é preciso juntar um pouco mais de forças para sair da cama, encarar a realidade e começar a fazer o que é preciso.

E ainda assim eu adiei algumas das coisas que estavam listadas para hoje. Foram transferidas para amanhã.

O preço disso foi não ter comido direito ao longo do dia e uma janta bem tapa buraco agora que incluiu até um copo de Nescau, pra disfarçar um pouquinho da fome.

É que por conta de toda essa crise que tá rolando - confinamento, quarentena, coronavirus - achei que uma semana de pausa no processo do filme viria bem a calhar.

Só eu não esperava mesmo mais uma vez ser vítima do meu autoengano. Porque planejei pencas de coisas para fazer no tempo sem o filme, mas não fiz nem metade delas.

Não pensei no que tinha que pensar. Não vi os filmes e séries que eu planejei ver.

Ao menos eu li. Se tem uma instituição na minha vida que tem funcionado em 2020 é a minha organização de leitura. Uma das “metas” deste ano era justamente ler mais em casa. Jamais pensei que seria uma pandemia a facilitadora deste processo. Mals aí mundão. Não era bem isso que eu tinha em mente.

Falta tomar vergonha na cara e colocar escrita nessa rotina.

Mas também falta tomar vergonha na cara para muita coisa adormecida, em paralelo ou stand by,

Em todo caso não vim aqui para ficar me culpando. É mais para me ocupar de uma coisa que eu gosto, me dar um pouco de prazer. Ademais, pode não ser a mão, mas só o fato de estar vindo aqui digitar essas mal traçadas já é escrever.

Ainda que o resultado não fique a contento.

Quase nunca fica. Ou pelo menos quase nunca tenho achado que fica.

A sensação é a de que eu estou desperdiçando bons títulos. 

E que ando com preguiça de parágrafos ou textos mais cumpridos. Jogando pelo ralo meu sonho de ser colunista de jornal com toda essa falta de elaboração e profundidade. Se bem que né. Deixa pra lá. Misericórdia às vezes.

No mais, só pensei aqui. E nem queria dizer que isso se reflete numa escala global, é que hoje foi uma segunda daquelas em que retomar é mais difícil que parar. Quase sempre é assim. Ou ansiamos tanto pela sexta-feira por quê? Quer dizer, eu não. Vocês aí que amam sextas.

Que tenhamos forças para continuar.



domingo, 5 de abril de 2020

Ao vivaço

Devo ser a única pessoa na face da Terra que não está vendo lives no instagram.

Não que eu seja o alecrim dourado que nasceu no campo sem ser semeado. São sete bilhões de pessoas no mundo afinal de contas. Muitas também devem estar com questões mais prementes que as minhas.

Minha questão com as lives está longe de ser fruto de um posicionamento. Não é advinda da leitura de algum artigo sobre tristeza, confinamento e angustia das redes sociais em época de pandemia.

Veja. Eu até tentei ver o que o Mahmoud estava falando ontem ao vivo para seus seguidores ontem à noite, para ver se vinha alguma dica de como fazer um sexo mais prazeroso depois que tudo isso passar. Vai que né?!.

Mas foi tudo muito rapidamente.

Não é que eu não consigo me concentrar ou algo assim. Na verdade talvez até seja.

Meu problema com as lives é que para mim elas travam, muito. Nem os stories performam bem no meu iPhone (ryca, pryvylegyadah) 4s velho de guerra.

As pessoas transmitem seus conhecimentos, seus shows, e até suas baboseiras e para mim tudo chega muito fra g men ta do pi co ta do tra va do len to.

Daí eu perco o fluxo, a paciência. Dá vontade de mandar tudo às favas. Daí o instagram trava e fecha.

E é como se tivesse ficando de fora das melhores festas, sendo expulso do clube, ou perdendo algo muito importante, mesmo sabendo que no fundo, no fundo, não estou perdendo muita coisa.

terça-feira, 31 de março de 2020

De como eu gostaria de que o mundo fosse depois da crise toda

Viu, como não era tão importante aquilo tudo que você achava tão imprescindível? No final das contas tudo aquilo pelo qual você se orgulhava ruiu, não é mesmo?

E as suas dozes horas de trabalho que praticamente serviam de alento para que você preenchesse disfarçasse suas angústias era tudo uma mentira que você contava para si mesma.

Nem você consegue parar uma pandemia.

Então você descobre que não é tão incrível assim. E que não tem superpoderes. Sua vida é só mais ou menos e essa é a maior libertação possível a que se pode chegar.

Sabe, eu estava há tempos pensando que eu não lembro mais quando foi a última vez que eu ouvi um CD inteiro.

Porque esses dias eu acordei com vontade de ouvir umas músicas. E hoje me bateu um estalo de ouvir R.E.M e eu nem sabia que eles têm um Acústico MTV. Unplugged, no caso, que chama.

Mas é. E a versão de “One I Love” é bem bonita. Isso porque nem está na integra no Youtube e o Spotify só deve ter na versão americana o CD inteiro. E esta é vai para aquele que amo, esta vai para aquele que eu abandonei. Meo deos. Como essa música é bonita. Uma música para alguém que você já amou.

Daí lembro de “Best of You”, do Foo Fighters, que gosto mais na versão do Stereophonics.

Também deu vontade de ouvir a versão acústica de “State of Love and Trust”, além das versões de Pearl Jam para The Doors. E por falar em Pearl Jam tem o clipe de “Do The Evolution”, que é quase um curta de animação e eu fico pensando que sempre que eu conseguia ver esse clipe muito raramente na televisão era um fenômeno e como todas aquelas imagens dialogavam muito com o espírito do tempo no qual estavam inseridas, as guerras dos anos 90, a tecnologia se aprimorando, ficando acessível e criando novas maneiras de ser e estar no mundo o cenário não era de todo promissor, como não vem sendo, como podemos comprovar por nossas próprias experiências.

E tinha outro clipe em estilo curta de animação que era bonitinho que era o “One More Time”, do Daft Punk, das pessoas azuis e que loucura porque eu nem sei mais porque eu tô escrevendo sobre isso, mas olha que só hoje eu descobri que o clipe tem uma continuação, ou mais de uma. Talvez uma hora eu veja.

Inclusive essas animações me lembram de Animatrix que eu nunca vi e preciso. Talvez eu veja hoje ainda. E ainda há tanto para fazer. Aumentei meio deliberadamente minha lista de leitura e a pilha de filmes para assistir só cresce. Além das coisas que começam a sufocar o peito e precisam ganhar forma, ocupar papel e posts na internet.

E também acordei na sexta com vontade de ouvir Madonna. “Fever” eu já tinha ouvido outro dia, mas desta vez deu vontade de ouvir “Deeper and Deeper” e “Like a Prayer”.

Porque uma coisa puxa a outra que puxa a outra e assim sucessivamente. E me lembrei que em três de abril, daqui a três dias, será lançado o remake de Resident Evil 3 para PlayStation 4 e nossa, que vontade de ter 250 reais para gastar num jogo de videogame, mas não. Nem o dois que estava em promoção por quase 100 dá para comprar. É muito caro tudo isso num jogo.

E eu cresci jogando Resident Evil, uma série de jogos no qual um vírus produzido por uma indústria farmacêutica do mal destrói uma cidade e a economia colapsa e deve-se enfrentar mortos vivos e outras armas biológicas para sobreviver.

Mas eu me pego a pensar que olha que legal que vai ser daqui uns anos, quando eu tiver condições e tempos de jogar e conseguir o game por um preço decente eu vou falar nossa, lembra que o lançamento desse jogo foi em 2020, durante a pandemia do Covid-19? Que loucura, né?

Faz tanto tempo que nem parece.