terça-feira, 31 de março de 2020

De como eu gostaria de que o mundo fosse depois da crise toda

Viu, como não era tão importante aquilo tudo que você achava tão imprescindível? No final das contas tudo aquilo pelo qual você se orgulhava ruiu, não é mesmo?

E as suas dozes horas de trabalho que praticamente serviam de alento para que você preenchesse disfarçasse suas angústias era tudo uma mentira que você contava para si mesma.

Nem você consegue parar uma pandemia.

Então você descobre que não é tão incrível assim. E que não tem superpoderes. Sua vida é só mais ou menos e essa é a maior libertação possível a que se pode chegar.

Sabe, eu estava há tempos pensando que eu não lembro mais quando foi a última vez que eu ouvi um CD inteiro.

Porque esses dias eu acordei com vontade de ouvir umas músicas. E hoje me bateu um estalo de ouvir R.E.M e eu nem sabia que eles têm um Acústico MTV. Unplugged, no caso, que chama.

Mas é. E a versão de “One I Love” é bem bonita. Isso porque nem está na integra no Youtube e o Spotify só deve ter na versão americana o CD inteiro. E esta é vai para aquele que amo, esta vai para aquele que eu abandonei. Meo deos. Como essa música é bonita. Uma música para alguém que você já amou.

Daí lembro de “Best of You”, do Foo Fighters, que gosto mais na versão do Stereophonics.

Também deu vontade de ouvir a versão acústica de “State of Love and Trust”, além das versões de Pearl Jam para The Doors. E por falar em Pearl Jam tem o clipe de “Do The Evolution”, que é quase um curta de animação e eu fico pensando que sempre que eu conseguia ver esse clipe muito raramente na televisão era um fenômeno e como todas aquelas imagens dialogavam muito com o espírito do tempo no qual estavam inseridas, as guerras dos anos 90, a tecnologia se aprimorando, ficando acessível e criando novas maneiras de ser e estar no mundo o cenário não era de todo promissor, como não vem sendo, como podemos comprovar por nossas próprias experiências.

E tinha outro clipe em estilo curta de animação que era bonitinho que era o “One More Time”, do Daft Punk, das pessoas azuis e que loucura porque eu nem sei mais porque eu tô escrevendo sobre isso, mas olha que só hoje eu descobri que o clipe tem uma continuação, ou mais de uma. Talvez uma hora eu veja.

Inclusive essas animações me lembram de Animatrix que eu nunca vi e preciso. Talvez eu veja hoje ainda. E ainda há tanto para fazer. Aumentei meio deliberadamente minha lista de leitura e a pilha de filmes para assistir só cresce. Além das coisas que começam a sufocar o peito e precisam ganhar forma, ocupar papel e posts na internet.

E também acordei na sexta com vontade de ouvir Madonna. “Fever” eu já tinha ouvido outro dia, mas desta vez deu vontade de ouvir “Deeper and Deeper” e “Like a Prayer”.

Porque uma coisa puxa a outra que puxa a outra e assim sucessivamente. E me lembrei que em três de abril, daqui a três dias, será lançado o remake de Resident Evil 3 para PlayStation 4 e nossa, que vontade de ter 250 reais para gastar num jogo de videogame, mas não. Nem o dois que estava em promoção por quase 100 dá para comprar. É muito caro tudo isso num jogo.

E eu cresci jogando Resident Evil, uma série de jogos no qual um vírus produzido por uma indústria farmacêutica do mal destrói uma cidade e a economia colapsa e deve-se enfrentar mortos vivos e outras armas biológicas para sobreviver.

Mas eu me pego a pensar que olha que legal que vai ser daqui uns anos, quando eu tiver condições e tempos de jogar e conseguir o game por um preço decente eu vou falar nossa, lembra que o lançamento desse jogo foi em 2020, durante a pandemia do Covid-19? Que loucura, né?

Faz tanto tempo que nem parece.

sexta-feira, 27 de março de 2020

Insônia

Acho que é geral, né?

Por volta das 04h da manhã eu pensei em colocar Cabra Marcado para Morrer.

Faz tempo que eu tô para assistir este filme. E uma vez tentei ver ele em casa e acabei dormindo.

Eu sei. É Eduardo Coutinho. Uma das maiores referências em documentário no Brasil,  mas eu dormi. Devia estar cansado. Quem não está cansado? Tentando dar o seu melhor a todo momento. A toda hora.

É exaustivo, mesmo. Se até o William Bonner e a Renata Vasconcellos estão cansados do alto de seus salários imagina a gente sem salário e confinados.

Mas a real é que não sei muito bem porque não dormi.

Talvez o cochilo do fim- de-tarde-começo-da-noite.

Talvez a falta de reciprocidade em todos os níveis.

Talvez umas investigações aí que preciso fazer no campo interno.

Mas talvez seja o coronavirus, a subnotificação.

A sensação de privação de liberdade.

Optei por esses jogos que já roubam tempo, energia, potencial criativo. Fui de Farm Heroes. Nem sei como ou quando exatamente acabei pegando no sono. Só sei que quando vi acordei, o que significa que eu de algum jeito consegui dormir.



domingo, 22 de março de 2020

O cochilo do domingo a tarde

O título deste post seria “digressões impossíveis” e seria sobre a impossibilidade de digredir, diante deste cenário de pandemia em que nos encontramos.

Não só a pandemia, como o isolamento social, também chamado de quarentena.


Por aqui a vida não mudou muito. Só intensificou algo que já vinha acontecendo. 


Sem emprego, com um filme para editar e com os frilas escasseando um certo confinamento já estava nos planos. A diferença é que agora o resto do mundo experimenta um pouco do que é a minha rotina.


Se bem que esse tempo todo e eu continuo lutando para estabelecer uma rotina. Porque nem todo dia eu consigo obedecer com precisão uns horários. 


O engraçado é que uma das coisas que faziam com que eu pudesse me organizar melhor em relação a afazeres era justamente as saídinhas.


Nos últimos dias, entre o pós-carnaval e a pré-pandemia eram três dias de saída contra quatro em casa. Às terças ia para psicóloga. Às sextas, aulas de alemão e aos domingos a biblioteca da Casa1, onde sou voluntário.


Agora nem isso. A análise já foi por Skype essa semana. A partir do mês que vem o alemão também será enquanto o mundo atravessar esse caos.


Então pensei que há várias coisas a se compartilhar sobre a rotina de ~trabalhar de casa~. Como já disse, minha rotina e produtividade variam muito, mas há umas pequenas coisas que eu acho que ajuda como arrumar a cama e tirar o pijama. 


Pronto. É isso. Está dada a minha contribuição ao mundo. 


E essa seria uma das digressões possíveis, que viria a ser o novo título desse post, que seria um texto-tentativa-de-compromisso de tentar cumprir um desafio de escrever aqui todos os dias, pensando a escrita como cuidado de si.


Mas nesses tempos eu tenho fugido de fazer registros no meu diário para não ter que lidar com coisas internas, e a partir do momento em que botá-las no papel será exatamente isto que estarei fazendo.


Então, enrolo. Mas só até daqui a pouco.


E fiz faxina. Na verdade tirei o pó dos livros.


E nem na sexta fiz nenhum cortezinho no filme. Ok. Eu tô dentro de um cronograma e não haverá saída ao longo da semana. A não ser pelo mercado, para um abastecimento de frutas, pão e ainda preciso fazer uma listinha do que precisa.


Chupei mais laranjas esses dias.


Pude me dar um tempo para lidar com o baque de tanta notícia ruim. E agora é vida que segue.


Tenho há um tempo acordado cedo e ido dormir cedo também. E nesta tarde de domingo bateu um sono, daqueles que sempre dá depois do almoço e eu tentei cochilar, mas só dormi por meia hora.


A escrita, como uma das coisas que eu estava postergando me chamou. Então eu vim pra cá, pra começar, pra aquecer. Pra ver se outros textos além desses saem e eu não aproveito um pouco mais esse tempo livre “extra” para abastecer o blog, os blogs, o diário, a vida.

quarta-feira, 11 de março de 2020

Mais um pouco sobre laranjas

Este não é um texto bom. Já aviso logo que é para pular se quiser e não precisa de maneira nenhuma se forçar a encarar as próximas linhas.

Nem tem muito o que dizer, na verdade.

Só remoer.

Aqui eu lambo minhas feridas.

Neste parágrafo aqui eu sonho em ver você ele pelado de novo olhando pela janela do seu quarto-prisão dele ou olhando para as roupas do meu guarda-roupa para pegar uma camiseta limpa depois do banho e da chuva e eu fico admirando sua bela bunda dele e só de lembrar dá vontade de chupar seu o cu dele e beijar a sua boca dele.

Aqui a gente faz um minuto de silêncio em homenagem à tudo aquilo que não dá pra ser.

E aqui, neste parágrafo, eu conto que tô tentando me levantar, mas que pareço aqueles insetos que estão de costas e não conseguem se mexer ou virar o peso do próprio corpo e ficam em atitude desesperada sacudindo as próprias patinhas para cima e para os lados até que eles morrem de exaustão e sede e fome.

Por fim, neste texto que não está bom eu venho contar que de todas as coisas que mais me impressionou desde que nos conhecemos (eu e ele), nos pegamos (idem) e você ele desapareceu, foi que você ele me deixou com vontade de chupar laranja.

Tinha um ano que eu não chupava uma laranja. Assim, quase que contadinho. Até que sábado eu chupei uma laranja para ver se de alguma forma eu me conectava com você ele.

terça-feira, 10 de março de 2020

Por que não posso eu?

Por que não posso eu

As coisas na ordem que quero escrever?

Usar as palavras de jeitos outros

E ainda assim me fazer entender

Ligar um guarda-chuva

Ou um palito de fósforo

Querer um pedaço do seu suco

Ou um gole do seu bolo

Por demais normatizadora a língua pode ser

De normal basta vocês

sábado, 7 de março de 2020

Sobre uns livros, filmes e uma vida aí

Estou lendo os contos de Kafka presentes na edição de "Blumfeld, um Solteirão de Mais Idade", que a Record lançou em 2018.


Não estou gostando do livro de modo geral, nem dos contos em particular. Hoje mesmo, acabo de ler “Investigações de um cão” e sabe quando você não apreende nada?


Li como se não tivesse lido. Se tivesse uma prova para fazer sobre o livro ou sobre a história eu ia ter que me virar na força do truque para evitar me sair tão mal.


Os contos não me provocam nada, não me emocionam de jeito nenhum e ainda fazem com que eu fique pensando nas coisas que eu tenho que fazer - tomar banho, estudar alemão, procurar emprego, cozinhar, terminar de editar o filme, escrever, ler outras coisas, assistir a filmes, ir ao mercado, comprar pasta de dentes, pagar dívidas e boletos, etc etc etc.


E o pior é que lembro de ter gostado muito de ler “A Metamorfose”, que espero num futuro breve, reler.


Por outro lado, tenho lido "Delírio do Poder”, da Marcia Tiburi, e estou encantado com cada um dos textos. Um livro cheio de reflexões sobre o processo de candidatura dela ao governo do Rio de Janeiro em 2018.


Subi o livro na pilha de leitura por entender sua urgência e para tê-lo como espécie de material de aporte teórico de provocações que me acompanhariam na edição do filme sobre a candidatura da Renata.


E é curioso como cada um dos textos ecoa ainda aqui dentro depois da leitura, levando a uma série de outras impressões e reflexões, além da ampliação de noções sobre política. Um livro muito bom para fundamentar discussões depois que o pesadelo de governo Bolsonaro passar, se é que vai passar e se é que não mergulharemos em trevas ainda mais densas.


Por falar em Bolsonaro, eu tenho visto a série cinematográfica “Sexta-Feira, 13” e é impressionante como tudo que temos vivido politicamente no Brasil se assemelha muito ao arco narrativo de um filme de terror dos anos 80. Talvez eu me detenha sobre isso em outro texto no futuro breve, a depender de como conseguirei manter uma rotina de administração temporal em uma semana com Mit-SP e Faroffa, além de outros compromissos.


Por fim, mas não menos importante, tenho lido também "Palestina - Uma Nação Ocupada”, do Joe Sacco. Um livro-reportagem em quadrinhos sobre o período em que o jornalista e quadrinista norte-americano passou na Palestina lá no começo dos anos 90.


Estou quase terminando a HQ, mas digo que não foi uma leitura fácil. Não só porque ela tem muito texto, mas porque o tema não é dos mais palatáveis. Conflitos, guerra, crueldade. Um dos episódios retratados que mais me doem de ter lido foi o de forças de segurança (sempre elas) fazendo árabes cortarem seus pés de oliveiras. 


O relato da violência somado com as imagem das árvores estéreis faz com que eu fique até sem mais palavras para descrever como me sinto.


E tem também os relatos de prisões, que num certo sentido me lembraram muito o trecho da biografia do Reinaldo Arenas em que ele fala sobre seu período no cárcere.


Então, lá para as tantas no meio do quadrinho, Joe Sacco conta que é quase incomum que alguns dos homens com quem ele fala, conversa, entrevista, interage ou troca, não tenham sido presos. Um dos personagens apresenta a ele sua filha, Ansar, que foi batizada com o mesmo nome de um dos presídios da região.


Tenho pensado muito sobre a dobradinha prisão e liberdade nestes últimos dias, por conta disso. No quão duro é viver sob um regime de excessão, no quanto a desumanização é parte fundamental para que aconteça com facilidade a eliminação ou o aprisionamento do outro.


E eis que me deparo que a liberdade do contexto capitalista-neoliberal no qual nos encontramos não tem me parecido tão liberdade assim. Que além de precisarmos batalhar e construir uma liberdade comum ainda devemos tomar cuidado para não virarmos reféns de prisões de nossas mentes.


Tenho me sentido preso dentro de mim. Como se estivesse vivendo sem ter vivido.


No mais, comecei a ler “O Vendido”, do Paul Beatty, que foi um dos primeiros livros lançados pela Todavia, quando a editora nasceu. Confesso que li com dificuldade as primeiras vinte páginas, mas acho que foi o sono que eu nem sabia que eu tava. O final do prólogo me pegou pelo peito e então entrei de verdade no livro e todas as crueldades às quais o protagonista “Eu” vem sendo submetido pelo pai começaram a me deixar instigado para ver onde tudo isso vai dar.


Por enquanto é isso.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

Quintou

Mas não qualquer quintou. Um quintou de Carnaval, de ansiedade e expectativa.

Um quintou assim de já deu o que tinha que dar. De agora não adianta mais. O que não deu pra fazer até agora não será feito até a semana que vem.

É assim que é. Não se iludam. Não marquem bobeira. Evitem o autoengano. 

O dia de hoje é o de começar a jogar tudo pro alto. De começar a dar aquela pausa. Fazer tudo de modo mais arrastado, mais demorado, mais devagar.

Até a hora hoje vai passar mais lentamente. Você vai até se adiantar aos compromissos. Cair da cama mais cedo. Chegar cedo na firma.

Mesmo a chuva já ameaça cair desde as primeiras horas do dia para só desabar sobre nós no fim da tarde e atrapalhar a nossa volta pra casa.

Daí a realidade supera a ficção e a ameaça assume uma forma concreta e molhada de gotas de água caindo do céu.

Quintou de Carnaval mas não de qualquer Carnaval.

É Carnaval 2020, dos acirramentos, da vida pior, o Carnaval em que não dá pra voltar a estudar ou fazer uma pós porque mal existem bolsas para pesquisa, ainda mais em humanidades.

O Carnaval em que a minha tia fica feliz porque o importante era tirar o PT e o meu futuro vai até logo ali quando termina o raspo do tacho dos caramingué da minha poupança.

O Carnaval em que o primo faz post homofóbico no Facebook.

Então vamos viver os próximos três meses como se fossem o último, porque talvez serão.

O Carnaval da aridez dos afetos e dos sentimentos, o Carnaval dos tempos em que o amor não visceja.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

Barba de molho

A história de como fiz a barba é mais ou menos assim:

Surtei e fiz a barba.

Mentira.

Já há algum tempo eu queria tirar a barba mas tava faltando coragem de ver o rosto sem pelos.

Uma vez um boy falou que eu ia ficar com cara de puta sem a barba pois era sem a barba que eu ia para os lugares de pegação. E ele não queria olhar para minha cara e ficar "pensando no meu passado".

Risos.

Não sei o que é a cara de puta.

Achei que fiquei parecendo o Smeagle do Senhor dos Aneis.

Deu uma abaladinha na autoestima ficar sem barba. Apesar dos elogios que recebi só consegui me achar esquisito. Ainda bem que pelo cresce.

O que aconteceu foi que o pente da minha maquinha de barbear quebrou e eu não fui atras de outro.

Fui fazer a barba sem o pente e veja no que deu. Achei que ficou muito estranho. Daí por que não aproveitar que tá bem curto pra tirar e ver como fica?

Não reconheci meu rosto sem barba. Fazia tempo que não me olhava no espelho assim.

Fico melhor de barba. Ao menos mais pegável.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

Para fins de registro

É que achei no mínimo curioso que no mês em que mais escrevi até agora foi o que menos publiquei por aqui.

Estive em três cursos-oficinas nas últimas semanas. Dois deles com a mesma ministrante. E pude fazer práticas de escrita, tentar me ater a algumas propostas, além de falar, ouvir e trocar impressões sobre literatura, vida e escrita.

Desses dias todos apareceram coisas legais, mas que por enquanto ficarão restritas aos cadernos e anotações.

Após receber uma enxurrada de novas informações, conteúdos e ter a sorte e o privilégio de presenciar discussões tão ricas e pertinentes, parece-me natural deixar todo esse caldeirão fervendo em um fogo mais brando, por enquanto.

Há a necessidade e a urgência agora de trabalhar na edição do filme, além da busca de um trabalho que permita algum tipo de vida.

No mais, volto a qualquer momento com uma nova digressão.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

Crônica de uma batata viajante

Comprei uma batata pra gente, ela me contou. Só não lembro se foi por Whatsapp ou pessoalmente quando nos encontramos.

A batata Ruffles de queijo foi comprada lá pelos lados do Butantã e naquela quarta-feira viajou com a gente até aquela região entre a zona Norte e a zona Oeste, nas proximidade de Vila Nova Cachoeirinha, no CCJ, o querido Centro Cultural da Juventude, onde fomos ver Res Pública 2023.

Só que não comemos batata aquele dia porque eu tava com bicha de comer esfiha. Que eram ok, não melhores que a Mazzeratti, mas mais baratas. Renderam um piriri naquela madrugada, além de um Imosec e meio no dia seguinte.

Então a batata viajou para a zona Sul, onde ela mora. Na sexta a batata foi com a gente para a Zona Norte, ali perto da praça Campo de Bagatelle, onde vimos Silvero Pereira em BR Trans no Teatro Alfredo Mesquita. Também não a comemos naquela ocasião, pois sem muita fome antes da peça e depois do espetáculo optamos por Subway. Como ambos gostamos do mesmo recheio (frango defumado com cream cheese), dividimos um lanche de 30 centímetros que ficou mais barato do que cada um pegando um de 15.

No sábado, depois de a batata sair da Zona Sul, ela deu o ar de sua graça na região central de São Paulo onde demos um pulo na Pocket Poc-Con. Em seguida, o pacote da guloseima experimentou a região do Itaim Bibi, Faria Lima, aquela coisa longe, cara, mas foi novamente preterida porque a tentação por Joakin's falou mais alto e o senso de irresponsabilidade com as finanças também. Vimos Sombra, no Centro Cultural da Diversidade. Saímos impactados.

E mais uma vez aquela embalagem amarela percorreu a cidade de São Paulo Ville. 

Até que ontem a batata viajou para o Cangaíba, na zona Leste, nas imediações de Engenheiro Goulart, onde fomos prestigiar mais uma vez de graça a peça Lembro Todo Dia de Você, lá no Teatro Flávio Império. Desta vez comemos a batata.

domingo, 26 de janeiro de 2020

Do que eu digo quando falo de beijo na boca

Eu sempre falo em textos meus aqui neste blog sobre beijo na boca. Que queria beijar, dar uns beijos e variações do tipo.

Não que não sejam literais em si e eu não queira de verdade e de fato beijar na boca.

Mas quando eu falo de beijo na boca eu quero falar mais do que duas línguas se roçando, de misturas de suor e saliva.

Quando falo de beijo na boca eu quero falar de toque, de respiração, de lambida, de afeto, de cheiros, de pele, pelos e suores e odores.

Quando eu falo de beijo na boca eu falo de pau duro, de pau mole, eu falo de bunda, peito, coxas, de pentelhos e púbis e canelas e cotovelos e corpos pelados e a gente na horizontal, na vertical, de lado, de quatro, de ponta cabeça.

Quando eu falo de beijo na boca eu falo de cuspes, de olhares, de lábios e dentes e mordidas e amor e tesão e sorrisos e olhos fechados e abertos e abraço e carinho.

Quando eu falo de beijo na boca eu falo de sexo, de nudez, de querer transar, de querer foder, ser fodido, penetrado, encoxado, penetrar, de meter, de gouinage, suspirar, arfar, de conversar, abraçar, tocar, sentir, morrer apenas um pouquinho por vez.

Quando eu falo de beijo na boca eu falo de orgasmo, espermatozoides, porra, esperma, ejaculação, mas também tudo bem se não gozar.

Quando eu falo de beijo na boca eu falo em camisinha, se será que precisa tomar a PrEp?, cheque, vibradores, golden shower, aneis penianos, lubrificantes, estimuladores de próstata, tenga eggs, couro, chicotes, algemas, géis e papel higiênico pra limpar tudo depois. 

Quando eu falo em beijo na boca eu falo em me lambuzar, fazer sujeira, chupar pau, cu, suvaco, pescoço, orelhas, mamilos, barriga, pernas, dedos das mãos, dedos dos pés, joelhos, panturrilhas.

Quando eu falo de beijo na boca eu penso em cenários variados que podem ser baladas, bares, butecos, no meio da rua, na praça, no shopping, no banheiro, no motel, ao ar livre, na praia, na ponte, no bloco de carnaval, na virada cultural, na parada gay, num show, no sesc e durante uma peça de teatro.

Quando eu falo de beijo na boca eu falo de me apaixonar, de namorinho, relação, de escrita, de corpo, de pulsão de vida, de sair do eixo, do prumo, de intensidade, de querer romance, não querer rotina, de querer o melhor que a vida tem pra dar.

E é sobre tudo isso e muito mais que eu digo quando falo de beijo de beijo na boca.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

Das distrações

Tem duas fotos que eu queria muito tirar na minha rua, mas eu quase sempre esqueço.

Uma delas é um grafite que eu até já devo ter uma versão postada no instagram, só que o clique foi feito em outro lugar.

A outra é a foto de uns tênis pendurados em fios elétricos.

E aí está uma imagem que sempre me fascinou. Tênis. Pendurados. Em. Fios. Elétricos.

O que não sai da minha cabeça é o questionamento de como ele foi parar ali? Quem é a pessoa que joga o tênis tão alto a ponto de que ele fique lá em cima?

Jogar coisas para o alto requer uma certa habilidade e destreza.

Na terça-feira, quando eu voltava para casa lembrei que queria tirar a foto. Tava um dia bonito. Quente. Ensolarado. Saquei o celular ao mesmo tempo em que um caminhoneiro descia da boleia do seu caminhão.

Daí já viu. Minha mente foi para um mundo de aventuras sexuais imaginárias, o celular na mão serviu para que eu checasse mensagens no whatsapp, passei dos fios com os tênis pendurados e cheguei em casa sem tirar a foto.

Hoje de manhã, quando eu tava saindo, lembrei de tirar a foto. Postei ela agora há pouco no instagram. Tá aqui, para quem quiser vê-la. Agora falta fotografar o grafite.

terça-feira, 21 de janeiro de 2020

Outros jeitos de comer pipoca

Tinha feito um post falando sobre eu não gostar de pipoca, mas bem na hora de revisar, mudar o título, perdi tudo.

No texto eu contava que nem sempre eu fui uma pessoa que não comia pipoca. Que isso é uma coisa da última década mais ou menos.

Então eu listava os meus jeitos antigos de outrora de comer pipoca que incluía temperá-la com: limão, vinagre, Fondor, Ajinomoto, queijo ralado e catchup. Não tudo isso junto.

Eu mais ou menos falava daquela coisa que não podia chupar limão porque afinava o sangue. Do sódio presente no Fondor e no Ajinomoto que faz mal. E como o vinagre e o limão deixavam a pipoca murcha e como eu gosto de coisas moles e molhadinhas.

Por fim, eu concluía que parei de comer pipoca por uma questão de custo benefício. Que isso é muito capricorniano, mas que pipoca não me proporcionava nenhum tipo de prazer gastronômico específico, que enche, que não satisfaz e que comer pipoca é uma experiência pela qual eu não preciso passar, uma vez que existem guloseimas muito mais interessantes por si só que não requerem tantos incrementos e que são bem mais gostosas. 

Daí eu perdi o post e vim aqui escrever sobre uma coisa que eu escrevi, mas o meu mal uso da tecnologia fez com que a primeira versão se perdesse para sempre. É isso que dá escrever direto no publicador ao invés de fazer um rascunho antes. Uma lição que já era para ter aprendido, mas quem disse que aprendi?, visto que este post foi direto no publicador de novo. Tem coisa na nossa vida que muda. Tem coisa que não.

terça-feira, 7 de janeiro de 2020

De cuecas, livros e umas paradas pra fazer

Quase comprei dois livros hoje. Naquelas promoções de dez reais.

Desisti porque tem uns livro-fetiches mais caros e que estão na fila primeiro, que eu fico o tempo todo falando para mim mesmo que não posso comprar porque estão caros, porque estamos sem dinheiro, menos que semi-empregado, na volta a gente compra, e porque eu já tenho livros para uma vida, mas livro nunca é demais, livro é investimento, eu deveria abrir um sebo (mentira), eu deveria era ler mais, escrever mais.

Deixei para mais pra frente, depois que eu terminar a leitura de pelo menos dois, depois que avançar na feitura do filme (hoje, dei uma avançada e nem joguei video-game), depois que eu ler a dissertação do Marcelo que eu tô lendo desde o ano passado e daqui a pouco faz um ano que ele se doutorou e nossa, como o tempo passa e como é isso de ficar mais velho e assumir responsabilidades e escrever sem formatação, sem correção, sem obedecer às regras.

Na idade adulta a gente pode jogar só um pouco de video-game. Não é recomendável que adultos joguem muito video-game. Adultos devem ser infelizes e querer o que não se tem, e querer sempre mais e mais e mais e isso agora me lembrou NoPorn e eu tô sem a carteirinha do Sesc e a vida não tem sido fácil. E tá calor em São Paulo e o sol anda ardido. Tem várias coisas pra fazer, saudades de quando esse era o blog da Diana, saudades de quando a Diana escrevia.

No entanto comprei cuecas hoje. Porque algumas das minhas cuecas estão esburacadas como o meu mundo interior, esgarçadas pelo uso, frouxas como a minha coragem para enfrentar as coisas, mas eu gosto delas assim, mambembes, desbeiçadas, quase a ponto de virar pano de chão. Tem um quê de resistência nisso, têm um charme do desvalido, a aura do cafuçu da cueca vagabunda, que não se importa coa cueca. E comprei umas cueca chique, daquelas de aberturinha de lado, daquelas bem safadas. Cuecas que eu gostaria que frequentassem muito chão por aí que dois mil e vinte traga pelo menos uns beijo na boca que eu não passei a virada de calcinha azul à toa e agora lembrei que tem roupa pra lavar, que tem que pensar no que vou fazer de comida para amanhã, que eu deveria começar a fazer exercícios físicos, mas academias essas merdas já começam representando um rombo financeiro com taxa de matrícula mais avaliação física se tiver. a última não tinha e o ano novo mal começou. 






quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

Hora da Virada

É a crise. Não a minha desta vez. A do país.

Menos pessoas foram viajar então improvisaram o Réveillon do jeito que foi possível.

Meus vizinhos aqui dos arredores comemorando a chegada do Ano Novo como se não houvesse ano que vem. Haverá. Já está havendo, no caso.

A música altíssima. É que me pegou de surpresa. No Natal também teve dessas, mas é que para hoje eu tava sabe contando com uma pegada mais como nos outros dias do ano, sem toda essa festa.

Já teve uns Anos Novos mais silenciosos por aqui.

Envelheci. No ano em que serei crucificado e subirei aos céus virei uma pessoa amarga contra as festas dos vizinhos. 

É que eu tenho uma lista de coisas que adoraria fazer na Virada do Ano e uma delas era dormir, muitos risos.

Não que eu estivesse dormindo ou me preparando para tal. 

Passei a Virada escrevendo, que vamos combinar que é uma coisa que as convenções sociais não permitem. 

Foi bom o suficiente.

sábado, 28 de dezembro de 2019

Joguinho

O protagonista de “A Arte de Produzir Efeito sem Causa”, do Lourenço Mutarelli, tem um joguinho mental quando anda na rua em que fica classificando as mulheres que cruzam seu caminho entre “como” e “não como”. Acho que dispensa explicações.

Além de trazer informações sobre o personagem, o joguinho também tem a função de imprimir ritmo à narrativa quando ela se dá em um fluxo de consciência.

É um romance muito hétero. Cheguei a falar isso para ele na confraternização do curso no ano passado.

Sempre lembro desse livro, sempre lembro desse jogo. Até porque antes de entrar em contato com essa obra eu mesmo tinha uma variação dessa mesma brincadeira, que nem é tão inédita assim na história do mundo. Tem aquele ótimo de chegar a um poste antes de o farol fechar para que você não morra ou mudar de direção cada vez que trombar com um semáforo fechado.

No meu caso, meu joguinho é o “chupo” e “não chupo”. Tem a ver com o homens na rua que cruzam meu caminho, mas como eu sou naturalmente safado meu joguinho não tem muita graça. O resultado é sempre “chupo”.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

Síntese

A chuva fez subir a água podre do esgoto que não chegou a tempo de escorrer para o Tamanduateí e em decorrência disso os arredores do Mercado Municipal ficaram alagados.

As grandes poças em si nem seriam grandes problemas não fosse o terrível cheiro que tomou conta de toda a imediação.

Não houve quem não tapasse o nariz diante daquela quebra tão inesperada no ritual de compras para as festas dos próximos dias.

Era tão nojento o cheiro de coisas - sabe-se lá quais coisas - decompostas que era impossível ficar indiferente a ele.

Era um odor que impregnava o nariz, que contaminava o ar, que embrulhava o estômago e provocava até ânsia de vômito.

E era só o que faltava mesmo, vomitar nas proximidades de um dos cartões postais da cidade.

Mas a espécie humana e sua capacidade de adaptação nunca deixa de surpreender.

Ainda que o futum invadisse até mesmo o espaço do Mercadão, a vida não deixou de acontecer por causa disso. 

Carros cruzavam as ruas, pessoas tentavam se proteger da chuva como dava, aglomerando-se debaixo de toldos e marquises, compartilhando espaços restritos, dividindo o calor que emana de corpos molhados.

O comércio de queijos ia bem, apesar de o odor insistente prejudicar o paladar na hora de experimentar texturas e qualidades. 

Castanhas e frutas também eram vendidas em abundância, bem como peixes, carnes e afins.

Se antes da chuva o clima era de magia e alienação devido à proximidade da data, depois que ela passou o cheiro imprimiu a forte presença da realidade a todas as narinas ali. 

Não havia como escapar de nossos fracassos todos sintetizados naquela fedentina repentina. Não era possível camuflar mais nada. Más escolhas administrativas, ambientais e políticas resultaram naquilo. Aquele fedor era a mistura de todos nós.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

Bate-estaca

À noite eu resolvo tomar uma pílula vermelha na esperança de que a vida melhore.

E antes que eu durma o Alginac faz efeito. Já não sinto mais a inconveniente dor de cabeça e o corpo parece até estar relaxando.

Até mesmo o incômodo no peito parece dar uma trégua.

O sono vem, embora não com tanta facilidade.

Acordo uma princesa, em decorrência do comprimido mágico.

Hoje tá melhor que ontem. Tirando o bate-estaca das reformas nas imediações.

O som ao redor não anda dos melhores.

É martelo, é lixadeira, é o carro do ovo com trinta ovos por apenas dez reais ou o carro do peixe limpamos na hora.

A cabeça às vezes parece que vai explodir com as batidas sem fim. 

Boa é a hora do almoço quando para um pouco a barulheira.

terça-feira, 10 de dezembro de 2019

Sobre certos desconfortos

Dias em que eu não acordo, eu perco o sono super cedo e não consigo voltar a dormir, para então sentir muito sono à tarde quando eu deveria estar no auge da produtividade.

Dias em que tem mais coisas para fazer do que horas disponíveis e as coisas se arrastam e o desemprego pesa. E Vênus está em Capricórnio e eu nem beijei na boca.

Dias em que o presente se estica, o sono não é suficiente pra dormir, descansar te cansa mais. A mente não para de inventar novas cobranças. Nunca é o suficiente, nunca está bom. Sempre pode melhorar, mas nunca melhora.

Dias em que as notícias são ruins, em que as boas novas são mentira. Não é nem questão de copo meio vazio. É que não há copo. Está estilhaçado.

O bom é que tudo passa. Uma hora haverá de passar. E mesmo assim ainda existem uns momentos bons.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

Rascunho

Abro o caderninho de anotações. Poderia ser poético, mas aqui a poesia morre. A frase eu acabei de escrever, falando sobre o quanto a minha letra estava feia. É que eu estava testando umas canetas novas, ponta fina, coisa fina, mas minha letra ficou feia porque ela é muito porosa, mancha o verso da página quando a gramatura do papel é baixa.

Escrevo sem tentar colocar muito peso na mão e a leveza do ato faz com que os escritos se transformem em garranchos incognoscíveis. É que escrevo com uma fome, com uma ânsia como se eu fosse mudar o mundo. Uma escrita que é urgente porque ela luta contra uma ideia de fim, dos tempos, da memória, da própria vida. 

Não teve um lembrete que aproveitei para reciclar e fingir que é uma nova ideia. Apenas um rabisco, um rascunho esparso, uma observação aleatória em meio a observações não tão aleatórias. Listas sobre bastidores de processo criativo, destaques e detalhes que é de bom tom que não fiquem esquecidos.

É que escrever ajuda a fixar. É o que dizem.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

Foco

Bom dia! (Espera a plateia responder). Primeiramente eu gostaria muito de agradecer a oportunidade de estar aqui falando com vocês. Muito obrigado mesmo pelo convite. Vocês não tem ideia do quanto eu fico feliz de poder compartilhar aqui um pouquinho do que eu sei.

A segunda coisa que gostaria de falar é que eu não entendi muito bem porque é que eu fui chamado pra vir aqui dar o meu depoimento. Quando a produção me ligou para me convidar eu sinceramente achei que fosse trote e desliguei na cara da pessoa. Mas a Mariana foi tão insistente nas ligações que eu finalmente acreditei que ela estava mesmo me convidando para vir aqui falar com vocês.

Mas por que é que eu estou falando isso mesmo? (Alguém sopra alguma coisa da plateia) Ah, sim. É verdade. Eu achei que fosse trote a ligação porque eu vim aqui para falar um pouco sobre esse assunto. Daí eu fiquei me perguntando. Deve ser algum tipo de pegadinha alguém querer que eu, justamente eu, fale sobre isso.

Por que é pegadinha?, vocês devem estar se perguntando aí agora neste momento.

Daí eu respondo que desde que eu me conheço por gente, todas as minhas lembranças são marcadas por exemplos claríssimos de falta de atenção. Na escola, por exemplo, eu sempre era a criança que pedia para a tia não apagar a lousa porque ainda não tinha dado tempo de copiar tudo. A tia esperava? Às vezes sim, às vezes não. Na maioria das vezes não esperava. Então. É que eu joguei tudo fora meus cadernos e materiais escolares dessa época da minha vida, mas se fosse possível voltar no tempo, vocês iam ver. Uma pena que não é possível voltar no tempo. Tanta coisa para a ciência descobrir ainda. Voltar no tempo só por meio da memória, da literatura, da ficção. Mas a gente torce para que o progresso científico um dia nos permita voltar atrás.

Mas por que é que eu estou falando isso mesmo? (Mais um sopro da plateia) E onde eu tava? Ah, sim. É verdade. Meus cadernos escolares na infância. Eu era a criança que sempre demorava mais para copiar o conteúdo da lousa. Daí na maioria das vezes a professora apagava tudo o que estava escrito para continuar escrevendo e eu ficava com buracos gigantescos no meu caderno que era do conteúdo que eu não tinha dado conta de copiar.

E esses buracos eram gigantes porque tinha outra coisa que eu não era bom não que era calcular quanto de espaço no meu caderno eu ia precisar para copiar um parágrafo que estava na lousa. Porque na lousa ficava ali, bonitinho o parágrafo de quatro linhas. No meu caderno ele ocupava a folha inteira. Então era uma coisa assim, cheia de páginas em branco, uns espaços que iam ficando, umas lacunas que eu só conseguia preencher quando pegava emprestado os cadernos dos colegas de sala. Eram bons tempos.

Dessa época também eu lembro que quando eu era criança eu levava a tarde toda para fazer a lição de casa. De um lado eu tinha mesmo muita lição, mas de outro eu enrolava. Enrolava muito. Enrolava demais. Tava lá aprendendo uma tabuada. De repente alguma vizinha ligava um rádio eu já embarcava naqueles pagodes, muito Raça Negra, Art Popular, Sampacrew, Molejo, Exaltasamba. E eu ficava lá, no mundo encantado das relações que terminavam e não davam certo. Dos amores que se iam.

Tinha outra coisa. Às vezes eu fazia a lição de casa de frente para a TV. Aí era aquela coisa, não fazia direito nenhuma coisa nem outra. Como você vai adivinhar o valor do quadradinho assistindo Chaves? E os filmes do Cinema em Casa. Tinha vezes que eram melhores que o da Sessão da Tarde. Por falar nisso, lembrei do Resgate de Jéssica, nunca mais eu vi esse filme. Preciso procurar para ver se encontro. Mas eu dizia. Nossa. Lembrei de mais um. Lambada, a Dança Proibida. Um filme que viria bem a calhar nesses tempos de queimada na amazônia. Não, porque vocês não sabem que o plot desse filme é o de uma indigena que vai para os Estado Unidos para uma competição de lambada para chamar atenção para a causa da preservação ambiental. É simplesmente fantástico e genial.

Mas eu dizia o que mesmo? Ah, sim. Dos deveres. Das lições de matemática. Por que essa obsessão de saber o valor do quadrado? No começo é o quadrado, depois é o X, mas o X é quando você é maior, naquela época ainda eram quadrados, bolinhas e triângulos. Muito mais lúdicos, mas também porque a gente não tinha entrado ainda no campo da geometria. Raio, hipotenusa, catetos, o raio que o parta isso sim.

Eu não devia estar falando isso assim pra vocês, porque vocês são jovens. A matemática ainda faz muito parte da vida de vocês. Tem muita fórmula de Baskhara pra vocês fazerem ainda. Muita equação de segundo grau. Mas tá vendo me perdi de novo. Tava falando isso tudo daqui, por que mesmo? Ah, sim. Lição de casa. De como eu me distraia. Meu jeito de fazer a lição de casa e por isso eu me distraia tanto e nunca terminava a lição cedo é que eu fazia o dever com uns bonecos do lado. Naquelas épocas eu gostava muito de brincar de bonequinho, também porque eu era menino e não podia brincar de Barbie, mas ainda assim eu tinha uma Xena, uma Batgirl que quebrava o galho, mas meus bonequinhos não tinham isso de gênero muito bem definido não e já naquelas épocas rolava umas pegações, umas relações homoafetivas entre eles.

E isso me lembrou também de uma paixões que eu tinha, umas paixões platônicas pelo menino mais popular da sala, pelos garotos mais velhos da escola, pelo Pierre Bittencourt em Chiquititas. Eu ficava beijando a parede, fingindo que tava beijando meus namoradinhos imaginários e por isso a lição ficava lá a ser feita até às nove, dez horas da noite quando surgia um gás ou minha mãe dava um chilique. Mas eu lembro dessa época que eu perdi a estreia de Beakman, porque não tinha acabado a lição antes de o programa começar. Liguei a TV antes de o programa acabar a ponto de ver os pinguins se despedindo do programa.

Mas o que eu ia dizer mesmo, puts, jura que eu levei esse tempo todo pra falar?, nossa, nem parece. Tá vendo, não podem me dar o microfone na mão que eu desato a falar. (Ri de algum gracejo da plateia) É. Tá vendo. É isso mesmo. Eu tava só começando, uma pena que já acabou. Mas tudo bem. Agora só pra concluir. É que eu comecei a contar essas histórias pra falar que não entendi muito bem de ter sido chamado para participar desse evento e falar justamente sobre foco.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

Pausa

Precisei dar uma pausa hoje. Ainda que eu não tenha parado muito e tenha feito coisas. Ainda assim, decidi pegar um pouco mais leve comigo, mergulhar em algumas leituras que eu estava me devendo.

Engraçado como passa o tempo e não muda a mania de transformar isso aqui num diário. O exercício de escrever uma vez por dia, vamos ver quanto tempo vinga.

Eu estava há uns dias já sem jogar essas merdas viciantes no celular ou no tablet, mas hoje cabou que levantei tarde, resolvi uma pendência burocrática e me meti num jogo enquanto assistia ouvia uns videos no Youtube e no Spotify, porque agora eu dei até para ouvir podcasts. Não muitos, nem muito longos, mas já tô eu atolado de coisas para fazer e me entupo de mais uma.

Por isso que chego ao final do ano sobrecarregado, cansado e afins. Já que em termos de trabalho remunerado este mês está até agora surpreendentemente mais fraco, a ideia é aproveitar o tempo que tem.

Faltam dois episódios para terminar Jessica Jones, e toda vez que eu vejo Jessica Jones me dá muita vontade de rever Matrix. Então hoje eu vi Matrix, o primeirão, que fazia muito tempo que eu não via. Foi quase como ver pela primeira vez. Muita coisa ali que eu não lembrava.

Daí deu vontade de ver filmes do Ang Lee e me desperta a curiosidade de ver Speed Racer, que nunca vi graça no desenho e a série Sense 8 e fico me perguntando se vale à pena.

É que eu ando com o projeto de não começar coisas novas enquanto não terminar o que já comecei. Porque a gente vai se atolando de coisas e eu tenho isso de gostar de terminar as coisas iniciadas. É uma lei que criei para mim, que eu nem precisava seguir, mas eu gosto.

É bom terminar as séries e pensá-las também em algo se pode apreciar ao invés de algo que se consome para estar por dentro dos assuntos. A essa altura da vida já deu para perceber que o nosso tempo não é o tempo do capital, porque tem certas coisas que o capital quer que a gente consuma e certas coisas que não.

E acho que para um texto que nem seria, por enquanto tá bom, antes que eu comece a brisar mais do que deveria em mais um post que vai do nada para lugar nenhum.