quarta-feira, 26 de julho de 2017

Crônica de um coração mediano

Reduzi drasticamente o consumo diário de chocolate.

É a crise financeira. São as crises de ansiedade.

No sábado eu fui no 3º Distúrbio Feminino, um evento feminista que reuniu quatro bandas entre elas a minha amada Dominatrix e a empolgante e também querida Charlotte Matou um Cara.

Eu queria escrever sobre como foi tudo inspirador e em como eu sonho em aprender a tocar, só por causa do tanto de ânimo que dá de respirar o mesmo ar que pessoas incríveis como estas mulheres corajosas.

São 20 anos do Girl Gathering, o primeiro CD do Dominatrix, e isso fez com que passasse um filme na minha cabeça. Do tanto de show que eu já vi desta banda nos mais diversos lugares e com as mais diversas formações.

São tipo 14 anos desde que a minha foi transformada por causa destas músicas. Lembro de um debate que rolou no Hangar em que a Elisa disse que era gay e em como aquilo deu forças para que eu também pudesse encarar a saída do armário.

Eu queria falar do quanto os solos de guitarra me fazem bem e do quanto eu também me sinto um solitário quando vou nestes eventos por que ninguém mais que eu conheço divide estes momentos comigo. Ao mesmo tempo eu já estou mais do que acostumado a ser o presidente do clube dos corações solitários.

Sempre sendo aquele cara por quem quase ninguém se interessa, com gostos estranhos, que foge de alguns comportamentos de manada, que chega atrasado nas piadas, que está por fora das tendências, que não articula bem, que foge das pessoas, que não fala bem em público, que não performa bem em grupo, que não faz nada muito bem, enfim.

Eu queria escrever um texto chamado “Crônica de um coração punk”, sobre como a crueza da vida me interessa. De como eu gosto dos lugares sujos e acho que só lavei o meu único tênis que presta uma única vez depois de andar com ele numa rua alagada e ele já está imundo de novo.

Eu falaria neste texto como a anestesia alienante do cotidiano faz com que as pessoas esqueçam e minimizem o “estupra, mas não mata” de Paulo Maluf – inclusive continuando a elegê-lo -, mas que uma banda punk formada por mulheres pega esta frase e nos devolve gritada, na cara, emulando a violência e o próprio choque que a frase original deveria causar.

Mas nesta minha existência ocupando o não-lugar de uma vida altamente desinteressante o que dá mesmo é pra escrever no máximo uma crônica de um coração mediano e seguir o baile. E vida que segue.

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Sobre tantas coisas que eu já nem sei bem o quê

Levantei com uma fome do tamanho do mundo e até demorei um pouco mais para tomar o café da manhã.

Ontem eu terminei de ler “Toureando o Diabo” e... que tiro senhoras e senhores!

Foi tão um negócio da vida, porque tem aquela história da varinha escolher o bruxo. No caso, foi o livro que me escolheu. Pra ser lido agora, durante todos esses processos.


O bom de ler algo assim é que dá a sensação de que não é só com a gente.

Sem falar que serve de inspiração.

Tem coisa que acontece sem acontecer. Raíra disse que dá pra tatuar essa frase. E dá mesmo.

Hoje de manhã, com o apetite voraz, não tava dando. O abismo chegou chegando.

- E aí, vai pular?
- Não. Hoje eu estou a fim de voar.

Coloquei o leite na geladeira pensando nos meus dias. Não tenho escrito uma linha do romance, apesar de a cabeça estar fervilhando, pensando nele. E em tudo que eu poderia escrever aqui.

Mais uma vez, a escrita como tábua de salvação.

Mais uma vez, escrevendo para ninguém ler.

Tento.

Disfarçar a carência que me faz corar de vergonha.

Torcer para que haja algum bom humor nesta vida, para que eu não seja mal interpretado ou soe grosseiro ou desesperado.

Ser uma versão mais legal e melhorada de mim mesmo.

Esses últimos dias frios, tem sido assim. Difíceis de suportar, com altas doses de pessimismo e pequenas ondas de euforia por pequenas coisas boas, além dos grandes encontros com as amigas.

Hoje foi engraçado. Quase me apaixonei saindo da catraca do metrô. 2 segundos de paixão que se foi. Preciso melhorar essa marca. Ou não.

E também penso nas faltas. No e-mail não escrito e não enviado. Na carta aberta que talvez (não) devesse postar aqui.

Faltou um pedido de desculpas. Faltou uma explicação. Faltou me levar a sério. Porque estava lá. Escrito bem escritinho na mensagem. Porque se é importante rir de nós mesmos, também é importante saber levar as coisas a sério. Contexto. É importante. E saber ler nas entrelinhas. E isso eu chamaria de respeito e até de carinho quiçá. Migalhas de uma atenção que já não estava mais ali e que eu achei que estivesse. Faltou timing. Ah, como faltou. Tentativas de diálogos equivocadas. E faltou também objetividade.

Penso também nas minhas faltas. Que eu poderia até dizer que não faz mais falta. O que seria mentira até por tudo aqui escrito acima. A falta faz, mas a gente se acostuma. A grande questão é que já não faz mais diferença.

terça-feira, 18 de julho de 2017

Frias amenidades

E esse frio, hein?

Só não é maior do que o fogo em mim.

Hoje eu consegui dormir melhor e mais rápido.

De alguma forma e por algum motivo consegui relaxar um pouco.

Acho que estava mais cansado do que estava de fato me sentindo.

Tentei acordar mais cedo e ser mais produtivo e chegar mais cedo. Mas me confundi na hora de arrumar o alarme. Tem show hoje. Do Salgadinho. Vai ser no vale dos heterossexuais, mas as companheiras de aventuras são amadas. Pagode dos anos 90. Crescemos ouvindo. Amamos.

Massa de ar polar faz nevar no Brasil.

Eu poderia até inserir uma piada aqui sobre coração de gelo e ser a Elsa do Frozen. Não que alguém fosse rir.

Hoje eu terminei o livro do Lázaro e comecei a ler “Toureando o Diabo”. É tiro atrás de tiro.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Mais um post sobre nada em particular

Uma das melhores coisas que eu fiz nos últimos tempos foi mudar o toque genérico do despertador para Radiohead. Agora eu acordo ao som de Idioteque. Dá um ânimo pra sair da cama e viver, mesmo que no geral da vida eu ande meio assim, querendo morrer.

Tinha tanta coisa que eu gostaria de conseguir escrever para postar aqui, que fico até perdido, por não encontrar a forma. Porque para cada assunto, uma digressão, uma reflexão, uma fugida deste cotidiano louco.

Esta noite, por exemplo, não dormi muito bem. Uma crise de ansiedade fortíssima levou horas de sono embora. E tudo isso, por nada, pra nada, por bem pouco. Não que eu esteja lidando mal com meus sentimentos devido a fome na África. E não que eu também não esteja preocupado com a fome na África, mas o relato de armas apontadas para pessoas queridas deu uma azedada no dia.

Incrível como escrever é o que salva a vida.

Para termos de registro, eu tenho avançado na escrita do livro.

terça-feira, 11 de julho de 2017

Elegia

Acho que foi o Marcelino Freire em uma oficina de criação literaria que disse que se você quer fazer poesia pense no nome da sua avó.

Escreva com as suas palavras. O nome da sua vó é mais bonito do que se você tentar descrever as cores de um por do sol.

É verdade. Eu imediatamente pensei no nome das minhas avós. Maria Conceição e Justa. Quanta poesia.

Hoje a vó Justa se vai

A morte faz parte da vida e pra morrer, basta estar vivo. É sempre bom pensar na morte. A cada um, a sua hora. Não tem jeito. É preciso se conformar.

A minha vó era uma contadora de histórias. Vai ver por isso que eu sonho em ser escritor.

Vou me lembrar pra sempre das histórias da minha vó, que sempre, invetavelmente acabavam com uma bacia de doces que ela estava trazendo pra gente, mas que perdia ao escorregar na ladeira do quebra cu.

A minha vó não teve uma vida fácil. Criou e perdeu muitos filhos. Além da poesia de seu nome raro, a minha vó sempre carregou com ela uma fé e uma força que nem eu, mais novo e que cresci em um mundo com muito mais facilidades, tenho.

A minha vó viveu uma vida intensa. Com caracteristicas dos mais variados gêneros literários. De drama e melodrama com espaço também pra muita comédia.

A minha vó tem uma fé que eu nunca vou entender. Eu, que sou mais novo, penso sempre em desistir por muito menos.

A ironia de tudo é que boa parte da minha descrença tem a ver com as profundas desigualdades e injustiças desse mundão.

A minha vó era humana. Tinha defeitos e qualidades.

A vida muitas vezes foi dura com a minha avó, ensinando erroneamente que ela tinha que se curvar e servir, só por ter nascido mulher.

O livro preferido da minha vó era a bíblia, do qual eu só sei algumas passagens.

Hoje a minha vó parte.

Vá em paz, vó
Vá com deus, vó.

A vida pode não ser justa, mas a senhora é.

Viva!

sábado, 8 de julho de 2017

E se o Batman fosse gay?

Assisti, como milhares de outras pessoas, “Mulher-Maravilha”.

E incrível que né, é entretenimento e coisa e tal, mas saí da sessão com uma série de questões que tento desenvolver agora, pra ver se aquieta um pouco o turbilhão aqui de dentro.

São tantos os pensamentos e tantas coisas para falar que fica até difícil saber como começar. Então, eu começo pelo fim.

E também aviso para quem quiser ler que este texto contém spoiler.

O primeiro comentário negativo que eu vi sobre o longa  foi o do Marcelo Hessel, no Twitter, criticando a qualidade dos efeitos especiais. Saber disso me fez tremer só de lembrar de “Supergirl”, aquele filme ruim de 1984, muito responsabilizado pelo mito de que filme com heroína não dá certo.

E realmente. Os efeitos especiais na batalha final são de chorar de desgosto. Mas pelo menos, felizmente, o filme não se resume a isso.

Como um todo “Mulher-Maravilha” é muito legal. Inclusive quero rever e quero na minha coleção. O problema é que o diabo mora nos detalhes e acho que nesse sentido o filme peca em muitas coisas.

Pra começar: o amor romântico. Não precisava, mesmo, tentar usar isso pra “sustentar” o roteiro. O boy é bonitinho e tals - aliás, podia ter aparecido a neca -, mas ele ser a chave que libera a força da Mulher-Maravilha é completamente desnecessário.

Raíra apontou que Diana poderia se lembrar da tia, que levou um tiro por ela. Talvez isso não justificasse a defesa da humanidade, do “mundo dos homens”, mas pelo menos seria menos óbvio.

Muito me agrada a sequência de cenas em que ela chega a Londres. Da chegada até a luta na trincheira/povoado ela tem que lidar com uma sucessão de “não podes”. Não pode falar, não pode se vestir daquele jeito, não pode ir ajudar, não pode ir pra guerra, não pode, não pode, não pode.

Ainda assim, acho que faltou empoderar um pouquinho mais a secretária. Só por uma questão de representatividade, que importa sim e muito. Digo isso porque rola uma diversidade entre as Amazonas, mas ela é limitada. Há mulheres negras no filme, mas elas mal falam. E as amazonas são todas atléticas.

A Mulher-Maravilha é sexy lutando em câmera lenta com a bomba explodindo atrás, apesar de o filme não ficar expondo ela de maneira machista, focando em peito, coxa e bundas. Inclusive, o fato de ela ser treinada para ser melhor do que todas as outras Amazonas explicita em muito sua condição de mulher.

Porque ela é inteligente, forte, bonita, inclusive luta e não fica suada, nem despenteada. Acaba a luta e tá lá, princesa, impecável. Nem um pouco cagadinha. É bem a cobrança geral que rola sobre como as mulheres devem agir e se comportar. Ser mãe, profissional, acadêmica e se apresentar sempre impecável. Ser duas vezes melhor que um homem. Afinal, elas estão aqui para embelezar o mundo, não é mesmo?

Mas me alongo e fujo do que queria falar. A participação das mulheres no filme. Quando a Mulher-Maravilha sai de Themyscira o filme se concentra nela e nos rapazes. Assim, de imediato, não há mal nenhum nisso. Mas por se tratar do primeiro filme de herói protagonizado por uma mulher, well. Faltou um pouquinho de ousadia and feminismo aí.

Conheço nada de Mulher-Maravilha, a não ser pelo desenho da Liga da Justiça, aquele que passa(va?) no SBT e no Cartoon Network. De quadrinhos, ainda não tive o prazer de ler nenhum. Então, tá. Steve Trevor é um cara das HQs, mas pensa que seria legal a Mulher-Maravilha ter uma sidekick mulher, ao invés de um grupo de homens atuando no segundo plano.

Até porque – tá, o filme “registra” uma época – quando rola uma cena dos caras conversando, é bem um grupo de homens no whatsapp. “Uma ilha com mulheres como ela e nenhum cara por lá? Preciso conhecer esse lugar!”.

E isso me leva a dois pontos adiante. O teste de Bechdel. Aquele desenvolvido pela quadrinista de “Fun Home” que a gente tanto ama. O Buzzfeed colocou que o filme passa amplamente no teste. Saí com a percepção contrária. Daí eu me deparei com este texto aqui, que confirmava minha suspeita

O teste de Bechdel diz que para um filme ser considerado feminista, é necessário termos pelo menos duas personagens mulheres. Que elas dialoguem, tenham nome e papel de destaque na trama e que o assunto não seja sobre homem. Isso acontece no começo do filme, daí Diana sai da ilha e fuén.

E aponto isso porque pra mim o feminismo é uma questão muito importante. Fui salvo pelo feminismo e sou muito grato às feminista que conheci e que continuam me ensinando até hoje. No entanto não consegui ainda escrever uma obra feminista na vida. Minhas peças até flertam com o feminismo, mas não passam no teste, que acho inclusive um desafio muito bom para a criação. No entanto, nada ainda me veio em termos de criação artística que seja protagonizado por uma mulher.

E nisso chegamos ao segundo tópico: a heteronormatividade que o filme meio que sem querer escancara. Estamos falando de Amazonas, afinal de contas. Mulheres crossfiteiras que vivem numa ilha sem homens. Fiquei com tanta coisa para ser absorvida que confesso que este detalhe me escapou. Daí, mais uma vez foi Raíra com seu olhar espetacular para as coisas sutis que apontou. Há alguma coisa entre a tia de Diana e a outra amazona que corre para socorrê-la?

Fiquei pensando na construção dessa heterossexualidade. Que se a Mulher-Maravilha tivesse uma sidekick ao invés de um sidekick o filme talvez “correria o risco” de cair em uma homoafetividade e como esse “papel” de quebrar a barreira contra a homofobia pesaria novamente sobre uma mulher. Sempre elas na vanguarda.

E daí que chegamos no título do post. Outra das minhas indagações para comigo. E se o Batman fosse gay?

Não o gay das paródias que fazem dele com o Robin. Mas sim um herói de primeiro escalão. Um dos mais conhecidos de todos os tempos e por todo o mundo. Já parou pra pensar nisso?

Eu, que amo quadrinhos e sou apaixonado pelo Batman, sempre torci o nariz para a ideia. Um porque né – heteronormatividade à parte - isso nunca esteve nos quadrinhos. Risos.

Tá, tem umas teorias bem toscas sobre um subtexto gay entre eles, mas isso não significa nada. Até porque o Robin era teoricamente adolescente e quão doentio tudo isso seria, para além de né, um cara se vestir de morcego e sair combatendo o crime e tudo mais?

Enfim, falando sério.

Além de nunca ter estado nos quadrinhos - o Batman tem Vicky Vale, Mulher-Maravilha, Mulher-Gato e Thalia Al’Ghul como possibilidades de interesse romântico para um filme - a ideia de um Batman gay sempre veio do mundo acompanhada de um tom de deboche e de escárnio muito grande.

Recentemente li o quadrinho em que Renee Montoya, uma policial maravilhosa do universo Batman, é tirada do armário por um vilão. Há toda uma consequência dramática na trama depois disso. A falta de aceitação por parte dos pais, o bullying homofóbico sofrido até no local de trabalho.

Sei que tem também um arco, não sei em que momento da história da vida, em que Montoya acaba virando parceira da Batwoman, que também é uma personagem do bat-universo, atende pelo nome de Kate Kane (em homenagem ao Bob Kane, criador do Batman himself) é lésbica e ainda não tive a oportunidade de ler um quadrinho.

Parece que os títulos da Batwoman têm saído com um relativo sucesso e especulam que por aqui a Panini publique um encadernado dela. Assim espero.

Há um tempinho postaram em um desses grupos do Facebook a capa do quadrinho da Batwoman falando bem dele. Daí um ser na internet comentou que não curtiu as histórias “principalmente por colocarem a Sra. Kane como homossexual”. Daí vem um iluminado que responde “Pense nela como Bi e segue a vida”.

Tipo sério. A ciência precisa descobrir como se forma o pensamento humano porque eu, sinceramente não entendo essa lógica daí. Mas é ela que torna dificílimo termos um personagem gay como protagonista de um filme de heróis num futuro próximo.

No mais, sobre a heteronormatividade na indústria do consumo nerd, há uma cena que dura segundos de “Batman Vs Superman” em que o Batman/Ben Affleck/Bruce Wayne acorda ao lado de um corpo visivelmente feminino em seu quarto na mansão Wayne.

O curioso é que o filme não explora muito o lado playboy de Bruce, nem mesmo algum tipo de interesse romântico do morcegão. Em um roteiro pra lá de embolado e gigantesco, não há nenhuma menção a quem seria a bonita ali. Um corpo feminino que aparece sem nenhuma consequência dramática apenas para cumprir a função narrativa de marcar o território da heterossexualidade do personagem.

Eu adoraria que o Batman fosse gay, até porque não é muito certo que as questões sobre representatividade e diversidade caiam apenas sobre os ombros da Mulher-Maravilha ou de outras personagens femininas. Seria bom que outros heróis entrassem nesta luta.

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Nizan


Nesta semana acontece na SP Escola de Teatro (Praça Roosevelt, 210) algumas apresentações do espetáculo "Pobre Super-Homem ou o Avesso do Herói", de Brad Fraser.

A peça, que eu tive a sorte de assistir no final do ano passado, tem a Renata Peron no elenco. Foi a Renata que apareceu na timelaje divulgando o evento.

Em um momento da peça a Renata compartilha o episódio de transfobia que sofreu, quando foi atacada por um grupo de skinheads e acabou perdendo um rim.

Deve ser por isso que voltando pra casa e pensando na vida uma frase ficou ecoando na minha cabeça: "É preciso ser muito macho pra ser gay neste país".

Eu ouvi muito essa frase nos meus anos de formação e descoberta, quando era apenas um adolescente cheio de hormônios descobrindo e procurando aceitar minha própria homossexualidade e a dos outros.

Isso foi há uns 15 anos.

Passado esse tempo. Conhecendo mais pessoas e vivenciando a diversidade a gente vai questionando tudo aquilo que ensinaram pra gente. E em dois tempos eu desfiz esse raciocínio tão comum.

Pautado apenas e apenas na minha vivência e na posição de observador da vida alheia é possível afirmar que em 2017, em uma cidade grande como São Paulo, ser gay é bolinho.

A vida tem seus perrengues? Claro que tem. Acontecem episódios de homofobia? Mais do que seria aceitável em um país que se pretende evoluído.

Mas precisa ser macho pra ser gay?

Acho que não.

No geral, quando se consegue se desprender de experiências e pessoas tóxicas e homofóbicas, a vida de um gay padrão de classe média é até bem da confortável.

Agora, ser travesti. Mano. Deve ser muito mais difícil. O risco e a violência a que elas estão submetidas é de doer. Sem falar nas agressões, estar fora do mercado formal de trabalho, não ter acesso à educação garantido e muitas vezes ser expulsa de casa pela própria família.

Isso sim é de lascar o cano.

Sinal dos tempos ou sintonia meio estranha, no dia seguinte a essas minhas reflexões o publicitário Nizan Guanaes publicou na Folha uma coluna com o título "É preciso ser muito macho pra ser gay neste país".

Apesar da boa intenção e da declaração de apoio à causa gay, o texto vem com um tom que soa meio anacrônico. De novo. É preciso ser macho pra ser gay neste país?

É inegável que é preciso de coragem pra quebrar as barreiras do preconceito, além de uma boa dose de paciência, autoestima e inteligência para lidar com ignorância, preconceito e burrice até de gente conhecida e querida.

Mas, em um momento histórico no qual a gente já tem consciência de que a homofobia tem raiz ali na misoginia e no machismo, no ódio às mulheres e em tudo o que é feminino, é no mínimo temerário fazer essa afirmação.

Ai. hétero né. Esse povo sem perspectiva que fica em casa vendo Faustão. Ninguém mandou pra ele o memorando sobre as novas diretrizes do "neomovimento LGBTTQIA+" então ele não é obrigado a estar por dentro da pauta da “bolha gay”.

Ainda assim é bem equivocada a utilização da figura do macho como sinônimo de coragem. Close errado. Diante da necessidade da valorização do feminino em nós, dos questionamentos acerca da normatividade de gêneros, manter este tipo de associação é bastante dispensável.

Ninguém precisa ser macho. Nem os “machos”. Macho, queridxs é sinônimo de tudo que há de ruim no mundo atualmente. Tão, sorry, mas esse discurso já não dá mais para colar. É preciso repensar e assumir a defesa de identidades mais fluídas.

Afinal, se é pra ser algo, que seja pra ser todo dia mais bicha, todo dia um level a mais igual pokémon. =)

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Balanço

Em meados de abril, com a proximidade das férias e a ansiedade gritando, listei alguns desejos. Coisas que naquele momento específico da vida me fariam muito feliz se eu tivesse a oportunidade de fazê-las.


Chamei a minha wishlist um tanto quanto ambiciosa de "Plano de Voo".


Segue, sem edição.


***


Para as minhas férias eu quero


1.) Assistir a um filme por dia

2.) Terminar pelo menos uma série

3.) Ouvir um disco inteiro por dia

4.) Usar um dia inteiro para “meditar” – fazer um pacto de silêncio e nada de ação, apenas higiene e alimentação estarão permitidos

5.) Jogar Digimon 2, talvez até terminá-lo

6.) Andar de patins vários dias

7.) Acordar sem despertador, mas não muito tarde

8.) Não dormir tarde

9.) Escrever todos os dias. Com exceção, talvez, do dia da meditação.

10.) Jogar Pokemón Yellow?

11.) Ir ao Sesc nadar

12.) Ir na sauna

13.) Passar um dia na casa da tia Eliete


Filmes que queremos ver: os do post-it amarelo, bourne, daggenheim, uns bem gays, alguns dos monstros, o hobbit, charlie chaplin, animações DC, batman & Robin, deadpool, capinho 3.


Séries que queremos ver: Quarta temporada de Orange is The New Black. Terceira temporada de O Negócio. Série Dupla Identidade. Terceira temporada de Shield. Terceira temporada de Arrow. Sexta temporada de Glee. Segunda temporada de Kimmy Schimidt. Chewing Gum. Quarta temporada de Awkward


Livros que queremos ler: Becky Bloom ao Resgate.


***


Não preciso nem dizer que não fiz tudo. Mas, olha, fiquei muito feliz de ter feito tudo o que fiz. Tipo, não assisti um filme por dia, mas num mês, consegui ver 15 filmes. Alguns da lista, mas a grande maioria não.


Escrever todos os dias, para terminar o romance, foi outra das intenções que naufragou. Escrevi coisas bem legais, mas tô longe ainda de finalizar o livro. Já CDs eu ouvi alguns, mas poucos.


Consegui não dormir tão tarde e acordar não muito tarde sem despertador para aproveitar o dia, fazendo stuffs. Perdi algumas horas preciosas jogando Candy Crush e não andei de patins uma única vez. Em compensação, fui nadar no Sesc e dei uma passada na sauna.


A casa da tia Eliete também não rolou, mas fui na vó e na mãe. Não viajei para poder economizar, mas acabei gastando com outras coisas. Vi também 12 peças teatrais e além de "Becky Bloom ao Resgate", comecei a ler "Orgia", do Tulio Carella, mas ainda falta muito para terminar.


Não joguei "Digimon 2", mas rolou "Pokémon Yellow". Descobri como se captura o Mew e consegui em poucas horas o Bulbasar, o Charmander e o Squirtle. Joguei também "Harvest Moon - Back to Nature". Ganhei uma competição de ovelhas e atravessei praticamente uma estação. A última vez que eu joguei foi em 2014 e olhe lá.


Ah, sim. Iniciei um projeto de HQ e escrevi um novo conto erótico. Além disso, terminei a terceira temporada de "O Negócio" e a sexta e última temporada de "Glee". Li também dois quadrinhos, um deles em inglês.


No dia da meditação, fiquei em silêncio, mas me permitir ver uma apresentação do Grupo Galpão, no Sesc aqui perto de casa.


O saldo foi positivo. Hoje voltei animado e renovado para trabalhar. Com um gás bom, apesar da apreensão que eu estava ontem. Estou com novas ideias e metas de organização. E nossa, não senti falta nenhuma de estar no Facebook no dia a dia.


E isso ao mesmo tempo em que, de repente, pensando na lista, no momento em que ela foi feita, nos primeiros dias das férias e no agora, me flagrei com uma sensação que não sei explicar exatamente, mas é a de que estamos condenados a um presente eterno.


Vivemos um agora ininterrupto que ininterruptamente vai se tornando um passado que vamos esquecendo. Os problemas gigantescos vão se apequenando, até a gente se dar conta de que eles passaram, se foram, viraram coisas risíveis, que a gente quase pensa que não é possível que tenha acontecido.


O problema de dois meses atrás foi superado e hoje temos uma coleção de novos problemas que daqui a um tempo também serão esquecidos em detrimento de novos que surgirão. 


Eu ia comprar "Papers, Please" para jogar no iPad, mas bem quando a fatura do cartão virou, rolou todo o bafo do Fora Temer com o Joesley da JBS e o dólar disparou indo às alturas Isso ficou em stand by.


E já estamos no meio do ano e o que você fez.


Hoje fiz pela primeira vez na vida filé de frango à milanesa. Perdi o medo e encarei a frigideira cheia de óleo. Só queria aprender a não fazer tanta fumaça nem deixar espirrar tanto óleo. Tive que limpar o chão engordurado e o fogão. Para quem não cogitava usar uma panela de pressão, até que eu me saí bem.

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Vozes de Mariana

Há cerca de um ano eu estava (re)ingressando na Livraria da Folha, após um período de desemprego. Na verdade, voltei a trabalhar um dia depois de o acidente de Tchernóbil completar 30 anos.

As duas coisas ficaram marcadas em mim, porque fazia pouco tempo que a Companhia das Letras havia lançado o livro “Vozes de Tchernóbil”, da jornalista ucraniana, Svetlana Aleksievitch. Por conta da efeméride o título foi um dos destaques daquela semana.

Só li trechos do “Vozes” – ainda estou esperando aquela promoção de 50% de desconto maneira para garantir meu exemplar, ou se a Companhia quiser me mandar, adoraria receber – bem como de seus dois lançamentos posteriores “A Guerra Não Tem Rosto de Mulher”, sobre a participação das mulheres na Segunda Guerra Mundial e “O Fim do Homem Soviético”, sobre os impactos do pós-queda da União Soviética.

Um dos traços da escrita de Svtelana e que provavelmente ajudou a garantir o prêmio Nobel de literatura é a polifonia, ou os inúmeros depoimentos dos envolvidos no acontecimento, que ela costura para construir sua narrativa acerca do acidente nuclear.

E foco neste livro que mal li, porque foi o que mais me veio à tona quando há duas semanas fui assistir à peça “Hotel Mariana”, ainda em cartaz no Estação Satyros (praça Roosevelt, 134) aos sábados e segundas, às 20h, e domingos, às 18h. As apresentações são R$ 30 aos sábados e domingos e gratuitas às segundas.

Com depoimentos coletados pelo dramaturgo Munir Pedrosa a montagem tem no elenco nomes como Lucy Ramos, Angela Barros, Bruno Feldman, Rita Batata, Rodrigo Caetano, entre outros.

A peça usa a técnica do teatro verbatim – que eu também não sabia o que era, mas é quando os atores, usando fones de ouvido, reproduzem os relatos gravados que escutam. Me lembrou um pouco a peça “Ao Pé do Ouvido”, que esteve em cartaz em 2015.

Estive totalmente por fora dos acontecimentos de Mariana, internado em sessões de cinema na época do desastre. E antes tudo o que eu sabia da cidade era que Elizabeth Bishop e Lota Macedo de Soares passaram algumas férias por lá. Então, agora que o desmoronamento da barragem está quase fazendo dois anos, que a irresponsabilidade virou questão da Fuvest e que a peça está em cartaz, não tem como não ficar estarrecido. Tanto com a devastação em si como com a nossa alienação – inclusive a minha – em relação aos desdobramentos do caso.

O que mais me mata é o quanto é de difícil assimilação o discurso do ativista/militante que aparece no final encerrando a peça e pensar na Samarco e no trecho de “Vozes de Tchernóbil” que reproduzo a seguir:

Assim começa a história: no ano de 1986, começam a aparecer reportagens sobre o julgamento dos acusados pela catástrofe de Tchernóbil nas primeiras páginas dos jornais soviéticos e estrangeiros.

Mas, agora, imagine um prédio de cinco andares vazio. Uma casa sem moradores, mas com objetos, mobílias e roupas — coisas que ninguém nunca mais poderá usar, porque essa casa fica em Tchernóbil. Pois é justamente numa dessas casas da cidade morta que se realiza uma pequena conferência para a imprensa, oferecida pelas pessoas encarregadas de levar a cabo o julgamento dos acusados pelo acidente atômico. Nas instâncias mais altas do poder, no Comitê Central do Partido Comunista da União Soviética, considerara‑se necessário examinar as causas do delito in loco. Na própria cidade de Tchernóbil. O tribunal se constituiu no prédio da Casa da Cultura local. No banco dos réus havia seis pessoas: o diretor da central atômica, Víktor Briukhánov; o engenheiro‑chefe, Nikolai Fomín; o substituto do engenheiro‑chefe, Anatóli Diátlov; o chefe do turno, Boris Rogójkin; o chefe da seção do reator, Aleksandr Kovaliénko; e o inspetor do Serviço Estatal de Inspeção de Energia Atômica da União Soviética, Iuri Láuchkin.

Os assentos destinados ao público estavam vazios, ocupados apenas por alguns jornalistas. Aliás, já não vivia mais ninguém por lá, a cidade estava “fechada” por ser “zona de controle radiativo severo”. Não seria esse o motivo de terem‑na escolhido como local do julgamento? Quanto menos testemunhas, menor o barulho. Não havia operadores de câmera nem jornalistas estrangeiros. Decerto todos gostariam de ver no banco dos réus as dezenas de funcionários de Moscou igualmente responsáveis. E todo o estamento científico, à época do acidente, deveria ter sido obrigado a assumir as suas responsabilidades. Mas se conformaram com a “arraia‑miuda”.

Saiu a sentença: Víktor Briukhánov, Nikolai Fomín e Anatóli Diátlov receberam pena de dez anos. Para os outros, as penas foram menores. No final, Anatóli Diátlov e Iuri Láuchkin morreram em consequência da exposição às fortes radiações. O engenheiro‑chefe Nikolai Fomín enlouqueceu. Por outro lado, o diretor da central nuclear Víktor Briukhánov cumpriu toda a sentença, todos os dez anos, ao fim dos quais os seus familiares e alguns jornalistas foram recebe‑lo. O acontecimento passou despercebido. O ex‑diretor vive atualmente em Kíev e trabalha como simples escrevente em uma empresa.

Assim termina a história.

Talvez “Hotel Mariana” não ganhe o Nobel, nem o Shell ou seja contemplado em outros prêmios e festivais, mas que é uma das peças mais bonitas, necessárias, urgentes e demonstra o quanto o teatro ainda pode ser arena de debates das questões atuais, isto é.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

De sonhos e erros

Meus sonhos estão maravilhosos esses dias.

De sexta para sábado eu sonhei que ia na redação do Omelete. Faz um tempo já que vendo os vídeos no stories do instagram, dá muita vontade de trabalhar lá.

Parece um lugar legal e descontraído. Deve-se trabalhar muito e talvez seja preciso desapegar dessa mania de não gostar de spoilers.

O salário talvez seja legal, talvez não. Mas sempre rolam uns jabás e oportunidades de visitar o set de uns blockbusters ruins e esquecíveis - o que deve ser ótimo tanto para sair do marasmo da rotina conhecendo o mundo como para praticar o inglês.

No sonho, por algum motivo o Mauricio tinha algo para entregar lá e eu o acompanhava. Enquanto ele fazia o que precisava ser feito eu trocava uma ideia com o pessoal.

Mas acabei queimando meu filme ao narrar minha própria trajetória de maneira tragicômica. As pessoas, como não me conheciam, acabaram por levar a sério todo meu humor autodepreciativo e acabei tomando um puxão de orelha da Nathalia Arcuri.

Por boa parte do resto do sonho e até ao acordar, fiquei lamentando ter queimado a chance de trabalhar no Omelete. Levantei achando que aquilo tinha acontecido. "Acabei com todas as minhas oportunidades".

Nesta noite eu sonhei que ia fazer com a Raíra um curso de biscuit, ministrado por ninguém mais ninguém menos que Adriane Galisteu. Foi bem maluco. A Galisteu fazia uma participação bem curta no sonho. Apenas aparecendo na aula e chamando a turma para ir almoçar em um restaurante que ficava a algumas quadras de onde era oferecido o curso.

Almoçamos e descobrimos que a Galisteu teve algum tipo de contratempo, então o curso de biscuit seria dado pelo Miguel Falabella. Mas ele não ensinou ninguém a fazer biscuit no final das contas. Ele ficava falando sobre ele e no final das contas só sobrou eu, ele e uma assessora, pra fechar a sala.

Quando o Miguel Falabella estava colocando o capacete e subindo em sua moto para ir embora, acabei tomando coragem para pedir para ele me dar uma entrevista. Ele desconversou, mas depois que falei para ele, que já tinha o entrevistado uma vez, ele foi um pouco mais receptivo. Disse que responderia algumas perguntas por e-mail, mas não me passou o e-mail.

No final íamos embora juntos, meio a pé meio em alta velocidade, por um caminho que parecia ser a avenida Nove de Julho. Ele evitava um assalto no ponto de um ônibus dando dois reais a um assaltante e no final sua assessora acabava se machucando em uma grade e quase apanhou iniciando uma discussão sobre racismo.

Hoje eu tentei fazer a torta de cebola caramelizada da Bela Gil. Tinha comprado cebola e farinha de grão de bico na semana passada. Deu mais ou menos certo. A massa rachou, que ficou parecendo solo erodido.

A quantidade dos ingredientes da receita para a massa era pouca para o tamanho da forma que eu tenho em casa. Tive que fazer mais massa para a lateral da torta. Em compensação consegui pela primeira vez na vida acertar o ponto da cebola caramelizada. A torta não ficou incrível e formosa, mas dá para comer.

O legal de ter "errado" a torta, é aprender com o erro e ver que preciso mudar a quantidade de farinha, água e azeite da próxima vez. Talvez até fugir do conceito vegano e usar um ovo para dar liga, como numa massa de quiche convencional. Enfim. Acho que por hoje é só.


sexta-feira, 5 de maio de 2017

Projeções

Maio começou com um feriado, trazendo também as férias.

Férias que quanto tempo eu não tinha. Férias remuneradas, de trinta dias. Vamos aproveitar, porque vai que deixa de existir.

Além disso, eu também estava precisando. De um tempo, sabe? Pra pensar na vida.

O primeiro dia oficial das férias foi na terça. Então na segunda eu tentei fazer uma espécie de retiro caseiro do silêncio.

Inspirado por um livro que eu tava lendo, decidi me dedicar ao silêncio meditativo e contemplativo.

Tive que quebra-lo por motivos de força maior. Teve uma apresentação do Grupo Galpão aqui do lado de casa. E a não ser por uma vez ou outra que falei comigo em voz alta e na hora de falar para a mocinha do mercadinho passar as compras no débito eu não fiz nada, e também não falei nada.

Aliás. Nada fazer é algo que eu estou tão desabituado, que confesso que foi difícil. Minha pilha de livros e gibis está gigante. Assim como as séries e filmes para ver. Há muitas coisas com as quais ocupar os tempos livres.

Pois bem. Um dos projetos das férias era: assistir um filme por dia, ouvir um disco por dia e terminar algumas séries como a sexta temporada de “Glee”, pra me livrar logo desse carma, e a terceira temporada de “O Negócio”.

Já estou no quarto dia e nem tudo deu. Estou um pouco mais adiantado em “O Negócio”. Hoje a internet está meio embaçada então não consegui ver nada do que tenho na lista infinita da Netflix. O que me faz pensar: ao mesmo tempo em que a Netflix é maravilhosa, cria uma dependência, né?

Com a internet sem funcionar muito bem, vagou uma janela na minha programação de “ver coisas” e daí pensei. Fazer o quê com o tempo livre, não é mesmo? Daí que a tarde eu li. E vim então escrever esse post.

Eu podia trabalhar na edição do podcast, mas a internet e a dor nas costas complicam. Poderia então trabalhar no livro. Sim, porque né. Acho tão pretensioso dizer que eu estou escrevendo um livro.

Esses dias consegui trabalhar nele. Na verdade, passar a limpo e incrementar dois capítulos escritos em março (!!!). E também comecei mais um. Aquele sonho romântico de passar o dia inteiro escrevendo ou pelo menos quatro horas seguidas, ainda não aconteceu.

Fazendo um mea culpa, me faltou disciplina na, haha, primeira semana das férias. Semana que vem, tento compensar isso. Prometo. O problema é que nada do que eu tenho escrito eu acho bom. Tudo parece horroroso e aí é uma luta. Porque eu fico o tempo todo dizendo para mim mesmo que tá tudo uma bosta, que ninguém vai ler, que ninguém vai comprar, que ninguém vai se interessar por isso, que não é criativo, que não é ousado, que a estrutura é fraca, que não tem conflito, que eu nunca vou me sentar no panteão dos grandes escritores brasileiros,  que tem muito sexo, imagina sua mãe, sua vó e suas tias lendo isso. Como seus parentes vão conversar com você no churrasco, você nunca mais vai ser convidado para uma festinha na vida.

Sobre os discos, consegui ouvir o novo do Criolo, o novo do Gorillaz e um que eu esqueci o nome do Hercules & Love Affair. Gostei muito do primeiro. O segundo achei chato, boring, sem nenhum grande hit, nada  que fique na cabeça como des pa ci to e o terceiro também não virei fã não.

sábado, 1 de abril de 2017

Acordo acachapado. A sensação diária é a de corpo moído, trucidado. Parece que apanhei. É difícil despertar e mais difícil ainda levantar. Pareço carro a álcool que demora a pegar no tranco.


A vontade, a minha vontade, era de passar o dia inteiro lendo, acumulando inteligência. Lembra no Matrix que o download de um software faz você aprender a pilotar um helicóptero? 


A ideia é mais ou menos a mesma. Ler, ler um monte, ler pra caralho, ler até o infinito, só morrer depois de ler. E aí sim. Aí sim, quando estiver pronto, com muito e muito conhecimento e saber, enfrentar o dia a dia, encarar o mundo lá fora, ir lá, dar um oi pra vida.


Hoje achei que fosse me dar uma crise de ansiedade, mas não deu. Ainda bem que eu comprei maracujá. Escrever também ajuda. E lembrar de respirar me salvou.


É que de repente, as possibilidades e os caminhos para atingir os objetivos parecem tão longos, tão distantes, tão difíceis e injustos, que tem hora que a vontade que dá é desistir. É bater asas e voar. É desencanar, se conformar, apenas deixar tudo pra lá. 


Valeu a tentativa. Esse negócio de ser paciente não é pra mim. Há uma urgência de tudo aquilo que eu não fiz. Todos os projetos engavetados, enraizados, intocados, ou simplesmente parados.


Precisa esperar mas não pode mudar de ideia. E aí, quando sofremos ação do tempo, porque novas ideias vão surgindo, a gente faz o que? Refaz planos, adapta realidade, enfia o dedo no cu e rasga junto com os projetos, com os sonhos e as vontades não realizadas.


Queria acabar todo esse texto de um jeito mais otimista, mas não vai dar. Então, paro por aqui. Depois retomo.



quarta-feira, 8 de março de 2017

O poder das pequenas coisas

Eu não preciso de coisas grandes pra ser feliz.

Tipo carro, helicóptero, jet-ski, jatinho.

Sou feliz fazendo pequenas coisas.

Gosto de gastar sola de sapato andando pela cidade.

Eu amo os livros, sabe. Só me falta tempo para lê-los.

Mas se são as pequenas coisas coisas as responsáveis pela maior parte da felicidade, são elas às vezes quem faz parecer que está tudo dando errado.

É um e-mail enviado e não respondido. É o comprovante de transferência bancária que não sobe no site. É o sistema que cai.

É o despertador tocar e você não conseguir levantar. É prender o dedo na porta, bater o dedão na quina da cama.

É querer e não ter dinheiro. É ficar sem saldo no bilhete único. É louça na pia. É precisar usar o banheiro e não poder - porque tem uma família morando ali.

São as coisas espalhadas pelo quarto, a bagunça espalhada no chão da casa.

É escrever este post pela segunda vez, porque da primeira o aplicativo desligou, não tinha rascunho salvo e eu perdi tudo que tinha escrito.

Arrumar a cama vira uma necessidade para manutenção da sanidade mental. Ter a ilusão de que alguma coisa está nos eixos.  É a primeira tarefa para uma lista de atividades realizadas e que vem seguida de: tomar banho, tomar café e escovar os dentes. Não necessariamente nesta ordem.

Enquanto isso, o romance fermenta, lá, intocado e a nova peça aguarda continuidade e conclusão.

A única coisa que dá um pouco de esperança é saber que depois de um dia, vem outro. Daí a gente torce para as pequenas coisas do dia seguinte serem diferentes.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Seguindo



Eu já acordo com dor nas costas.

Digressões.

Que pretensioso eu. Querendo oferecer pílulas reflexivas sobre as grandes questões contemporâneas para a humanidade, sendo que tudo isso mais me consome com perguntas do que me faz chegar a respostas.

Sono e fome são sentimentos constantes.

Mal posso esperar pelo Carnaval para dormir.

Tudo que eu queria dizer torna-se impublicável.

Limites, censura, freio, implicações, consequências.

Jogo a toalha. Foco em fazer tudo o que eu preciso fazer.

Força. Preciso. Sigo.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

A melhor história do dia tem a ver com a Lava Jato, como não poderia deixar de ser.

Pipocando entre abas abertas em notícias de jornal online, deparo-me com informações sobre os acervos dos ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso e Lula.

Tem farinha no acervo do Lula.

Alguém deu farinha para o Lula comer.

Alguém deu farinha para o Lula colocar na comida e dar aquela sustância.

Alguém deu farinha para o Lula refogar com alho, cebola e o que mais ele quiser e transformar numa bela farofa.

Quando a Dilma saudou a mandioca em junho de 2015 ela só faltou ser defenestrada do Planalto no mesmo dia. Em janeiro de 2017 a Revista da Cultura da Livraria Cultura trouxe uma matéria que exaltava a mandioca e suas propriedades nutritivas indicando sua papel de destaque na culinária popular, sobretudo nos anos de formação do Brasil colônia (e império, talvez?).

A mandioca é um alimento usado para, além de outras coisas, fazer farinha

E a farinha do Lula está lá. Estragando.

Em um dos noves contêineres lacrados pela operação da Polícia Federal, junto com mais um monte de coisas que devem estar lá, apodrecendo também.

Um capacete do Ayrton Senna, um capacete da Petrobras. Nove mil novecentos e sessenta e cinco livros – será que tem uns quadrinhos ali no meio? Umas graphic novels? Ou seria tudo sobre política, economia, autoajuda, será que tem só clássicos da literatura ou rolam uns autores contemporâneos mais alternativos ou líricos?

Será que tem de poesia? Acho que não.

Poesia parece que está faltando.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Pequeno almoço

Você já viu uma máquina de lavar trabalhando?

Já botou reparo quando ela está  centrifugando as roupas?

Tem horas que eu sinto a minha cabeça exatamente desta maneira.

Como se ele estivesse centrifugando rapidamente um milhão de pensamentos de um jeito muito veloz.

É o que a gente chama de turbilhão.

Às vezes a única vontade que dá é de ficar quietinho, esperando a máquina terminar de trabalhar, apenas pra tentar atingir uma espécie de silêncio interior, bastante difícil, no meu caso, de ser alcançado.

Ontem eu fiz carne de soja para a janta e para levar de marmita. Fui misturando um milhão de temperos. Chimi-churri, nóz-moscada, orégano, açafrão, coloral, curry, azeite, páprica, alho, cebola, shoyo e sal. Coloquei creme de leite depois de tudo isso.

O resultado é que o meu café da manhã foi mesmo um pequeno almoço.


quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

tardio



Só faço pensar em destemperança.

Em como a falta de visão de futuro nos paralisa.

Vá, siga por esse caminho.

Não. Nem pense em fazer o que quer e o que deseja.

O caminho é muito arriscado. Há um perigo alto de tombar.

Sem falar no significado de tudo, abrir mão.

E quando há medo e o preço a ser pago é alto?

Li ontem o material promocional de um livro que destacava a infância e a adolescência em um período que ia dos 3 aos 16 anos, pelo menos para os temas apresentados - postura corporal.

E eu vivendo com dor nas costas.

Já li algumas vezes nesses textos que pipocam pela timelaje que os 30 são os novos 20 e que os 40 são os novos 30.

Difícil.

Quando eu completei 20 anos, tinha toda uma ideia do que eu queria para quando chegasse aos 30 e a vida foi por um caminho bem diferente do que eu imaginava. Quando eu fiz 25, bateu a crise de que a rota estava mesmo diferente.

Eu não faço ideia do que vai ser de mim daqui a dez anos. Eu não faço ideia do que vai ser de mim daqui a cinco segundos.

Ontem fui assistir "Rogue One" e quando o filme acabou o metrô já havia encerrado sua operação comercial.

Resolvi andar um pouco para pensar na vida e em como eu faria para chegar em casa. Sim, chegar EM casa, foda-se regra gramatical que não faz sentido.

Considerei ir a pé até a Paulista. A ideia era pegar um ônibus para o Parque Dom Pedro II e de lá outro que fosse para a zona leste.

Não queria gastar dinheiro com taxi, uber ou qualquer coisa do gênero.

Caminhei da Santa Cruz até a Vila Mariana pela rua deserta de pessoas e vidas, ocupada apenas por carros, carros e mais carros.

O cansaço, o sono, a preguiça, a ansiedade e as preocupações me dominaram. Acabei chamando um taxi pelo aplicativo e cheguei em casa, derrotado e exausto.

O mais difícil de tudo é pensar, querer literalmente mudar, pensar, mas não chegar a uma conclusão.

Será que isso é apenas um traço de amadurecimento geracional tardio do tipo tá todo mundo mal ou é só pobreza mesmo?