sábado, 7 de março de 2020

Sobre uns livros, filmes e uma vida aí

Estou lendo os contos de Kafka presentes na edição de "Blumfeld, um Solteirão de Mais Idade", que a Record lançou em 2018.


Não estou gostando do livro de modo geral, nem dos contos em particular. Hoje mesmo, acabo de ler “Investigações de um cão” e sabe quando você não apreende nada?


Li como se não tivesse lido. Se tivesse uma prova para fazer sobre o livro ou sobre a história eu ia ter que me virar na força do truque para evitar me sair tão mal.


Os contos não me provocam nada, não me emocionam de jeito nenhum e ainda fazem com que eu fique pensando nas coisas que eu tenho que fazer - tomar banho, estudar alemão, procurar emprego, cozinhar, terminar de editar o filme, escrever, ler outras coisas, assistir a filmes, ir ao mercado, comprar pasta de dentes, pagar dívidas e boletos, etc etc etc.


E o pior é que lembro de ter gostado muito de ler “A Metamorfose”, que espero num futuro breve, reler.


Por outro lado, tenho lido "Delírio do Poder”, da Marcia Tiburi, e estou encantado com cada um dos textos. Um livro cheio de reflexões sobre o processo de candidatura dela ao governo do Rio de Janeiro em 2018.


Subi o livro na pilha de leitura por entender sua urgência e para tê-lo como espécie de material de aporte teórico de provocações que me acompanhariam na edição do filme sobre a candidatura da Renata.


E é curioso como cada um dos textos ecoa ainda aqui dentro depois da leitura, levando a uma série de outras impressões e reflexões, além da ampliação de noções sobre política. Um livro muito bom para fundamentar discussões depois que o pesadelo de governo Bolsonaro passar, se é que vai passar e se é que não mergulharemos em trevas ainda mais densas.


Por falar em Bolsonaro, eu tenho visto a série cinematográfica “Sexta-Feira, 13” e é impressionante como tudo que temos vivido politicamente no Brasil se assemelha muito ao arco narrativo de um filme de terror dos anos 80. Talvez eu me detenha sobre isso em outro texto no futuro breve, a depender de como conseguirei manter uma rotina de administração temporal em uma semana com Mit-SP e Faroffa, além de outros compromissos.


Por fim, mas não menos importante, tenho lido também "Palestina - Uma Nação Ocupada”, do Joe Sacco. Um livro-reportagem em quadrinhos sobre o período em que o jornalista e quadrinista norte-americano passou na Palestina lá no começo dos anos 90.


Estou quase terminando a HQ, mas digo que não foi uma leitura fácil. Não só porque ela tem muito texto, mas porque o tema não é dos mais palatáveis. Conflitos, guerra, crueldade. Um dos episódios retratados que mais me doem de ter lido foi o de forças de segurança (sempre elas) fazendo árabes cortarem seus pés de oliveiras. 


O relato da violência somado com as imagem das árvores estéreis faz com que eu fique até sem mais palavras para descrever como me sinto.


E tem também os relatos de prisões, que num certo sentido me lembraram muito o trecho da biografia do Reinaldo Arenas em que ele fala sobre seu período no cárcere.


Então, lá para as tantas no meio do quadrinho, Joe Sacco conta que é quase incomum que alguns dos homens com quem ele fala, conversa, entrevista, interage ou troca, não tenham sido presos. Um dos personagens apresenta a ele sua filha, Ansar, que foi batizada com o mesmo nome de um dos presídios da região.


Tenho pensado muito sobre a dobradinha prisão e liberdade nestes últimos dias, por conta disso. No quão duro é viver sob um regime de excessão, no quanto a desumanização é parte fundamental para que aconteça com facilidade a eliminação ou o aprisionamento do outro.


E eis que me deparo que a liberdade do contexto capitalista-neoliberal no qual nos encontramos não tem me parecido tão liberdade assim. Que além de precisarmos batalhar e construir uma liberdade comum ainda devemos tomar cuidado para não virarmos reféns de prisões de nossas mentes.


Tenho me sentido preso dentro de mim. Como se estivesse vivendo sem ter vivido.


No mais, comecei a ler “O Vendido”, do Paul Beatty, que foi um dos primeiros livros lançados pela Todavia, quando a editora nasceu. Confesso que li com dificuldade as primeiras vinte páginas, mas acho que foi o sono que eu nem sabia que eu tava. O final do prólogo me pegou pelo peito e então entrei de verdade no livro e todas as crueldades às quais o protagonista “Eu” vem sendo submetido pelo pai começaram a me deixar instigado para ver onde tudo isso vai dar.


Por enquanto é isso.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

Quintou

Mas não qualquer quintou. Um quintou de Carnaval, de ansiedade e expectativa.

Um quintou assim de já deu o que tinha que dar. De agora não adianta mais. O que não deu pra fazer até agora não será feito até a semana que vem.

É assim que é. Não se iludam. Não marquem bobeira. Evitem o autoengano. 

O dia de hoje é o de começar a jogar tudo pro alto. De começar a dar aquela pausa. Fazer tudo de modo mais arrastado, mais demorado, mais devagar.

Até a hora hoje vai passar mais lentamente. Você vai até se adiantar aos compromissos. Cair da cama mais cedo. Chegar cedo na firma.

Mesmo a chuva já ameaça cair desde as primeiras horas do dia para só desabar sobre nós no fim da tarde e atrapalhar a nossa volta pra casa.

Daí a realidade supera a ficção e a ameaça assume uma forma concreta e molhada de gotas de água caindo do céu.

Quintou de Carnaval mas não de qualquer Carnaval.

É Carnaval 2020, dos acirramentos, da vida pior, o Carnaval em que não dá pra voltar a estudar ou fazer uma pós porque mal existem bolsas para pesquisa, ainda mais em humanidades.

O Carnaval em que a minha tia fica feliz porque o importante era tirar o PT e o meu futuro vai até logo ali quando termina o raspo do tacho dos caramingué da minha poupança.

O Carnaval em que o primo faz post homofóbico no Facebook.

Então vamos viver os próximos três meses como se fossem o último, porque talvez serão.

O Carnaval da aridez dos afetos e dos sentimentos, o Carnaval dos tempos em que o amor não visceja.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

Barba de molho

A história de como fiz a barba é mais ou menos assim:

Surtei e fiz a barba.

Mentira.

Já há algum tempo eu queria tirar a barba mas tava faltando coragem de ver o rosto sem pelos.

Uma vez um boy falou que eu ia ficar com cara de puta sem a barba pois era sem a barba que eu ia para os lugares de pegação. E ele não queria olhar para minha cara e ficar "pensando no meu passado".

Risos.

Não sei o que é a cara de puta.

Achei que fiquei parecendo o Smeagle do Senhor dos Aneis.

Deu uma abaladinha na autoestima ficar sem barba. Apesar dos elogios que recebi só consegui me achar esquisito. Ainda bem que pelo cresce.

O que aconteceu foi que o pente da minha maquinha de barbear quebrou e eu não fui atras de outro.

Fui fazer a barba sem o pente e veja no que deu. Achei que ficou muito estranho. Daí por que não aproveitar que tá bem curto pra tirar e ver como fica?

Não reconheci meu rosto sem barba. Fazia tempo que não me olhava no espelho assim.

Fico melhor de barba. Ao menos mais pegável.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

Para fins de registro

É que achei no mínimo curioso que no mês em que mais escrevi até agora foi o que menos publiquei por aqui.

Estive em três cursos-oficinas nas últimas semanas. Dois deles com a mesma ministrante. E pude fazer práticas de escrita, tentar me ater a algumas propostas, além de falar, ouvir e trocar impressões sobre literatura, vida e escrita.

Desses dias todos apareceram coisas legais, mas que por enquanto ficarão restritas aos cadernos e anotações.

Após receber uma enxurrada de novas informações, conteúdos e ter a sorte e o privilégio de presenciar discussões tão ricas e pertinentes, parece-me natural deixar todo esse caldeirão fervendo em um fogo mais brando, por enquanto.

Há a necessidade e a urgência agora de trabalhar na edição do filme, além da busca de um trabalho que permita algum tipo de vida.

No mais, volto a qualquer momento com uma nova digressão.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

Crônica de uma batata viajante

Comprei uma batata pra gente, ela me contou. Só não lembro se foi por Whatsapp ou pessoalmente quando nos encontramos.

A batata Ruffles de queijo foi comprada lá pelos lados do Butantã e naquela quarta-feira viajou com a gente até aquela região entre a zona Norte e a zona Oeste, nas proximidade de Vila Nova Cachoeirinha, no CCJ, o querido Centro Cultural da Juventude, onde fomos ver Res Pública 2023.

Só que não comemos batata aquele dia porque eu tava com bicha de comer esfiha. Que eram ok, não melhores que a Mazzeratti, mas mais baratas. Renderam um piriri naquela madrugada, além de um Imosec e meio no dia seguinte.

Então a batata viajou para a zona Sul, onde ela mora. Na sexta a batata foi com a gente para a Zona Norte, ali perto da praça Campo de Bagatelle, onde vimos Silvero Pereira em BR Trans no Teatro Alfredo Mesquita. Também não a comemos naquela ocasião, pois sem muita fome antes da peça e depois do espetáculo optamos por Subway. Como ambos gostamos do mesmo recheio (frango defumado com cream cheese), dividimos um lanche de 30 centímetros que ficou mais barato do que cada um pegando um de 15.

No sábado, depois de a batata sair da Zona Sul, ela deu o ar de sua graça na região central de São Paulo onde demos um pulo na Pocket Poc-Con. Em seguida, o pacote da guloseima experimentou a região do Itaim Bibi, Faria Lima, aquela coisa longe, cara, mas foi novamente preterida porque a tentação por Joakin's falou mais alto e o senso de irresponsabilidade com as finanças também. Vimos Sombra, no Centro Cultural da Diversidade. Saímos impactados.

E mais uma vez aquela embalagem amarela percorreu a cidade de São Paulo Ville. 

Até que ontem a batata viajou para o Cangaíba, na zona Leste, nas imediações de Engenheiro Goulart, onde fomos prestigiar mais uma vez de graça a peça Lembro Todo Dia de Você, lá no Teatro Flávio Império. Desta vez comemos a batata.

domingo, 26 de janeiro de 2020

Do que eu digo quando falo de beijo na boca

Eu sempre falo em textos meus aqui neste blog sobre beijo na boca. Que queria beijar, dar uns beijos e variações do tipo.

Não que não sejam literais em si e eu não queira de verdade e de fato beijar na boca.

Mas quando eu falo de beijo na boca eu quero falar mais do que duas línguas se roçando, de misturas de suor e saliva.

Quando falo de beijo na boca eu quero falar de toque, de respiração, de lambida, de afeto, de cheiros, de pele, pelos e suores e odores.

Quando eu falo de beijo na boca eu falo de pau duro, de pau mole, eu falo de bunda, peito, coxas, de pentelhos e púbis e canelas e cotovelos e corpos pelados e a gente na horizontal, na vertical, de lado, de quatro, de ponta cabeça.

Quando eu falo de beijo na boca eu falo de cuspes, de olhares, de lábios e dentes e mordidas e amor e tesão e sorrisos e olhos fechados e abertos e abraço e carinho.

Quando eu falo de beijo na boca eu falo de sexo, de nudez, de querer transar, de querer foder, ser fodido, penetrado, encoxado, penetrar, de meter, de gouinage, suspirar, arfar, de conversar, abraçar, tocar, sentir, morrer apenas um pouquinho por vez.

Quando eu falo de beijo na boca eu falo de orgasmo, espermatozoides, porra, esperma, ejaculação, mas também tudo bem se não gozar.

Quando eu falo de beijo na boca eu falo em camisinha, se será que precisa tomar a PrEp?, cheque, vibradores, golden shower, aneis penianos, lubrificantes, estimuladores de próstata, tenga eggs, couro, chicotes, algemas, géis e papel higiênico pra limpar tudo depois. 

Quando eu falo em beijo na boca eu falo em me lambuzar, fazer sujeira, chupar pau, cu, suvaco, pescoço, orelhas, mamilos, barriga, pernas, dedos das mãos, dedos dos pés, joelhos, panturrilhas.

Quando eu falo de beijo na boca eu penso em cenários variados que podem ser baladas, bares, butecos, no meio da rua, na praça, no shopping, no banheiro, no motel, ao ar livre, na praia, na ponte, no bloco de carnaval, na virada cultural, na parada gay, num show, no sesc e durante uma peça de teatro.

Quando eu falo de beijo na boca eu falo de me apaixonar, de namorinho, relação, de escrita, de corpo, de pulsão de vida, de sair do eixo, do prumo, de intensidade, de querer romance, não querer rotina, de querer o melhor que a vida tem pra dar.

E é sobre tudo isso e muito mais que eu digo quando falo de beijo de beijo na boca.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

Das distrações

Tem duas fotos que eu queria muito tirar na minha rua, mas eu quase sempre esqueço.

Uma delas é um grafite que eu até já devo ter uma versão postada no instagram, só que o clique foi feito em outro lugar.

A outra é a foto de uns tênis pendurados em fios elétricos.

E aí está uma imagem que sempre me fascinou. Tênis. Pendurados. Em. Fios. Elétricos.

O que não sai da minha cabeça é o questionamento de como ele foi parar ali? Quem é a pessoa que joga o tênis tão alto a ponto de que ele fique lá em cima?

Jogar coisas para o alto requer uma certa habilidade e destreza.

Na terça-feira, quando eu voltava para casa lembrei que queria tirar a foto. Tava um dia bonito. Quente. Ensolarado. Saquei o celular ao mesmo tempo em que um caminhoneiro descia da boleia do seu caminhão.

Daí já viu. Minha mente foi para um mundo de aventuras sexuais imaginárias, o celular na mão serviu para que eu checasse mensagens no whatsapp, passei dos fios com os tênis pendurados e cheguei em casa sem tirar a foto.

Hoje de manhã, quando eu tava saindo, lembrei de tirar a foto. Postei ela agora há pouco no instagram. Tá aqui, para quem quiser vê-la. Agora falta fotografar o grafite.

terça-feira, 21 de janeiro de 2020

Outros jeitos de comer pipoca

Tinha feito um post falando sobre eu não gostar de pipoca, mas bem na hora de revisar, mudar o título, perdi tudo.

No texto eu contava que nem sempre eu fui uma pessoa que não comia pipoca. Que isso é uma coisa da última década mais ou menos.

Então eu listava os meus jeitos antigos de outrora de comer pipoca que incluía temperá-la com: limão, vinagre, Fondor, Ajinomoto, queijo ralado e catchup. Não tudo isso junto.

Eu mais ou menos falava daquela coisa que não podia chupar limão porque afinava o sangue. Do sódio presente no Fondor e no Ajinomoto que faz mal. E como o vinagre e o limão deixavam a pipoca murcha e como eu gosto de coisas moles e molhadinhas.

Por fim, eu concluía que parei de comer pipoca por uma questão de custo benefício. Que isso é muito capricorniano, mas que pipoca não me proporcionava nenhum tipo de prazer gastronômico específico, que enche, que não satisfaz e que comer pipoca é uma experiência pela qual eu não preciso passar, uma vez que existem guloseimas muito mais interessantes por si só que não requerem tantos incrementos e que são bem mais gostosas. 

Daí eu perdi o post e vim aqui escrever sobre uma coisa que eu escrevi, mas o meu mal uso da tecnologia fez com que a primeira versão se perdesse para sempre. É isso que dá escrever direto no publicador ao invés de fazer um rascunho antes. Uma lição que já era para ter aprendido, mas quem disse que aprendi?, visto que este post foi direto no publicador de novo. Tem coisa na nossa vida que muda. Tem coisa que não.

terça-feira, 7 de janeiro de 2020

De cuecas, livros e umas paradas pra fazer

Quase comprei dois livros hoje. Naquelas promoções de dez reais.

Desisti porque tem uns livro-fetiches mais caros e que estão na fila primeiro, que eu fico o tempo todo falando para mim mesmo que não posso comprar porque estão caros, porque estamos sem dinheiro, menos que semi-empregado, na volta a gente compra, e porque eu já tenho livros para uma vida, mas livro nunca é demais, livro é investimento, eu deveria abrir um sebo (mentira), eu deveria era ler mais, escrever mais.

Deixei para mais pra frente, depois que eu terminar a leitura de pelo menos dois, depois que avançar na feitura do filme (hoje, dei uma avançada e nem joguei video-game), depois que eu ler a dissertação do Marcelo que eu tô lendo desde o ano passado e daqui a pouco faz um ano que ele se doutorou e nossa, como o tempo passa e como é isso de ficar mais velho e assumir responsabilidades e escrever sem formatação, sem correção, sem obedecer às regras.

Na idade adulta a gente pode jogar só um pouco de video-game. Não é recomendável que adultos joguem muito video-game. Adultos devem ser infelizes e querer o que não se tem, e querer sempre mais e mais e mais e isso agora me lembrou NoPorn e eu tô sem a carteirinha do Sesc e a vida não tem sido fácil. E tá calor em São Paulo e o sol anda ardido. Tem várias coisas pra fazer, saudades de quando esse era o blog da Diana, saudades de quando a Diana escrevia.

No entanto comprei cuecas hoje. Porque algumas das minhas cuecas estão esburacadas como o meu mundo interior, esgarçadas pelo uso, frouxas como a minha coragem para enfrentar as coisas, mas eu gosto delas assim, mambembes, desbeiçadas, quase a ponto de virar pano de chão. Tem um quê de resistência nisso, têm um charme do desvalido, a aura do cafuçu da cueca vagabunda, que não se importa coa cueca. E comprei umas cueca chique, daquelas de aberturinha de lado, daquelas bem safadas. Cuecas que eu gostaria que frequentassem muito chão por aí que dois mil e vinte traga pelo menos uns beijo na boca que eu não passei a virada de calcinha azul à toa e agora lembrei que tem roupa pra lavar, que tem que pensar no que vou fazer de comida para amanhã, que eu deveria começar a fazer exercícios físicos, mas academias essas merdas já começam representando um rombo financeiro com taxa de matrícula mais avaliação física se tiver. a última não tinha e o ano novo mal começou. 






quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

Hora da Virada

É a crise. Não a minha desta vez. A do país.

Menos pessoas foram viajar então improvisaram o Réveillon do jeito que foi possível.

Meus vizinhos aqui dos arredores comemorando a chegada do Ano Novo como se não houvesse ano que vem. Haverá. Já está havendo, no caso.

A música altíssima. É que me pegou de surpresa. No Natal também teve dessas, mas é que para hoje eu tava sabe contando com uma pegada mais como nos outros dias do ano, sem toda essa festa.

Já teve uns Anos Novos mais silenciosos por aqui.

Envelheci. No ano em que serei crucificado e subirei aos céus virei uma pessoa amarga contra as festas dos vizinhos. 

É que eu tenho uma lista de coisas que adoraria fazer na Virada do Ano e uma delas era dormir, muitos risos.

Não que eu estivesse dormindo ou me preparando para tal. 

Passei a Virada escrevendo, que vamos combinar que é uma coisa que as convenções sociais não permitem. 

Foi bom o suficiente.

sábado, 28 de dezembro de 2019

Joguinho

O protagonista de “A Arte de Produzir Efeito sem Causa”, do Lourenço Mutarelli, tem um joguinho mental quando anda na rua em que fica classificando as mulheres que cruzam seu caminho entre “como” e “não como”. Acho que dispensa explicações.

Além de trazer informações sobre o personagem, o joguinho também tem a função de imprimir ritmo à narrativa quando ela se dá em um fluxo de consciência.

É um romance muito hétero. Cheguei a falar isso para ele na confraternização do curso no ano passado.

Sempre lembro desse livro, sempre lembro desse jogo. Até porque antes de entrar em contato com essa obra eu mesmo tinha uma variação dessa mesma brincadeira, que nem é tão inédita assim na história do mundo. Tem aquele ótimo de chegar a um poste antes de o farol fechar para que você não morra ou mudar de direção cada vez que trombar com um semáforo fechado.

No meu caso, meu joguinho é o “chupo” e “não chupo”. Tem a ver com o homens na rua que cruzam meu caminho, mas como eu sou naturalmente safado meu joguinho não tem muita graça. O resultado é sempre “chupo”.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

Síntese

A chuva fez subir a água podre do esgoto que não chegou a tempo de escorrer para o Tamanduateí e em decorrência disso os arredores do Mercado Municipal ficaram alagados.

As grandes poças em si nem seriam grandes problemas não fosse o terrível cheiro que tomou conta de toda a imediação.

Não houve quem não tapasse o nariz diante daquela quebra tão inesperada no ritual de compras para as festas dos próximos dias.

Era tão nojento o cheiro de coisas - sabe-se lá quais coisas - decompostas que era impossível ficar indiferente a ele.

Era um odor que impregnava o nariz, que contaminava o ar, que embrulhava o estômago e provocava até ânsia de vômito.

E era só o que faltava mesmo, vomitar nas proximidades de um dos cartões postais da cidade.

Mas a espécie humana e sua capacidade de adaptação nunca deixa de surpreender.

Ainda que o futum invadisse até mesmo o espaço do Mercadão, a vida não deixou de acontecer por causa disso. 

Carros cruzavam as ruas, pessoas tentavam se proteger da chuva como dava, aglomerando-se debaixo de toldos e marquises, compartilhando espaços restritos, dividindo o calor que emana de corpos molhados.

O comércio de queijos ia bem, apesar de o odor insistente prejudicar o paladar na hora de experimentar texturas e qualidades. 

Castanhas e frutas também eram vendidas em abundância, bem como peixes, carnes e afins.

Se antes da chuva o clima era de magia e alienação devido à proximidade da data, depois que ela passou o cheiro imprimiu a forte presença da realidade a todas as narinas ali. 

Não havia como escapar de nossos fracassos todos sintetizados naquela fedentina repentina. Não era possível camuflar mais nada. Más escolhas administrativas, ambientais e políticas resultaram naquilo. Aquele fedor era a mistura de todos nós.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

Bate-estaca

À noite eu resolvo tomar uma pílula vermelha na esperança de que a vida melhore.

E antes que eu durma o Alginac faz efeito. Já não sinto mais a inconveniente dor de cabeça e o corpo parece até estar relaxando.

Até mesmo o incômodo no peito parece dar uma trégua.

O sono vem, embora não com tanta facilidade.

Acordo uma princesa, em decorrência do comprimido mágico.

Hoje tá melhor que ontem. Tirando o bate-estaca das reformas nas imediações.

O som ao redor não anda dos melhores.

É martelo, é lixadeira, é o carro do ovo com trinta ovos por apenas dez reais ou o carro do peixe limpamos na hora.

A cabeça às vezes parece que vai explodir com as batidas sem fim. 

Boa é a hora do almoço quando para um pouco a barulheira.

terça-feira, 10 de dezembro de 2019

Sobre certos desconfortos

Dias em que eu não acordo, eu perco o sono super cedo e não consigo voltar a dormir, para então sentir muito sono à tarde quando eu deveria estar no auge da produtividade.

Dias em que tem mais coisas para fazer do que horas disponíveis e as coisas se arrastam e o desemprego pesa. E Vênus está em Capricórnio e eu nem beijei na boca.

Dias em que o presente se estica, o sono não é suficiente pra dormir, descansar te cansa mais. A mente não para de inventar novas cobranças. Nunca é o suficiente, nunca está bom. Sempre pode melhorar, mas nunca melhora.

Dias em que as notícias são ruins, em que as boas novas são mentira. Não é nem questão de copo meio vazio. É que não há copo. Está estilhaçado.

O bom é que tudo passa. Uma hora haverá de passar. E mesmo assim ainda existem uns momentos bons.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

Rascunho

Abro o caderninho de anotações. Poderia ser poético, mas aqui a poesia morre. A frase eu acabei de escrever, falando sobre o quanto a minha letra estava feia. É que eu estava testando umas canetas novas, ponta fina, coisa fina, mas minha letra ficou feia porque ela é muito porosa, mancha o verso da página quando a gramatura do papel é baixa.

Escrevo sem tentar colocar muito peso na mão e a leveza do ato faz com que os escritos se transformem em garranchos incognoscíveis. É que escrevo com uma fome, com uma ânsia como se eu fosse mudar o mundo. Uma escrita que é urgente porque ela luta contra uma ideia de fim, dos tempos, da memória, da própria vida. 

Não teve um lembrete que aproveitei para reciclar e fingir que é uma nova ideia. Apenas um rabisco, um rascunho esparso, uma observação aleatória em meio a observações não tão aleatórias. Listas sobre bastidores de processo criativo, destaques e detalhes que é de bom tom que não fiquem esquecidos.

É que escrever ajuda a fixar. É o que dizem.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

Foco

Bom dia! (Espera a plateia responder). Primeiramente eu gostaria muito de agradecer a oportunidade de estar aqui falando com vocês. Muito obrigado mesmo pelo convite. Vocês não tem ideia do quanto eu fico feliz de poder compartilhar aqui um pouquinho do que eu sei.

A segunda coisa que gostaria de falar é que eu não entendi muito bem porque é que eu fui chamado pra vir aqui dar o meu depoimento. Quando a produção me ligou para me convidar eu sinceramente achei que fosse trote e desliguei na cara da pessoa. Mas a Mariana foi tão insistente nas ligações que eu finalmente acreditei que ela estava mesmo me convidando para vir aqui falar com vocês.

Mas por que é que eu estou falando isso mesmo? (Alguém sopra alguma coisa da plateia) Ah, sim. É verdade. Eu achei que fosse trote a ligação porque eu vim aqui para falar um pouco sobre esse assunto. Daí eu fiquei me perguntando. Deve ser algum tipo de pegadinha alguém querer que eu, justamente eu, fale sobre isso.

Por que é pegadinha?, vocês devem estar se perguntando aí agora neste momento.

Daí eu respondo que desde que eu me conheço por gente, todas as minhas lembranças são marcadas por exemplos claríssimos de falta de atenção. Na escola, por exemplo, eu sempre era a criança que pedia para a tia não apagar a lousa porque ainda não tinha dado tempo de copiar tudo. A tia esperava? Às vezes sim, às vezes não. Na maioria das vezes não esperava. Então. É que eu joguei tudo fora meus cadernos e materiais escolares dessa época da minha vida, mas se fosse possível voltar no tempo, vocês iam ver. Uma pena que não é possível voltar no tempo. Tanta coisa para a ciência descobrir ainda. Voltar no tempo só por meio da memória, da literatura, da ficção. Mas a gente torce para que o progresso científico um dia nos permita voltar atrás.

Mas por que é que eu estou falando isso mesmo? (Mais um sopro da plateia) E onde eu tava? Ah, sim. É verdade. Meus cadernos escolares na infância. Eu era a criança que sempre demorava mais para copiar o conteúdo da lousa. Daí na maioria das vezes a professora apagava tudo o que estava escrito para continuar escrevendo e eu ficava com buracos gigantescos no meu caderno que era do conteúdo que eu não tinha dado conta de copiar.

E esses buracos eram gigantes porque tinha outra coisa que eu não era bom não que era calcular quanto de espaço no meu caderno eu ia precisar para copiar um parágrafo que estava na lousa. Porque na lousa ficava ali, bonitinho o parágrafo de quatro linhas. No meu caderno ele ocupava a folha inteira. Então era uma coisa assim, cheia de páginas em branco, uns espaços que iam ficando, umas lacunas que eu só conseguia preencher quando pegava emprestado os cadernos dos colegas de sala. Eram bons tempos.

Dessa época também eu lembro que quando eu era criança eu levava a tarde toda para fazer a lição de casa. De um lado eu tinha mesmo muita lição, mas de outro eu enrolava. Enrolava muito. Enrolava demais. Tava lá aprendendo uma tabuada. De repente alguma vizinha ligava um rádio eu já embarcava naqueles pagodes, muito Raça Negra, Art Popular, Sampacrew, Molejo, Exaltasamba. E eu ficava lá, no mundo encantado das relações que terminavam e não davam certo. Dos amores que se iam.

Tinha outra coisa. Às vezes eu fazia a lição de casa de frente para a TV. Aí era aquela coisa, não fazia direito nenhuma coisa nem outra. Como você vai adivinhar o valor do quadradinho assistindo Chaves? E os filmes do Cinema em Casa. Tinha vezes que eram melhores que o da Sessão da Tarde. Por falar nisso, lembrei do Resgate de Jéssica, nunca mais eu vi esse filme. Preciso procurar para ver se encontro. Mas eu dizia. Nossa. Lembrei de mais um. Lambada, a Dança Proibida. Um filme que viria bem a calhar nesses tempos de queimada na amazônia. Não, porque vocês não sabem que o plot desse filme é o de uma indigena que vai para os Estado Unidos para uma competição de lambada para chamar atenção para a causa da preservação ambiental. É simplesmente fantástico e genial.

Mas eu dizia o que mesmo? Ah, sim. Dos deveres. Das lições de matemática. Por que essa obsessão de saber o valor do quadrado? No começo é o quadrado, depois é o X, mas o X é quando você é maior, naquela época ainda eram quadrados, bolinhas e triângulos. Muito mais lúdicos, mas também porque a gente não tinha entrado ainda no campo da geometria. Raio, hipotenusa, catetos, o raio que o parta isso sim.

Eu não devia estar falando isso assim pra vocês, porque vocês são jovens. A matemática ainda faz muito parte da vida de vocês. Tem muita fórmula de Baskhara pra vocês fazerem ainda. Muita equação de segundo grau. Mas tá vendo me perdi de novo. Tava falando isso tudo daqui, por que mesmo? Ah, sim. Lição de casa. De como eu me distraia. Meu jeito de fazer a lição de casa e por isso eu me distraia tanto e nunca terminava a lição cedo é que eu fazia o dever com uns bonecos do lado. Naquelas épocas eu gostava muito de brincar de bonequinho, também porque eu era menino e não podia brincar de Barbie, mas ainda assim eu tinha uma Xena, uma Batgirl que quebrava o galho, mas meus bonequinhos não tinham isso de gênero muito bem definido não e já naquelas épocas rolava umas pegações, umas relações homoafetivas entre eles.

E isso me lembrou também de uma paixões que eu tinha, umas paixões platônicas pelo menino mais popular da sala, pelos garotos mais velhos da escola, pelo Pierre Bittencourt em Chiquititas. Eu ficava beijando a parede, fingindo que tava beijando meus namoradinhos imaginários e por isso a lição ficava lá a ser feita até às nove, dez horas da noite quando surgia um gás ou minha mãe dava um chilique. Mas eu lembro dessa época que eu perdi a estreia de Beakman, porque não tinha acabado a lição antes de o programa começar. Liguei a TV antes de o programa acabar a ponto de ver os pinguins se despedindo do programa.

Mas o que eu ia dizer mesmo, puts, jura que eu levei esse tempo todo pra falar?, nossa, nem parece. Tá vendo, não podem me dar o microfone na mão que eu desato a falar. (Ri de algum gracejo da plateia) É. Tá vendo. É isso mesmo. Eu tava só começando, uma pena que já acabou. Mas tudo bem. Agora só pra concluir. É que eu comecei a contar essas histórias pra falar que não entendi muito bem de ter sido chamado para participar desse evento e falar justamente sobre foco.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

Pausa

Precisei dar uma pausa hoje. Ainda que eu não tenha parado muito e tenha feito coisas. Ainda assim, decidi pegar um pouco mais leve comigo, mergulhar em algumas leituras que eu estava me devendo.

Engraçado como passa o tempo e não muda a mania de transformar isso aqui num diário. O exercício de escrever uma vez por dia, vamos ver quanto tempo vinga.

Eu estava há uns dias já sem jogar essas merdas viciantes no celular ou no tablet, mas hoje cabou que levantei tarde, resolvi uma pendência burocrática e me meti num jogo enquanto assistia ouvia uns videos no Youtube e no Spotify, porque agora eu dei até para ouvir podcasts. Não muitos, nem muito longos, mas já tô eu atolado de coisas para fazer e me entupo de mais uma.

Por isso que chego ao final do ano sobrecarregado, cansado e afins. Já que em termos de trabalho remunerado este mês está até agora surpreendentemente mais fraco, a ideia é aproveitar o tempo que tem.

Faltam dois episódios para terminar Jessica Jones, e toda vez que eu vejo Jessica Jones me dá muita vontade de rever Matrix. Então hoje eu vi Matrix, o primeirão, que fazia muito tempo que eu não via. Foi quase como ver pela primeira vez. Muita coisa ali que eu não lembrava.

Daí deu vontade de ver filmes do Ang Lee e me desperta a curiosidade de ver Speed Racer, que nunca vi graça no desenho e a série Sense 8 e fico me perguntando se vale à pena.

É que eu ando com o projeto de não começar coisas novas enquanto não terminar o que já comecei. Porque a gente vai se atolando de coisas e eu tenho isso de gostar de terminar as coisas iniciadas. É uma lei que criei para mim, que eu nem precisava seguir, mas eu gosto.

É bom terminar as séries e pensá-las também em algo se pode apreciar ao invés de algo que se consome para estar por dentro dos assuntos. A essa altura da vida já deu para perceber que o nosso tempo não é o tempo do capital, porque tem certas coisas que o capital quer que a gente consuma e certas coisas que não.

E acho que para um texto que nem seria, por enquanto tá bom, antes que eu comece a brisar mais do que deveria em mais um post que vai do nada para lugar nenhum.

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

Tentativa

Entender o que acontece ao nosso redor às vezes requer um esforço que a gente nem reconhece que é possível.

A sessão de hoje na análise foi mais silenciosa do que de costume. E é engraçado pensar que muitas das vezes eu começo com um suspiro ou com a frase "hoje não tem muito pra falar". Já virou até meme.

Mas é que às vezes faltam palavras. Na verdade isso ocorre com mais frequência do que eu gostaria, mas se teve algo que eu andei aprendendo nos últimos tempos é a não ficar forçando muito a minha própria barra.

Se não tem o que falar, não fala, ou deixa a mente solta, deixa vir. É difícil aproximar o que se sente da linguagem verbal, por mais extenso que seja o nosso vocabulário.

Tem uns momentos que eu amo, que é quando sou perguntado se me sinto da forma a ou da forma b. Não é raro que eu me sinta da forma ab tudo junto misturado e embolado aqui no meio.

Nem sempre se tem sobre o que falar. Nem sempre se tem sobre o que escrever. Mas já que o exercício é escrever um pouco uma vez por dia, talvez escrever sobre não ter o que escrever já resulte na própria escrita. 

Não serão todas as tentativas que darão certo no final das conta. Fica aqui o registro de uma.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

Empurrãozinho

O metrô ficou por tempo demais parado na estação Brigadeiro então eu decidi saltar ali mesmo já que a principio eu desceria na Trianon-Masp.

O meu destino ficava bem no meio do caminho entre as duas estações e eu só pensei: por que não?

Foi só deixar o vagão e dar os primeiros passos na plataforma para que o sinal indicasse que as portas se fechariam e a composição seguiria, enfim, o seu caminho. 

Já era tarde demais. Um pouquinho menos de ansiedade não faria mal. O tempo afinal nem estava contra mim naquele dia. Eu me encontrava adiantado, o que nem tem sido raro esses dias.

Aproveitaria então algo que eu estava ansiando já há algum tempo, o de testar outro caminho. Não que seria um trajeto desconhecido, já que aquela era a rota para casa.

O que eu faria era uma inversão de polaridade na rotina, trocar uma coisa não tão significativa para adotar com mais carinho a ideia das mudanças. 

Pensei no potencial metafórico de tudo isso e em como às vezes tudo que a gente precisa para testar uma coisa diferente no dia a dia é um metrô parado por tempo demais em uma estação. É quase como um empurrãozinho encorajador.

domingo, 1 de dezembro de 2019

Gugu

Não senti nada com a morte do Gugu. E não queria aqui dar uma de Henry Sobel x Gugu, mas meu negócio é que há um certo tempo eu venho formulando uma teoria de que chegamos onde chegamos por causa do que vivemos antes e o que vivemos antes foi Gugu Liberato.

Então toda essa comoção, todas essas homenagens, o espanto. Tudo isso me passou batido. Não me despertou muita coisa. Não é que eu não sinta condolências por quem sentiu sua perda, sinto. Mas é que para mim é meio difícil de desassociar Gugu de outros assuntos que andamos debatendo.

Quando Angela Davis vem ao Brasil, se diz chocada por estar sendo tão referenciada por aqui e fala que deveríamos olhar para Lélia Gonzales eu faço o exercício de procurar Lélia Gonzales. Não há quase nada dela tão acessível numa busca superficial. É preciso ir mais a fundo.

Lélia Gonzales morreu em 1994, alguns de seus trabalhos mais importantes são das décadas anteriores. Eu só estreei neste mundo em 1987. Quando Lélia morreu eu tava com 7 anos. E por aqueles períodos eu e o Brasil que me cercava estávamos diante da TV, acompanhando avidamente a guerra de audiência entre Gugu e Faustão.

A sensação que eu tenho é que enquanto uma parte do Brasil estava fazendo um esforço para libertar-se, a outra estava anestesiada. Não que tenha mudado muito, mas é que mesmo vindo de uma família onde metade das pessoas são negras, nunca discutiu-se sobre racismo em casa. Havia uma lacuna aí, de escopo, de articulação, de referenciais. 

Também não se falava sobre homofobia. E eu já sabia que havia algo de diferente comigo. E imitava o Pit Bicha e isso era engraçado e as pessoas riam e quando as pessoas riem elas gostam, né? É um sinal de que se está agradando quando se está fazendo as pessoas rirem. Alguém aí pensou em síndrome de bobo da corte? Mas eu também amava secretamente a Vera Verão.

Então tô aqui, fugindo do assunto, evocando memórias, lembrando dos bullyings sofridos por causa de Robocop Gay, uma música estranhamente progressista para a época, mas que às vezes ainda desce amarga tanto tempo depois, e que também era ferramenta para perseguições homofóbicas na infância, na escola ou na rua de casa.

Pode até parecer desarticulado tudo isso, mas de alguma forma se relaciona. Gugu é o privilégio branco, o establishment, a cara, o discurso e a ideologia do status quo. Assim como o Faustão, a programação ou o que se publica nos meios de comunicação de massa que do alto de suas torres de marfim se consideram réguas do mundo.

Também penso em Judith Butler, nas vidas precárias, nos quadros de guerra, nas vidas que são passíveis de luto. Penso em oitenta tiros que não causam o impacto que causa a queda de um forro de estuque, na desproporcionalidade da repercussão da morte de Ágatha Félix.

Enquanto cês lamentam a perda irreparável de Gugu a gente fica a chafurdar na lama, com os valores  de uma sociedade que gira em torno da branquitude, do racismo, da homofobia, do heterocispatriarcado.

   

sábado, 30 de novembro de 2019

péssima escolha de figurino

A calça que não tava ajustando tão bem, meio apertada assim nos países baixos, a cueca que tava desbeiçada além do aceitável para um dia de muita atividade, correria aquelas coisas. Isso porque eu gosto dumas cuecas já gastas, furadinhas umas cuecas que contam assim uma história além de exibirem uma áurea de calculado desleixo.

Tá tudo bem? Você parece meio desconfortável.

Tá tudo ótimo. (Fala com a voz assim com a respiração ofegada)

sexta-feira, 22 de novembro de 2019

Sem conexão entre as ideias

Leio a notícia sobre um dos casos de feminicídio do dia. Não tenho como não me indignar, não tenho como não ficar puto. Como vocês conseguem viver suas vidas dessas formas tão normais quando para mim é tão difícil?

Mas nem é só a dificuldade de naturalizar essas coisas. Tem também o se colocar no lugar do outro. Não numa pegada de empatia, mas de tentar fazer o exercício de entender.

O que é que se passa na cabeça desses caras acham que matar uma mulher, aquela com quem ele teve ou tem uma relação, é algo ok de se fazer?

Eu entendo de onde isso vem. De muito tempo atrás, da ideia de posse, do patriarcado. O que me falta é instrumento para chegar a um ponto de pensamento em que eu me identifico com todos esses inúmeros agressores que são exibidos a todo instante nesses programas popularescos que vocês tanto apreciam.

Talvez seja essa estética-cidade-alerta que distancie tanto uma possível identificação de novos agressores em potencial. No sentido em que o criminoso é sempre o outro, é sempre o monstro. Nunca é você que está com a ideia errada, a mesma ideia errada daquele cara que matou aquela mulher no caso que passou agora há pouco. 

Não consigo conceber essa linha de raciocínio que faz com que homens enxerguem as mulheres como propriedade e justifiquem que se ela não será minha não será de mais ninguém.

Digamos que eu seja o Fulano, que namorou a Cicrana, e sempre fui um cara ciumento e etc. Daí ela me trai, ou não quer mais namorar comigo. Então eu pego uma arma, porque né, acho razoável pegar uma arma. Já começa daí. A arma faz com que eu me sinta mais homem. E daí eu vou lá e mato a cicrana. Depois sou preso e choro na delegacia, digo que estou arrependido. 

O que eu juro que queria muito entender é porque escolher se arrepender? Como que tirar uma vida é uma ideia razoável como tipo acordar e resolver dar um passeio no parque.

Quão profundo no inferno do próprio mundo interior se está para continuar perpetuando esse tipo de conduta e comportamento?

Esse texto ficou uma droga. Mas é o máximo que eu consigo formular. Tudo truncado e com ideias que não se ligam e conectam, porque me faltam palavras e uma elaboração mais adequada para dar conta da minha indignação. 

Hoje uma amiga me falou que o capitalismo e a heterossexualidade compulsória são os problemas do mundo. Tendo em mente que o capitalismo se estrutura na desigualdade e no racismo, não tenho como não concordar.

domingo, 17 de novembro de 2019

Este blog deveria começar a se chamar procrastinações cotidianas. Porque as digressões de pensamento ocorrem diariamente. O que não anda ocorrendo é o registro por escrito delas e nem suas postagens posteriores.

Então que fique de aviso para as arqueólogas do futuro que viver no século 21 suga nossas forças. A história da humanidade é a história da energia desperdiçada em vão. Salvo em alguns casos.

A vontade de escrever tá aqui, me consumindo. Então eu escrevo sobre não conseguir escrever. Quem sabe em breve equalizo isso de maneira mais satisfatória.

Não queria fazer esse texto hoje, esse texto agora, mas cá estou eu, caindo na maldição de atualizar o blog com mais um mercurio retrogrado.

Sofro da sindrome de Belchior. Achando que não vou morrer no ano seguinte, mas morrendo numa sequência interminável que se sucede infinitamente, indefinidamente.

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

Balanço geral

Este ano até agora eu li trinta e um livros, mas esse número está inflado por alguns infantis bem fininhos embutidos aí no meio. Eu também terminei vinte e uma temporadas de séries e li vinte e quatro histórias em quadrinhos, dos mais diversos tamanhos. A maioria era de super-herói. Batman, para ser mais específico e algo da Marvel, mas a minha preferida foi “Pílulas Azuis”, seguida de “Golias”. Eu assisti trinta e quatro filmes, alguns mais de uma vez e somei quatro curtas nesta contagem. Vi cinquenta e três peças de teatro, ou cinquenta e duas se considerar as duas partes de “Angels in America”. Não fui a nenhuma leitura dramática. Escrevi um total de zero peças teatrais, mas terminei um livro de contos (eróticos) que precisa ser revisado, retrabalhado e ganhar alguns novos textos. Fui a três exposições. Não faço ideia de quantas vezes me masturbei ou fiz cocô e xixi. Acho que não vomitei. Fui a nove shows, cinco deles durante a Virada Cultural. Queria saber, mas não sei, quantas vezes comi no Mc Donald’s. Comi ao menos cinco batatas Ruffles participantes da promoção do Homem-Aranha. Decupei setenta por cento do documentário que filmei o ano passado. Recebi duas parcelas do seguro desemprego. Completei dez meses sem trabalho remunerado e há dois meses consegui um freela. Fiz apenas uma viagem. Caraguá. No começo do ano. E eu mal lembrava. Não fui um sábado comer pastel na casa da vó. Fui em umas três festas de peladeza. Fui só uma vez na sauna. Fui a oito Sesc(s) diferentes. Comprei trinta livros, incluindo quadrinhos nesta conta. Comprei um videogame, zerei um jogo. Gastei trezentos e quarenta e oito reais e dezessete centavos com beleza, higiene e saúde (cortes de cabelo, shampoo, pastas de dentes, escova, remédios, desodorantes e etc). Uma média de cinquenta reais por mês. Bebi setecentos e trinta e oito reais e cinquenta e sete centavos, que resulta na média de cento e cinco reais gastos com cerveja por mês. Preenchi dois cadernos médios de oitenta folhas com relatos sobre o meu dia a dia e estou escrevendo já no terceiro deles. Investi cento e cinquenta reais em itens de papelaria. Fiz dois cursos em dois Sesc(s). Fiz dois cursos de produção cultural. Participei de uma oficina de teatro em que fiquei pelado e isso mudou o que tenho pensado na vida sobre o amor. Cursei também uma disciplina sobre feminismo, transfeminismo e teoria queer na pós-graduação em filosofia da USP. Devo ter ido a vinte e sete sessões de terapia, ou análise, nunca sei como chamar. Fiz quatro semanas de exercícios na academia e também comprei um vibrador. Fui a um velório. Escrevi e postei quatro textos para o Pilhas em Série e seis para este blog aqui. Este é o post de número sete do ano até agora. Tirando a raiva de ter o desastre do Biroliro na presidência do país, poderia estar pior, poderia estar melhor.

sábado, 13 de julho de 2019

Da agonia que dá quando falam não gostar de política

Porque foi isso que nos trouxe até aqui.

Vou me repetir mais uma vez. Mas talvez sejam tempos esses de se repetir para ver se se é compreendido, apesar da minha preguiça de dizer o óbvio, talvez seja mesmo necessário.
Faz tempo que eu não ouço isso diretamente. Sobre vocês não gostarem de política. Sobre os brasileiros não gostarem de política. E vocês não fazem ideia do quanto isso me entristece muito.

Porque a política está em cada detalhezinho do dia a dia de cada um. Da sua orientação sexual, ao livro que você lê ou não lê. Daquilo que você assiste, consome até à estética do mundo que te cerca.

Se para um casal de pessoas do mesmo gênero, andar de mãos dadas é uma atitude política, por que é que se tem tanto ranço assim de discutir política, se também no fundo, discutir política é discutir afetos?

Talvez as pessoas fiquem desconfortáveis em falar sobre sentimentos, afeto, sexualidade, ou até mesmo sobre sexo e jeitos mais legais e interessantes do que os que estão aí.

Não o sexo escrachado e pornográfico que é presente na cultura brasileira de modo geral, explícito em nossas músicas ou telenovelas. E por escrachado e pornográfico não interpretem aqui que estou fazendo juízo de valor, porque não estou, porque adoro e inclusive quero.

O que estou querendo dizer é que é preciso urgentemente inventar novas formas de discutir sexo e política. Rasgar todo o véu de moralismo hipócrita que cobre essas atividades e falar sobre esses assuntos de maneira honesta e franca.

Falar. Tenho aprendido em sessões de terapia que a fala tem um potencial de cura imensa. Que falar e nomear as coisas é um processo que por mais que seja doloroso e difícil é necessário.

E que falar faz com que os monstros que habitam dentro da gente mudem de tamanho. É como se, em contato com o ar, eles diminuíssem. Mas para isso funcionar também é necessária uma escuta ativa, não só da parte de um interlocutor, mas sobretudo daquele que está falando.

sexta-feira, 12 de julho de 2019

Sobre não gostar de quem reclama de tudo porque existem trabalhos piores

Atraso-me um pouco para um compromisso às nove da manhã. Porque marcam as coisas tão cedo neste país logo no pior horário de deslocamento da cidade com ônibus e metrô tudo cheio. Mas o evento foi legal.

Minha memória me transporta para um período da vida de segurem a lista, please. Uma ilusão. A lista nunca era segurada. Ninguém tinha esse poder. Mas havia um efeito tranquilizador em meio à correria de que você não era a única pessoa naquela situação, correndo contra o tempo.

Passo pela frente de um hospital onde fui fazer exames uma vez. Check-up. Rotina. Coisa assim do coração, porque meu avô teve infarto, sabe. Nada demais. Deu tudo certo. 

O exame era aquele que você tem que ficar vinte e quatro horas com a maquininha no braço para ela anotar sua pressão cardíaca durante as atividades do dia a dia.

Bons tempos aqueles. Tinha plano de saúde naquela época. Ainda que fosse um plano que te descontasse a partir de não sei quantas consultas, sabe-se lá a partir de quantos exames. Co-participação, que chama.

E tinha gente que falava mal. Sempre tinha. Nunca tava bom. É que ainda que estivesse bem longe do ideal e tivesse umas gramas muito mais verdes por aí, a situação não estava tão ruim. Havia e há realidades piores.

Mas daí vai de cada um. Eu, de minha parte, fico aqui pensando que as experiências que vivo me enriquecem espiritualmente e me deixam mais grato.

Tem sempre uns períodos da vida em que o sol tá de rachar e não tem uma árvore para te proteger desse calor. Então quando você encontra uma sombra, ainda que seja de uma nuvem providencial é bom aprender a aproveitar.

quarta-feira, 10 de julho de 2019

Nunca ignore um mercúrio retrógrado

A sensação é a de correr contra um tempo que parece nem estar se mexendo, ou que está indo para trás.

Como se fosse aquelas esteiras de academia, mas é uma esteira de tempo. Imaterial. Quando você está atrasado e isso tem acontecido com frequencia, o tempo rodopia.

Agora você tá no seu compromisso, o seu trabalho, na sala de espera da consulta, naquela reunião que poderia ter sido um email, daí é osso.

Pode passar os três senhor dos aneis versão estendida que o tempo não vai passar. É 14 horas quando começa é 14 e um quando termina.

Bem vindos a julho, o mês mais gigante do ano até agora. Lembrei que mercúrio ficou retrógado semana passada. 

Ainda não esqueci nada, equipamentos eletrônicos funcionando e que continuem assim. O metrô tem estado bem cagado, mais cheio que o normal. Com certeza é isso. Astrologia explica. A verdade está lá fora e a lua está crescendo e linda lá em cima. Lembrem-se sempre de olhar a lua no céu. É poesia de graça.

Mas esse tempo que não passa. Esse frio que enregela os ossos e a alma. As obrigações, elas aumentam, na contramão de um tempo que arrasta correntes e quando você vê já foi.

Porque quando se está mais velho os anos passam mais rápido. Lembra, há três eras quando falávamos lá no longíquo dia 1º de julho de 2019 que metade do ano tinha passado? E agora faz 84 anos que é julho.

Eu hein. É por isso que não dá pra ignorar os efeitos de um mercúrio retrógrado, nunca. Mercúrio retrógrado é sempre época de reavaliação.

Daí que Saturno também está retrógrado. E Plutão também talvez esteja. Desse eu já não lembro. Vou ali olhar e já volto. É tá sim. Até outubro. E também em capricórnio

É muito planeta retrógrado pra lidar, é muita reavaliação pra fazer. Tava reavaliando umas coisas por aqui e tava na hora do planeta Terra explodir. Eu por mim, me dava por satisfeito.

terça-feira, 9 de julho de 2019

Ó o pesadô!

Eu fiquei assim pensando. Sabe quando você vai no mercado e compra um quilo de alguma coisa. Sei lá. Pode ser batata, tomate, carne.

Pode ser até um litro de leite, já que um litro é igual a um quilo, né. Equivalências.

Pois bem. Digamos que sejam três quilos né. Às vezes é bem complicado voltar para casa carregando sacolas pesadas e tudo mais.

E você veja só, você só foi até o mercado, logo ali perto. Andou sei lá, só alguns quarteirões. E também teve dinheiro pra comprar isso. Comida. Porque de novo está faltando dinheiro para o básico.

Três quilos de qualquer coisa já é bem mais pesado. Se a gente mudar o valor, fica mais difícil ainda.

Vamos pensar assim, numa quantidade que existe. Vamos pensar em cinco quilos. Um pacotão de arroz pro mês, em média.

Uma caixa de leite. Com 12. São doze quilos, certo? Como já falamos ali em cima.

O ponto em que eu estou querendo chegar é que quilos pesam. Um quilo tem seu peso, três também, cinco então, nem se fala. Doze é bem puxado. E galão então, de água. Daqueles de 20 litros. Requer um esforço, concordam? Sem falar que é um volume que chama a atenção.

É que eu não consigo deixar de pensar como é que faz para transportar para outro país, trinta e nove quilos de qualquer coisa.

Geralmente essas coisas pesam. E só de pensar nesse peso todo já dói até as minhas costas e a minha lombar.

sexta-feira, 5 de julho de 2019

Valores

Não sei se vocês sabem, mas já há muitos anos que eu guardo o hábito de ler a coluna da minha amiga Mônica Bergamo.

Pois bem.

Há algumas semanas, quando a Odebrecht abriu pedido de recuperação judicial os números da dívida da empresa vieram à tona.

E eu que sempre acho que nada mais vai me surpreender nesta vida, fico de novo boquiaberto.

Na verdade nem é uma surpresa, ou espanto da minha parte. Trata-se mais de uma indignação antiga, que vai sempre se atualizando.

Na lista de credores da empresa há ex-executivos, que inclusive foram delatores da Lava Jato. 

E entre os montantes para serem pagos a esses senhores há valores na casa dos milhões. Mas calma. Fiquem indignados comigo. Não me deixem chocado assim sozinho como aqueles pastores que pregam com a Bíblia em praça pública desdizendo as bichas.

Não são assim milhões de um milhão para cada um. São milhões do tipo 14 milhões para um, 16 milhões para outro, 24 milhões, 74, 80 e 285 milhões.

O legal de escrever e deixar as coisas registradas no tempo é que há uns bons anos, no começo da minha vida adulta, ainda no primeiro ano de faculdade eu era um jovem sem trabalho nem perspectiva de um, me chocando com uma altas quantias de dinheiro que sempre aparecia na mídia em casos de corrupção e escrevi que enquanto uns poucos tinham milhões eu precisava de uns trocados para carregar o bilhete único.

Digo que é legal ter esse registro, porque pouco mais de dez anos passados, continuo sendo um cara precisando de dinheiro para carregar o bilhete único. A diferença é que no momento me encontro em uma situação de semi-emprego, que vem a ser melhor que um total desemprego, mas que está bem longe de ser o ideal assim, para pagar as contas e viver deboas.

Porque o elã todo onde quero chegar é o que se faz com tanto dinheiro? Porque não se precisa de tanto assim para viver uma vida razoavelmente feliz, confortável e com afeto, aproveitando o tempo que se tem.

Não tô dizendo aqui que sou o próprio Buda ou que vivo uma vida frugal. Perto de muita gente eu sou um privilegiado em muitas instâncias, ainda que num campo muito pessoal não estou muito perto de estar como gostaria.

Sei lá. Para mim continua tendo muita coisa errada em alguns ganhando muito, rios de dinheiro, enquanto outros passam sede, literalmente.

De maneira geral, individualmente é possível fazer exercícios de desapego, de menos consumismo, de uma mentalidade anticapitalista. Repensar hábitos de consumo e vida. Quais são as estruturas sociais que se mexem com a sua atuação na vida pública? Fico curioso para saber se coletivamente esse tipo de postura também é viável.